A era do Grande Irmão

"Hoje com apenas 44 likes é possível identificar as características de uma pessoa que só um amigo íntimo teria; com 50 likes o mesmo conhecimento que membros da família; e, com 58 likes, o conhecimento que um cônjuge tem do seu parceiro", alerta o jornalista Florestan Fernandes Júnior

Por Florestan Fernandes Júnior, para o Jornalistas pela Democracia

Acabo de assistir ao filme, “Privacidade Hackeada”(The Great Hack, Netflix), um documentário esclarecedor e imperdível, que desvenda a manipulação que vem sendo feita pela extrema-direita utilizando os dados pessoais dos internautas nas redes sociais. Confesso que fiquei assustado com o processo em curso que visa a destruição das instituições e das democracias ocidentais. 

Quase que a confirmação da sociedade vigiada pelo Grande Irmão do romance de George Orwell, “1984”, mas muito pior que a ficção. Com acesso aos milhares de dados armazenados pelo Facebook e Google, a Cambridge Analytica alimentou projetos de poder baseados no ódio, no linchamento coletivo e até no confronto físico entre indivíduos de uma mesma Nação. Países literalmente divididos ao meio. Quanto mais confronto, mais insegurança e desordem para viabilizar a mudança de rumos. Em poucos anos o mundo mais justo e igualitário perseguido pelas democracias avançadas sofreu um retrocesso civilizatório jamais visto. 

No Brasil, perdemos os direitos trabalhistas, a segurança previdenciária, programas sociais de inclusão e as políticas de proteção às minorias. Tudo com o apoio de um pensamento fanático e retrogrado liberado e conduzido por discursos que mexem com a emoção irracional. Hoje com apenas 44 likes é possível identificar as características de uma pessoa que só um amigo íntimo teria; com 50 likes o mesmo conhecimento que membros da família; e, com 58 likes, o conhecimento que um cônjuge tem do seu parceiro. 

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É o fim da privacidade que disponibiliza informações que desnudam o íntimo das personalidades dos internautas, quais seus medos, suas características comportamentais, se é extrovertido ou não, suas preferencias religiosas, políticas e sexuais. Com esses dados e utilizando sofisticado sistema de tecnologia está sendo possível moldar, muitas vezes através de Fake News e boatos, o pensamento de parcelas significantes do eleitorado, influindo de maneira decisiva nas eleições democráticas nos quatro cantos do planeta.

A campanha de ódio com ataques baixos e mentirosos contra Hillary Clinton,  garantiram não só a vitória de Trump, mas a de vários políticos do seu partido, o Republicano. Entre outras baixarias, postavam nas redes imagens demoníacas de Hillary, acusando a candidata  de ser corrupta e merecer a prisão. Algo muito parecido com o que ocorreu no Brasil. Os ideólogos da ultradireita propõe destruir tudo o que existe para depois construir uma nova realidade autoritária e excludente. O modelo da eleição de Bolsonaro é o mesmo utilizado nos EUA. Um modelo que já levou ao poder dezenas de chefes de Estado que desprezam as regras democráticas de convivência. 

Está claro que o capitão e seu PSL só chegaram ao poder por aderirem às teorias de Trump e terem o respaldo da “inteligência” da extrema-direita norte-americana.  Não é à toa que o capitão bate continência para a bandeira dos Estados Unidos e pretende fazer do filho embaixador em Washington, além de se submeter a todas as determinações do império do obscurantismo. Nem que para isso o país corra o risco de perder acordos comerciais, como no caso dos navios iranianos  carregados de grãos de milho que tiveram abastecimento negado pela Petrobras. Incrível imaginar que o slogan Liberté, Egalité, Fraternité, que se tornou o grito de ativistas em prol da democracia liberal, está sendo substituído por Sujeição, Desigualdade e Ódio.

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