A elite equivocada e o Bolsa Família

Constituem a elite equivocada porque querem privilégios, que percebem quase como um direito divino. Seus negócios devem ser subsidiados (e se contrariados ameaçam deixar o país – “vou levar meu dinheiro para fora”), seus interesses pessoais e familiares são prioritários e por isso o espaço público deve ser privatizado, a fim de satisfazer essa mesquinharia míope

Segundo um manual de política e estratégia muito apreciado pelos segmentos mais conservadores da nossa sociedade, a elite seria o estamento responsável por detectar, encaminhar e atender as necessidades do povo.

Trata-se evidentemente de uma visão de mundo eivada de arrogância na medida em que parte da premissa de que povo não sabe o que quer, não sabe votar, não sabe dizer quais são as suas prioridades, e, portanto, é irresponsável, o que faz com que alguém deva assumir a responsabilidade de guiá-lo pelas mãos (ou pela chibata)

Há inclusive quem, bem posicionado na estrutura oficial do poder e alegre participante dessa elite equivocada, faça afirmações centradas na falácia da meritocracia, eivadas de preconceito e de lugares-comuns (do tipo “não se deve dar o peixe e sim ensinar a pescar”).

É o caso da palestra apresentada no centro de estudos Brazil Institute, em Washington, ocasião em que um elitista, autoridade constituída e “representante do povo”, afirmou que o Bolsa Família escraviza as pessoas. É de se supor que ele nunca tenha lido ou se informado acerca dos propósitos, critérios de entrada e mecanismos de saída do Bolsa Família e menos ainda que tenha conhecimento da efetiva contribuição do programa em termos de redução da miséria e da fome. Ou seja, o tal “bem-nascido”, não leu e não gostou (do Bolsa Família).

Visto que contribuir para minimizar a ignorância (ao menos sobre esse tema) da referida autoridade é de todo útil, disponibilizamos aqui algumas informações sintéticas sobre o programa, a saber:

O Bolsa Família (PBF) é um programa de transferência de renda do Governo Federal, sob condicionalidades, instituído no Governo Lula pela Medida Provisória 132, de 20 de outubro de 2003, convertida em lei em 9 de janeiro de 2004, pela Lei Federal n. 10.836, que unificou e ampliou diversos programas anteriores de transferência de renda.

Foi considerado pela britânica “The Economist” um dos principais programas de combate à pobreza do mundo, tendo sido citado como "um esquema contra a pobreza originado na América Latina que está ganhando adeptos mundo afora”.

Na mesma linha, o jornal francês Le Monde reportou: "O programa Bolsa Família amplia, sobretudo, o acesso à educação, a qual representa a melhor arma, no Brasil ou em qualquer lugar do mundo, contra a pobreza”.

Convém acrescentar que Programas de transferências condicionadas contra a pobreza são políticas sociais empregadas em várias partes do mundo para combater e reduzir a pobreza. No curto prazo objetivam aliviar os problemas decorrentes da situação de pobreza e, no longo prazo, investir no capital humano, interrompendo o ciclo da pobreza de uma geração para outra. Tem sido recomendado reiteradas vezes pela ONU.

Retomando a questão da visão enviesada por parte de um determinado estamento da nossa sociedade – a elite equivocada – é válido dizer que são equivocados (e perversos) porque entendem que sua responsabilidade social se resume à dimensão econômica, isto é gerar emprego (principalmente com salário ínfimo), pagar impostos (isso quando não sonegam) etc. etc. Não se percebem como integrantes da grande comunidade humana (a não ser da comunidade “socialite”) e costumam alardear aleivosias e mesmices na mídia, comprometida com os mesmos valores, e daí se sentem superiores, acreditando nos aplausos da parcela alienada da população (que almeja pertencer à elite equivocada).

Acreditam somente no mérito, aderentes que permanecem à peroração de Herbert Spencer o economista do século XIX que, admirador de Darwin, apregoava a “sobrevivência do mais apto” no mais legítimo “darwinismo social”.

Constituem a elite equivocada porque querem privilégios, que percebem quase como um direito divino. Seus negócios devem ser subsidiados (e se contrariados ameaçam deixar o país – “vou levar meu dinheiro para fora”), seus interesses pessoais e familiares são prioritários e por isso o espaço público deve ser privatizado, a fim de satisfazer essa mesquinharia míope. Quando percebem (quase sempre de forma rancorosa) que as políticas públicas se orientam para o novo (e para o povo), que a questão social está merecendo prioridade e, em decorrência, não mais privilegia os poderosos, atacam, mais uma vez equivocadamente, não o poder constituído, mas a próprio nação, derrubam governos democraticamente eleitos – e entregam a pátria aos abutres.

E o fazem sob o slogan da Bandeira “ordem” (a deles) e o “progresso” (também deles) e proclamam que estão construindo uma “Ponte para o Futuro” que levará o país a uma nova era de “progresso” e de “modernidade” (conceitos que defendem, de olho no próprio umbigo).

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