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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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A eleição sequestrada por forças internas e externas

Por trás dos candidatos, operam máquinas de poder, interesses internacionais e sistemas de comunicação que disputam o futuro do Brasil

Urna eletrônica (Foto: Antonio Augusto/Ascom/TSE)

Desde que foi lançado como presidenciável, Flávio Bolsonaro corria sozinho no campo da direita. Agora, tudo indica que terá de disputar votos com Romeu Zema e Ratinho Júnior.

Os três têm objetivo único: evitar a reeleição de Lula, num processo eleitoral que deixou de ser apenas doméstico e passou a integrar um tabuleiro mais amplo, onde comunicação, geopolítica e Big Techs operam de forma decisiva.

As informações publicadas neste final de semana indicam que Ratinho será anunciado como candidato do PSD à Presidência da República nos próximos dias. E Zema renunciou ao cargo de governador de Minas Gerais com um discurso de candidato ao Planalto.

Mas essa é apenas a superfície do que está ocorrendo na campanha eleitoral de 2026.

A eleição que já começou também fora do Brasil

A eleição presidencial de 2026 já começou. E começou fora das urnas. Mais do que isso: começou também fora do Brasil.

O que está em curso não é apenas uma disputa entre candidaturas nacionais. É a inserção do processo eleitoral brasileiro em um cenário mais amplo de disputa geopolítica, onde comunicação, influência e poder externo operam de forma cada vez mais direta.

O que se revela é algo mais profundo: a eleição brasileira passa a ser disputada simultaneamente por forças internas e externas, em um ambiente onde política, comunicação e estratégia internacional se sobrepõem.

O Brasil como eixo da disputa global

A reportagem de capa da revista CartaCapital desta semana explicita o que antes era tratado como hipótese: a intensificação das ações dos Estados Unidos para influenciar a política brasileira e latino-americana.

Para Washington, o Brasil não é apenas mais um país da região. É peça-chave.

Sem o Brasil, não há controle pleno do tabuleiro sul-americano.

Essa estratégia se manifesta por múltiplas vias:

  • pressão diplomática
  • sanções econômicas
  • ações de inteligência
  • apoio a candidaturas alinhadas

Desde 2025, sob a liderança de Donald Trump, esse movimento se intensificou. E o Brasil tornou-se o centro dessa disputa.

Interferência, pressão e o avanço da ingerência externa

Os sinais dessa movimentação já apareceram. A crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos em 2025 envolveu sanções, pressões comerciais e manifestações públicas de apoio de Trump a Jair Bolsonaro, além de críticas diretas ao sistema político brasileiro.

A reportagem da CartaCapital vai além: descreve um ambiente de interferência que inclui tentativas de manipulação eleitoral, atuação diplomática com objetivos políticos e a construção de narrativas que podem justificar ações mais duras, como a classificação de organizações criminosas brasileiras como grupos terroristas.

Esse tipo de enquadramento não é neutro. Ele abre caminho para formas mais agressivas de ingerência.

O "poder Massa" e a nova infraestrutura de influência

É nesse cenário que surge a candidatura de Ratinho Júnior, capaz de ameaçar as pretensões de Flávio Bolsonaro, de Romeu Zema e a reeleição de Lula. Não como um fenômeno isolado, mas como parte de uma transformação mais ampla da direita brasileira.

Ratinho entra na disputa com um diferencial raro: o respaldo indireto de uma das mais capilares estruturas de comunicação popular do país, construída por Carlos Roberto Massa, o Ratinho pai. E o chamado “poder Massa” não é apenas regional. Ele já opera em escala nacional.

A rede Massa FM, que em março de 2026 alcançou cerca de 90 emissoras, está presente em pelo menos dez estados e cobre todas as regiões do Brasil — do Sul ao Sudeste, do Centro-Oeste ao Norte e ao Nordeste, com presença em estados como São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Rondônia e Maranhão.

Trata-se de uma capilaridade rara. Uma rede que fala diariamente com o chamado “Brasil profundo”, com forte penetração nas classes C, D e E, utilizando linguagem popular, música sertaneja, humor e estratégias de engajamento direto.

Não é apenas audiência. É presença contínua. É familiaridade construída no cotidiano.

Rede nacional com sotaque local

No rádio, a lógica é híbrida: uma programação nacional — gerada a partir de São Paulo e Curitiba — combinada com janelas locais que garantem enraizamento regional. Na prática, isso cria algo ainda mais poderoso: uma rede nacional com sotaque local.

Na televisão, a força é concentrada, mas estratégica. A Rede Massa cobre 100% dos municípios do Paraná por meio de uma estrutura que garante audiência massiva e presença territorial consolidada. Mas o império não se limita a rádio e TV.

O grupo inclui portais digitais, eventos de grande escala no interior do país e negócios no agronegócio, ampliando sua presença econômica, simbólica e territorial. O resultado é uma arquitetura de influência que vai além da mídia.

É um ecossistema. E é isso que distingue Ratinho Jr. dos demais candidatos. Alguns disputam tempo de TV. Outros disputam algoritmos.

Ratinho já opera dentro deles — e fora deles. Porque dispõe de algo que não se constrói em campanha: presença cotidiana.

Lula tem o que temer — ou o alvo é outro?

Diante desse cenário, a pergunta é inevitável. E a resposta é sim — e seria um erro subestimar uma candidatura com base midiática e capilaridade popular.

Mas, no curto prazo, o impacto mais imediato parece ocorrer em outro campo. O primeiro atingido pode ser Flávio Bolsonaro.

Ratinho fragmenta o eleitorado de direita, oferecendo uma alternativa menos radicalizada e mais palatável. E a associação direta com Donald Trump pode ampliar rejeições de Flávio fora do núcleo bolsonarista.

A nova direita e o redesenho do poder

O que está em curso é uma transição dentro da direita brasileira. O bolsonarismo abriu caminho pela ruptura. Agora, surge uma tentativa de reorganização:

  • menos confronto
  • mais gestão
  • menos ruído
  • mais construção de imagem

Mas com o mesmo objetivo: o poder.

Essa nova direita não abandona o terreno conquistado. Ela o reorganiza, adapta sua linguagem e busca ampliar sua base social sem carregar integralmente o desgaste do radicalismo anterior.

A América Latina se divide — e o Brasil está no centro

Essa reorganização não ocorre isoladamente. Ela se articula com um movimento geopolítico mais amplo.

No dia 7 de março de 2026, Donald Trump reuniu, em Mar-a-Lago, a cúpula “Shield of the Americas”, com a presença de representantes de 12 dos 20 países da América do Sul.

Mas o dado mais revelador está nas ausências. Luiz Inácio Lula da Silva, Claudia Sheinbaum e Gustavo Petro disseram não. Brasil, México e Colômbia recusaram o convite.

A ausência foi política. O continente se divide. De um lado, governos alinhados a Washington. De outro, países que buscam preservar autonomia. E, nesse cenário, o Brasil deixa de ser apenas um país em eleição.

Permanece como principal campo de disputa estratégica da América Latina.

Big Techs e a arquitetura invisível do poder

Há uma camada ainda mais profunda — e talvez a mais determinante desse processo. A presença dos executivos das grandes plataformas digitais na posse de Donald Trump, em 2025, sinalizou a convergência entre poder tecnológico e poder político.

Esse modelo remonta à atuação de Steve Bannon e dos chamados “engenheiros do caos”. Desde então:

  • algoritmos moldam percepção
  • dados orientam estratégia
  • plataformas amplificam narrativas

As Big Techs deixaram de ser apenas plataformas. Tornaram-se infraestruturas políticas. E operam diretamente sobre processos eleitorais.

A disputa real

A eleição de 2026 não será apenas uma disputa entre candidatos. Será uma disputa entre modelos de poder. Mas é preciso ir além. Não são apenas Lula, Flávio ou Ratinho que estão em disputa.

O que está em curso é um confronto entre máquinas de poder — nacionais e internacionais.

Não são apenas campanhas.

São arquiteturas de influência.

Não são apenas propostas.

São estratégias de controle.

A eleição tornou-se uma guerra informacional.

Nesse novo terreno, vence quem controla os fluxos, domina os algoritmos e molda percepções. O voto permanece. Mas já não decide sozinho. E é aqui que tudo converge.

A cúpula em Mar-a-Lago, a reorganização da direita, a atuação das Big Techs e a pressão internacional não são eventos isolados. São partes de uma mesma engrenagem. Uma engrenagem que opera antes, durante e depois da eleição.

O Brasil entra, agora, nesse território. E a pergunta final deixa de ser apenas quem vence. Passa a ser outra: quem está definindo as regras do jogo.

Quando a disputa real acontece antes do voto — quando alianças internacionais, máquinas de comunicação e algoritmos moldam o campo eleitoral — o que está em jogo já não é apenas o resultado.

É a própria soberania — atacada, desfigurada e submetida a uma disputa global que atravessa o voto e redefine, silenciosamente, o destino do país.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.