A ervilha como cérebro: bolsonarismo, moralismo seletivo e a política do ódio
Enquanto a “ala das ervilhas” posa de guardiã da moralidade, pesquisas mostram um crescimento alarmante de denúncias de violência doméstica e sexual
A visita de Luiz Inácio Lula da Silva a uma escola em Niterói foi suficiente para reativar o que se pode chamar de “cérebro-ervilha” do bolsonarismo: pequeno, raso, reativo e programado para odiar qualquer símbolo de inclusão social.
A reação não foi pedagógica, nem racional, nem democrática. Foi instintiva, quase biológica: atacar Lula, atacar a escola pública, atacar a política — enquanto fingem defender a moral.
O bolsonarismo construiu uma narrativa onde a ignorância é virtude, a violência é relativizada e o autoritarismo é vendido como ordem.
O resultado dessa cultura política não é abstrato: ela mata. Mata simbolicamente, ao destruir políticas públicas, mata socialmente, ao legitimar o ódio e mata concretamente, quando alimenta discursos que naturalizam a violência contra mulheres, crianças e minorias.
Enquanto a “ala das ervilhas” posa de guardiã da família tradicional, dados de órgãos públicos e pesquisas acadêmicas mostram um crescimento alarmante de denúncias de violência doméstica e sexual, inclusive em espaços religiosos.
Igrejas, que deveriam ser refúgios, aparecem em relatórios e investigações como locais onde crianças e mulheres foram silenciadas, violentadas e culpabilizadas. O moralismo bolsonarista grita contra livros, professores e políticas educacionais, mas cala diante do abuso real, cotidiano e estrutural.
Esse é o paradoxo grotesco: a família é defendida como slogan, mas abandonada como realidade social. O discurso conservador se indigna com a presença de Lula em uma escola, mas não se indigna com a criança estuprada, com a mulher espancada, com o professor precarizado, com a fome que atravessa os lares brasileiros.
A ervilha pensa pequeno, porque pensar grande exigiria empatia, ciência e política pública — tudo o que o bolsonarismo despreza.
Lula, ao visitar uma escola pública, encarna exatamente o oposto dessa mentalidade: a política como ferramenta de transformação, a educação como direito, o Estado como garantidor de dignidade. Sua trajetória, de retirante nordestino a presidente é, em si, uma afronta ao projeto elitista e autoritário que sempre quis manter o povo no lugar do silêncio.
O incômodo não é com Lula. É com a possibilidade de o filho da trabalhadora, da doméstica, do operário, do evangélico pobre, ocupar espaços que sempre foram negados.
A escola pública, para a elite moralista, deve ser domesticada, neutra, "despolitizada", ou seja, obediente à ordem vigente.
Mas educação nunca foi neutra. E a política nunca foi opcional. A diferença é que, enquanto o bolsonarismo opera com um cérebro-ervilha, (assim como a inabalável família tradicional) treinado para repetir slogans e disseminar medo, Lula continua sendo a lembrança viva de que a política pode, sim, servir ao povo.
E isso, para a "ervilha", é intolerável.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
