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Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

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A era da "classe Epstein"

Quando o escândalo deixa de ser exceção e passa a revelar a estrutura do poder

Jeffrey Epstein em registro policial 28/3/2017 Divulgação via REUTERS (Foto: Divulgação via REUTERS)

Durante muito tempo, o caso Jeffrey Epstein foi tratado como uma aberração — um desvio monstruoso dentro de sociedades que ainda gostavam de se imaginar regidas por normas, instituições e limites morais. Hoje, essa interpretação parece cada vez mais ingênua.

Talvez o verdadeiro choque não seja o que Epstein fez, mas o mundo que permitiu que ele circulasse com naturalidade entre presidentes, bilionários, intelectuais e celebridades, como se a riqueza extrema funcionasse também como uma espécie de blindagem social.

Epstein morreu. O sistema que o tornou possível, não.

Nos Estados Unidos — e, em graus variados, em grande parte do Ocidente — começa a emergir uma expressão reveladora: “classe Epstein”. Não se trata apenas de indivíduos ricos, mas de um estrato social cuja densidade econômica se converte em poder político, influência cultural e, em certos casos, uma perturbadora sensação de imunidade.

O escândalo deixa então de ser policial e passa a ser sociológico.

A pergunta relevante já não é como um homem acumulou fortuna suficiente para comprar acesso às elites. A questão decisiva é outra: quando foi que a riqueza passou a significar também uma forma tácita de extraterritorialidade moral?

Essa transformação não ocorreu da noite para o dia. Nas últimas quatro décadas, a concentração de riqueza avançou em ritmo histórico. A elite extrema — 0,001% da população mundial — cerca de 60 mil pessoas, controla três vezes mais riqueza do que os 4 bilhões de indivíduos que compõem a metade mais pobre da população, de acordo com o World Inequality Report 2026.

Nos Estados Unidos, o 1% mais rico ampliou sua participação no patrimônio nacional para 31,7%, níveis comparáveis — e, em alguns casos, superiores — aos da chamada Era Dourada americana do fim do século XIX. Mais significativo ainda: não cresceu apenas a desigualdade econômica; cresceu a capacidade dos muito ricos de moldar a política.

O dinheiro deixou de influenciar eleições para começar a estruturá-las.

Os números são eloquentes. O financiamento político por bilionários nos Estados Unidos multiplicou-se dezenas de vezes desde o início do século. Ao mesmo tempo, gigantes da tecnologia passaram a controlar infraestruturas centrais da esfera pública — redes de informação, plataformas digitais, fluxos de dados — deslocando silenciosamente o eixo do poder democrático.

Quando a riqueza compra proximidade com governos, capacidade de definir agendas e até de modular o debate público, a fronteira entre democracia e oligarquia torna-se menos nítida.

É nesse ambiente que Epstein deixa de parecer uma anomalia.

Ele passa a soar como um produto extremo — mas coerente — de uma ordem social que naturalizou privilégios.

O mais inquietante talvez não seja a existência de elites. Toda sociedade as produziu. O que distingue nosso tempo é a escala do poder acumulado e, sobretudo, a fragilidade dos mecanismos destinados a contê-lo.

Durante décadas, acreditou-se que mercados livres e instituições liberais caminhariam juntos, equilibrando dinamismo econômico e responsabilidade pública. Hoje, essa promessa parece tensionada por uma realidade na qual fortunas colossais convivem com supervisão cada vez mais limitada.

Alguns dos próprios bilionários já não escondem sua hostilidade à regulação. Outros tratam qualquer tentativa de fiscalização como ameaça à liberdade. A ideia de que regras deveriam ser diferentes para os super-ricos — impensável em uma cultura republicana clássica — começou a aparecer, ainda que de forma velada, no debate público.

Não surpreende que pesquisas recentes mostrem uma maioria expressiva de cidadãos convencida de que os ricos exercem poder político excessivo.

O caso Epstein, nesse contexto, funciona quase como uma lente de aumento. Ele revela aquilo que normalmente permanece difuso: a percepção de que existem circuitos sociais nos quais responsabilidade e consequência operam segundo outra lógica.

Mais do que indignação, o que emerge é uma sensação de assimetria.

A democracia repousa sobre um princípio simples — todos são iguais perante a lei. Quando parcelas da sociedade começam a duvidar dessa premissa, o dano ultrapassa qualquer escândalo individual. O que se deteriora é a própria confiança na arquitetura institucional.

Por isso, talvez seja um erro interpretar o debate atual como mera retórica de luta de classes. O que está em jogo pode ser algo mais profundo: a redefinição do contrato social em sociedades atravessadas por níveis inéditos de concentração de poder econômico.

Alguns economistas já falam abertamente em um confronto estrutural entre democracia e oligarquia como uma das grandes disputas do século XXI.

Se essa formulação soa dramática, basta observar o ambiente político contemporâneo. De um lado, populismos que exploram o ressentimento social; de outro, elites econômicas cada vez mais capazes de operar acima das pressões majoritárias. Entre ambos, instituições tensionadas.

Epstein não criou esse mundo. Mas ajudou a torná-lo visível.

Escândalos, às vezes, funcionam como rupturas cognitivas — momentos em que sociedades são obrigadas a enxergar aquilo que preferiam ignorar.

Talvez seja esse o verdadeiro legado do caso: não a história de um predador protegido por sua fortuna, mas o espelho incômodo de uma era em que a riqueza extrema passou a se confundir com um poder quase estrutural.

A pergunta que permanece não é apenas jurídica. É profundamente política:
até que ponto uma democracia suporta níveis crescentes de concentração de riqueza sem começar a se transformar em outra coisa?

O futuro das sociedades abertas pode depender da resposta.

Porque, quando uma “classe Epstein” deixa de causar espanto, o risco já não é apenas moral.

É civilizacional.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.