A era da mediocridade: um país que estrebucha entre o apocalipse e a melancolia

"De repente, o país se deu conta de que elegeu um bando de loucos, ao completar hoje 83 dias, sem governo e sem nenhuma esperança de que algo possa melhorar tão cedo", escreve Ricardo Kotscho, do Jornalistas pela Democracia; "Sem saber se ri ou se chora, a distinta plateia afunda em melancolia ao se deparar com a realidade do desastre anunciado. Ninguém pode dizer que foi enganado. O 'Mito' está cumprindo o que prometeu: destruindo o país para construir sobre os escombros seu paraíso particular, fazendo arminha com os dedos", completa

A era da mediocridade: um país que estrebucha entre o apocalipse e a melancolia
A era da mediocridade: um país que estrebucha entre o apocalipse e a melancolia (Foto: Isac Nóbrega/PR)

Por Ricardo Kotscho, para o Balaio do Kotscho e o Jornalistas pela Democracia - Sei que este título não é nada agradável para se ler num domingo de sol, mas é o que temos.

Basta correr os olhos pelo noticiário para constatar que o país está estrebuchando, já no prenúncio do apocalipse, mergulhado na mais profunda melancolia.

Se tem um ponto em comum entre os arautos da nova ordem unida é a abissal mediocridade.

De repente, o país se deu conta de que elegeu um bando de loucos, ao completar hoje 83 dias, sem governo e sem nenhuma esperança de que algo possa melhorar tão cedo.

Até os eleitores do "Mito" estão caindo na real e descobrindo que são governados por uma usina de fake news, a colossal mentira que se vendeu a peso de ouro de tolo na campanha eleitoral.

"Nós vamos não só apoiar como vamos bancar a campanha dele. Dinheiro não vai faltar", disse-me com todas as letras um ás do mercado financeiro, em meio à campanha eleitoral.

Será que eles sabem quem é Bolsonaro?, eu me peguntava, quando o capitão começou a subir nas pesquisas, depois da facada e da prisão de Lula.

"Mas nós precisamos de um louco mesmo pra colocar ordem nessa bagunça", respondeu-me um motorista de táxi, quando tentei lhe explicar quem era Bolsonaro e por que foi saído do Exército com 33 anos.

Com argumentos assim, era melhor não discutir, não adiantava nada.

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Embalado como candidato liberal por Paulo Guedes, o Posto Ipiranga, o capitão logo conquistou o mercado e o alto empresariado.

Não faltou mesmo dinheiro para ativar o terror nas redes sociais e alargar seu eleitorado em todas as latitudes, com o apoio de amplos setores das igrejas evangélicas neopentecostais.

Os generais só pegaram carona na campanha dele quando a vitória já parecia certa, sem querer saber do seu prontuário quando era um colega de armas.

Com medo do kit gay e da mamadeira de piroca, 57 milhões de brasileiros caminharam alegremente para as urnas, e o "Mito" foi eleito.

Pouco importava que ele tivesse sido, ao longo de 30 anos, apenas o "chefe do sindicato dos militares" na Câmara, segundo a perfeita definição do Bernardo Mello Franco, no Globo de hoje.

Fiel à sua natureza, apresentou uma reforma generosa para os militares, que revoltou os civis até no seu próprio partido.

Em nenhum momento da campanha, a bem da verdade, o candidato militar defendeu a reforma da Previdência, que se tornaria o pau da barraca do seu governo, e esta semana começou a desabar com a ajuda dele.

A equipe de Paulo Guedes já fala em "apocalipse" se a reforma não for aprovada, o que a cada dia parece mais provável de acontecer.

Confrontado pelo capitão e seus filhos, Rodrigo Maia já jogou a toalha e devolveu a bola para o governo, que a chutou para o alto.

Os superministros Guedes e Sergio Moro terminam a semana detonados como reles "funcionários do Bolsonaro", cada vez mais enfraquecidos.

A Bolsa caiu, o dólar subiu, e Paulo Skaf, o esperto presidente dos patos amarelos da Fiesp, já tratou de cuidar do pós-Bolsonaro: convocou 500 empresários para ouvir o vice, general Mourão, nesta terça-feira.

Desde 1964, golpe é com eles, como sabemos.

Na patética "live" de 30 minutos, que Bolsonaro comandou esta semana, diretamente de Santiago, a cara do general Heleno, o guardião do Planalto, já não era das mais amigáveis.

Cada vez mais afundado na cadeira, Heleno só abriu a boca uma vez para corrigir Bolsonaro, que continuou falando de importação de bananas do Equador e outras abobrinhas.

O cabaré cívico-militar está pegando fogo por toda parte e, com o barco naufragando, o piromaníaco Olavo de Carvalho troca ofensas com o picareta Silas Malafaia, dois baluartes do governo em frangalhos.

Sem saber se ri ou se chora, a distinta plateia afunda em melancolia ao se deparar com a realidade do desastre anunciado.

Ninguém pode dizer que foi enganado.

O "Mito" está cumprindo o que prometeu: destruindo o país para construir sobre os escombros seu paraíso particular, fazendo arminha com os dedos.

Bom domingo.

E vida que segue.

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