Gustavo Tapioca avatar

Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

112 artigos

HOME > blog

A eleição sequestrada por forças internas e externas

Por trás dos candidatos, operam máquinas de poder, interesses internacionais e sistemas de comunicação que disputam o futuro do Brasil

Urna eletrônica (Foto: Antonio Augusto/Ascom/TSE)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

Desde que foi lançado como presidenciável, Flávio Bolsonaro corria sozinho no campo da direita. Agora, tudo indica que terá de disputar votos com Romeu Zema e Ratinho Júnior.

Os três têm objetivo único: evitar a reeleição de Lula, num processo eleitoral que deixou de ser apenas doméstico e passou a integrar um tabuleiro mais amplo, onde comunicação, geopolítica e Big Techs operam de forma decisiva.

As informações publicadas neste final de semana indicam que Ratinho será anunciado como candidato do PSD à Presidência da República nos próximos dias. E Zema renunciou ao cargo de governador de Minas Gerais com um discurso de candidato ao Planalto.

Mas essa é apenas a superfície do que está ocorrendo na campanha eleitoral de 2026.

A eleição que já começou também fora do Brasil

A eleição presidencial de 2026 já começou. E começou fora das urnas. Mais do que isso: começou também fora do Brasil.

O que está em curso não é apenas uma disputa entre candidaturas nacionais. É a inserção do processo eleitoral brasileiro em um cenário mais amplo de disputa geopolítica, onde comunicação, influência e poder externo operam de forma cada vez mais direta.

O que se revela é algo mais profundo: a eleição brasileira passa a ser disputada simultaneamente por forças internas e externas, em um ambiente onde política, comunicação e estratégia internacional se sobrepõem.

O Brasil como eixo da disputa global

A reportagem de capa da revista CartaCapital desta semana explicita o que antes era tratado como hipótese: a intensificação das ações dos Estados Unidos para influenciar a política brasileira e latino-americana.

Para Washington, o Brasil não é apenas mais um país da região. É peça-chave.

Sem o Brasil, não há controle pleno do tabuleiro sul-americano.

Essa estratégia se manifesta por múltiplas vias:

  • pressão diplomática
  • sanções econômicas
  • ações de inteligência
  • apoio a candidaturas alinhadas

Desde 2025, sob a liderança de Donald Trump, esse movimento se intensificou. E o Brasil tornou-se o centro dessa disputa.

Interferência, pressão e o avanço da ingerência externa

Os sinais dessa movimentação já apareceram. A crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos em 2025 envolveu sanções, pressões comerciais e manifestações públicas de apoio de Trump a Jair Bolsonaro, além de críticas diretas ao sistema político brasileiro.

A reportagem da CartaCapital vai além: descreve um ambiente de interferência que inclui tentativas de manipulação eleitoral, atuação diplomática com objetivos políticos e a construção de narrativas que podem justificar ações mais duras, como a classificação de organizações criminosas brasileiras como grupos terroristas.

Esse tipo de enquadramento não é neutro. Ele abre caminho para formas mais agressivas de ingerência.

O "poder Massa" e a nova infraestrutura de influência

É nesse cenário que surge a candidatura de Ratinho Júnior, capaz de ameaçar as pretensões de Flávio Bolsonaro, de Romeu Zema e a reeleição de Lula. Não como um fenômeno isolado, mas como parte de uma transformação mais ampla da direita brasileira.

Ratinho entra na disputa com um diferencial raro: o respaldo indireto de uma das mais capilares estruturas de comunicação popular do país, construída por Carlos Roberto Massa, o Ratinho pai. E o chamado “poder Massa” não é apenas regional. Ele já opera em escala nacional.

A rede Massa FM, que em março de 2026 alcançou cerca de 90 emissoras, está presente em pelo menos dez estados e cobre todas as regiões do Brasil — do Sul ao Sudeste, do Centro-Oeste ao Norte e ao Nordeste, com presença em estados como São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Rondônia e Maranhão.

Trata-se de uma capilaridade rara. Uma rede que fala diariamente com o chamado “Brasil profundo”, com forte penetração nas classes C, D e E, utilizando linguagem popular, música sertaneja, humor e estratégias de engajamento direto.

Não é apenas audiência. É presença contínua. É familiaridade construída no cotidiano.

Rede nacional com sotaque local

No rádio, a lógica é híbrida: uma programação nacional — gerada a partir de São Paulo e Curitiba — combinada com janelas locais que garantem enraizamento regional. Na prática, isso cria algo ainda mais poderoso: uma rede nacional com sotaque local.

Na televisão, a força é concentrada, mas estratégica. A Rede Massa cobre 100% dos municípios do Paraná por meio de uma estrutura que garante audiência massiva e presença territorial consolidada. Mas o império não se limita a rádio e TV.

O grupo inclui portais digitais, eventos de grande escala no interior do país e negócios no agronegócio, ampliando sua presença econômica, simbólica e territorial. O resultado é uma arquitetura de influência que vai além da mídia.

É um ecossistema. E é isso que distingue Ratinho Jr. dos demais candidatos. Alguns disputam tempo de TV. Outros disputam algoritmos.

Ratinho já opera dentro deles — e fora deles. Porque dispõe de algo que não se constrói em campanha: presença cotidiana.

Lula tem o que temer — ou o alvo é outro?

Diante desse cenário, a pergunta é inevitável. E a resposta é sim — e seria um erro subestimar uma candidatura com base midiática e capilaridade popular.

Mas, no curto prazo, o impacto mais imediato parece ocorrer em outro campo. O primeiro atingido pode ser Flávio Bolsonaro.

Ratinho fragmenta o eleitorado de direita, oferecendo uma alternativa menos radicalizada e mais palatável. E a associação direta com Donald Trump pode ampliar rejeições de Flávio fora do núcleo bolsonarista.

A nova direita e o redesenho do poder

O que está em curso é uma transição dentro da direita brasileira. O bolsonarismo abriu caminho pela ruptura. Agora, surge uma tentativa de reorganização:

  • menos confronto
  • mais gestão
  • menos ruído
  • mais construção de imagem

Mas com o mesmo objetivo: o poder.

Essa nova direita não abandona o terreno conquistado. Ela o reorganiza, adapta sua linguagem e busca ampliar sua base social sem carregar integralmente o desgaste do radicalismo anterior.

A América Latina se divide — e o Brasil está no centro

Essa reorganização não ocorre isoladamente. Ela se articula com um movimento geopolítico mais amplo.

No dia 7 de março de 2026, Donald Trump reuniu, em Mar-a-Lago, a cúpula “Shield of the Americas”, com a presença de representantes de 12 dos 20 países da América do Sul.

Mas o dado mais revelador está nas ausências. Luiz Inácio Lula da Silva, Claudia Sheinbaum e Gustavo Petro disseram não. Brasil, México e Colômbia recusaram o convite.

A ausência foi política. O continente se divide. De um lado, governos alinhados a Washington. De outro, países que buscam preservar autonomia. E, nesse cenário, o Brasil deixa de ser apenas um país em eleição.

Permanece como principal campo de disputa estratégica da América Latina.

Big Techs e a arquitetura invisível do poder

Há uma camada ainda mais profunda — e talvez a mais determinante desse processo. A presença dos executivos das grandes plataformas digitais na posse de Donald Trump, em 2025, sinalizou a convergência entre poder tecnológico e poder político.

Esse modelo remonta à atuação de Steve Bannon e dos chamados “engenheiros do caos”. Desde então:

  • algoritmos moldam percepção
  • dados orientam estratégia
  • plataformas amplificam narrativas

As Big Techs deixaram de ser apenas plataformas. Tornaram-se infraestruturas políticas. E operam diretamente sobre processos eleitorais.

A disputa real

A eleição de 2026 não será apenas uma disputa entre candidatos. Será uma disputa entre modelos de poder. Mas é preciso ir além. Não são apenas Lula, Flávio ou Ratinho que estão em disputa.

O que está em curso é um confronto entre máquinas de poder — nacionais e internacionais.

Não são apenas campanhas.

São arquiteturas de influência.

Não são apenas propostas.

São estratégias de controle.

A eleição tornou-se uma guerra informacional.

Nesse novo terreno, vence quem controla os fluxos, domina os algoritmos e molda percepções. O voto permanece. Mas já não decide sozinho. E é aqui que tudo converge.

A cúpula em Mar-a-Lago, a reorganização da direita, a atuação das Big Techs e a pressão internacional não são eventos isolados. São partes de uma mesma engrenagem. Uma engrenagem que opera antes, durante e depois da eleição.

O Brasil entra, agora, nesse território. E a pergunta final deixa de ser apenas quem vence. Passa a ser outra: quem está definindo as regras do jogo.

Quando a disputa real acontece antes do voto — quando alianças internacionais, máquinas de comunicação e algoritmos moldam o campo eleitoral — o que está em jogo já não é apenas o resultado.

É a própria soberania — atacada, desfigurada e submetida a uma disputa global que atravessa o voto e redefine, silenciosamente, o destino do país.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.