A eleição sequestrada por forças internas e externas
Por trás dos candidatos, operam máquinas de poder, interesses internacionais e sistemas de comunicação que disputam o futuro do Brasil
Desde que foi lançado como presidenciável, Flávio Bolsonaro corria sozinho no campo da direita. Agora, tudo indica que terá de disputar votos com Romeu Zema e Ratinho Júnior.
Os três têm objetivo único: evitar a reeleição de Lula, num processo eleitoral que deixou de ser apenas doméstico e passou a integrar um tabuleiro mais amplo, onde comunicação, geopolítica e Big Techs operam de forma decisiva.
As informações publicadas neste final de semana indicam que Ratinho será anunciado como candidato do PSD à Presidência da República nos próximos dias. E Zema renunciou ao cargo de governador de Minas Gerais com um discurso de candidato ao Planalto.
Mas essa é apenas a superfície do que está ocorrendo na campanha eleitoral de 2026.
A eleição que já começou também fora do Brasil
A eleição presidencial de 2026 já começou. E começou fora das urnas. Mais do que isso: começou também fora do Brasil.
O que está em curso não é apenas uma disputa entre candidaturas nacionais. É a inserção do processo eleitoral brasileiro em um cenário mais amplo de disputa geopolítica, onde comunicação, influência e poder externo operam de forma cada vez mais direta.
O que se revela é algo mais profundo: a eleição brasileira passa a ser disputada simultaneamente por forças internas e externas, em um ambiente onde política, comunicação e estratégia internacional se sobrepõem.
O Brasil como eixo da disputa global
A reportagem de capa da revista CartaCapital desta semana explicita o que antes era tratado como hipótese: a intensificação das ações dos Estados Unidos para influenciar a política brasileira e latino-americana.
Para Washington, o Brasil não é apenas mais um país da região. É peça-chave.
Sem o Brasil, não há controle pleno do tabuleiro sul-americano.
Essa estratégia se manifesta por múltiplas vias:
- pressão diplomática
- sanções econômicas
- ações de inteligência
- apoio a candidaturas alinhadas
Desde 2025, sob a liderança de Donald Trump, esse movimento se intensificou. E o Brasil tornou-se o centro dessa disputa.
Interferência, pressão e o avanço da ingerência externa
Os sinais dessa movimentação já apareceram. A crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos em 2025 envolveu sanções, pressões comerciais e manifestações públicas de apoio de Trump a Jair Bolsonaro, além de críticas diretas ao sistema político brasileiro.
A reportagem da CartaCapital vai além: descreve um ambiente de interferência que inclui tentativas de manipulação eleitoral, atuação diplomática com objetivos políticos e a construção de narrativas que podem justificar ações mais duras, como a classificação de organizações criminosas brasileiras como grupos terroristas.
Esse tipo de enquadramento não é neutro. Ele abre caminho para formas mais agressivas de ingerência.
O "poder Massa" e a nova infraestrutura de influência
É nesse cenário que surge a candidatura de Ratinho Júnior, capaz de ameaçar as pretensões de Flávio Bolsonaro, de Romeu Zema e a reeleição de Lula. Não como um fenômeno isolado, mas como parte de uma transformação mais ampla da direita brasileira.
Ratinho entra na disputa com um diferencial raro: o respaldo indireto de uma das mais capilares estruturas de comunicação popular do país, construída por Carlos Roberto Massa, o Ratinho pai. E o chamado “poder Massa” não é apenas regional. Ele já opera em escala nacional.
A rede Massa FM, que em março de 2026 alcançou cerca de 90 emissoras, está presente em pelo menos dez estados e cobre todas as regiões do Brasil — do Sul ao Sudeste, do Centro-Oeste ao Norte e ao Nordeste, com presença em estados como São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Rondônia e Maranhão.
Trata-se de uma capilaridade rara. Uma rede que fala diariamente com o chamado “Brasil profundo”, com forte penetração nas classes C, D e E, utilizando linguagem popular, música sertaneja, humor e estratégias de engajamento direto.
Não é apenas audiência. É presença contínua. É familiaridade construída no cotidiano.
Rede nacional com sotaque local
No rádio, a lógica é híbrida: uma programação nacional — gerada a partir de São Paulo e Curitiba — combinada com janelas locais que garantem enraizamento regional. Na prática, isso cria algo ainda mais poderoso: uma rede nacional com sotaque local.
Na televisão, a força é concentrada, mas estratégica. A Rede Massa cobre 100% dos municípios do Paraná por meio de uma estrutura que garante audiência massiva e presença territorial consolidada. Mas o império não se limita a rádio e TV.
O grupo inclui portais digitais, eventos de grande escala no interior do país e negócios no agronegócio, ampliando sua presença econômica, simbólica e territorial. O resultado é uma arquitetura de influência que vai além da mídia.
É um ecossistema. E é isso que distingue Ratinho Jr. dos demais candidatos. Alguns disputam tempo de TV. Outros disputam algoritmos.
Ratinho já opera dentro deles — e fora deles. Porque dispõe de algo que não se constrói em campanha: presença cotidiana.
Lula tem o que temer — ou o alvo é outro?
Diante desse cenário, a pergunta é inevitável. E a resposta é sim — e seria um erro subestimar uma candidatura com base midiática e capilaridade popular.
Mas, no curto prazo, o impacto mais imediato parece ocorrer em outro campo. O primeiro atingido pode ser Flávio Bolsonaro.
Ratinho fragmenta o eleitorado de direita, oferecendo uma alternativa menos radicalizada e mais palatável. E a associação direta com Donald Trump pode ampliar rejeições de Flávio fora do núcleo bolsonarista.
A nova direita e o redesenho do poder
O que está em curso é uma transição dentro da direita brasileira. O bolsonarismo abriu caminho pela ruptura. Agora, surge uma tentativa de reorganização:
- menos confronto
- mais gestão
- menos ruído
- mais construção de imagem
Mas com o mesmo objetivo: o poder.
Essa nova direita não abandona o terreno conquistado. Ela o reorganiza, adapta sua linguagem e busca ampliar sua base social sem carregar integralmente o desgaste do radicalismo anterior.
A América Latina se divide — e o Brasil está no centro
Essa reorganização não ocorre isoladamente. Ela se articula com um movimento geopolítico mais amplo.
No dia 7 de março de 2026, Donald Trump reuniu, em Mar-a-Lago, a cúpula “Shield of the Americas”, com a presença de representantes de 12 dos 20 países da América do Sul.
Mas o dado mais revelador está nas ausências. Luiz Inácio Lula da Silva, Claudia Sheinbaum e Gustavo Petro disseram não. Brasil, México e Colômbia recusaram o convite.
A ausência foi política. O continente se divide. De um lado, governos alinhados a Washington. De outro, países que buscam preservar autonomia. E, nesse cenário, o Brasil deixa de ser apenas um país em eleição.
Permanece como principal campo de disputa estratégica da América Latina.
Big Techs e a arquitetura invisível do poder
Há uma camada ainda mais profunda — e talvez a mais determinante desse processo. A presença dos executivos das grandes plataformas digitais na posse de Donald Trump, em 2025, sinalizou a convergência entre poder tecnológico e poder político.
Esse modelo remonta à atuação de Steve Bannon e dos chamados “engenheiros do caos”. Desde então:
- algoritmos moldam percepção
- dados orientam estratégia
- plataformas amplificam narrativas
As Big Techs deixaram de ser apenas plataformas. Tornaram-se infraestruturas políticas. E operam diretamente sobre processos eleitorais.
A disputa real
A eleição de 2026 não será apenas uma disputa entre candidatos. Será uma disputa entre modelos de poder. Mas é preciso ir além. Não são apenas Lula, Flávio ou Ratinho que estão em disputa.
O que está em curso é um confronto entre máquinas de poder — nacionais e internacionais.
Não são apenas campanhas.
São arquiteturas de influência.
Não são apenas propostas.
São estratégias de controle.
A eleição tornou-se uma guerra informacional.
Nesse novo terreno, vence quem controla os fluxos, domina os algoritmos e molda percepções. O voto permanece. Mas já não decide sozinho. E é aqui que tudo converge.
A cúpula em Mar-a-Lago, a reorganização da direita, a atuação das Big Techs e a pressão internacional não são eventos isolados. São partes de uma mesma engrenagem. Uma engrenagem que opera antes, durante e depois da eleição.
O Brasil entra, agora, nesse território. E a pergunta final deixa de ser apenas quem vence. Passa a ser outra: quem está definindo as regras do jogo.
Quando a disputa real acontece antes do voto — quando alianças internacionais, máquinas de comunicação e algoritmos moldam o campo eleitoral — o que está em jogo já não é apenas o resultado.
É a própria soberania — atacada, desfigurada e submetida a uma disputa global que atravessa o voto e redefine, silenciosamente, o destino do país.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
