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João Lister

Advogado, graduado pelo UNIUBE – Universidade de Uberaba, Pós Graduado MBA, em Direito Empresarial pela FGV e psicanalista

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A escola, a singularidade do aprender e a aptidão final do formado

O desenvolvimento humano não se mede pela retenção. Mede-se pelo percurso, pelo acompanhamento, pela intervenção e pela transformação

Aluno em sala de aula (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)
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A escola ainda conserva, em sua arquitetura institucional mais profunda, um modelo industrial de esteira de produção. Organiza estudantes por faixas etárias rígidas, distribui conteúdos em compartimentos sucessivos, mede desempenhos por instrumentos padronizados e, ao término de cada ciclo, delibera quem “avança” e quem “permanece”, como se crianças e adolescentes fossem objetos seriados, submetidos ao mesmo molde, ao mesmo ritmo e ao mesmo padrão abstrato de acabamento.

Esse modelo encontra-se historicamente superado. Ele deriva de uma racionalidade fabril, disciplinar e hierárquica, própria de sociedades que buscavam formar sujeitos ajustados à repetição, à pontualidade, à obediência e à previsibilidade da produção industrial. A escola, nesse desenho, não se estrutura a partir da singularidade do aluno, mas da conveniência administrativa do sistema. O estudante deixa de ser reconhecido como sujeito em formação e passa a ser reduzido a unidade mensurável de rendimento: aprovado ou reprovado, apto ou inapto, eficiente ou deficitário.

A reprovação escolar é uma das manifestações mais severas dessa racionalidade. Ela se sustenta sobre a premissa equivocada de que a repetição integral de um ano letivo produzirá, por si só, a aprendizagem que não se consolidou. Mas, em inúmeros casos, aquilo que se repete não é o conhecimento: repete-se o fracasso. Repete-se o estigma. Repete-se o constrangimento. Repete-se a ruptura do vínculo com a escola. Repete-se a interiorização da incapacidade. Reprovar, quase sempre, significa atribuir ao aluno a culpa pelo insucesso de um modelo que não foi capaz de acompanhá-lo no tempo adequado, com os meios adequados e segundo suas necessidades reais.

Isso não equivale a defender uma aprovação automática irresponsável, como se a escola devesse conduzir os alunos adiante sem compromisso substantivo com o conhecimento. A crítica à reprovação não é uma apologia da leniência pedagógica. Ao contrário: é a exigência de uma responsabilidade institucional muito mais elevada. Uma escola sem reprovação precisa ser mais rigorosa, não menos. Mas seu rigor deve residir no acompanhamento contínuo, na identificação precisa das dificuldades, na intervenção pedagógica tempestiva e na construção de percursos formativos sensíveis à diversidade concreta dos estudantes.

As escolas devem receber a estrutura necessária para abandonar o atual modelo de seleção, retenção e exclusão, avançando para outro paradigma educacional: um modelo no qual as aulas possam continuar sendo oferecidas em escala, porque há, evidentemente, conteúdos comuns a serem transmitidos coletivamente, mas em que o acompanhamento do desempenho e do desenvolvimento dos alunos seja individualizado, atento às particularidades cognitivas, afetivas, sociais e culturais de cada estudante.

A aula pode ser coletiva; o diagnóstico não pode ser genérico.

A escola pode ensinar matemática a uma turma inteira, mas precisa saber exatamente se determinado aluno compreendeu frações, se outro encontra obstáculos na interpretação de problemas, se um terceiro domina procedimentos de cálculo, mas não consegue organizar o raciocínio lógico, e se outro ainda apresenta dificuldade não propriamente no conteúdo, mas na linguagem por meio da qual esse conteúdo lhe é apresentado. O mesmo raciocínio vale para língua portuguesa, história, ciências, geografia, artes, filosofia ou qualquer outra área do conhecimento.

O problema da reprovação é que ela converte dificuldades específicas em condenação global. Um aluno pode apresentar fragilidades relevantes em leitura, mas demonstrar bom desempenho em raciocínio matemático. Pode revelar extraordinária criatividade, mas baixa organização textual. Pode compreender processos históricos complexos, mas não se adaptar ao formato tradicional de prova. Pode aprender melhor pela oralidade, pela prática, pela imagem, pela repetição acompanhada, pela escuta ou pela experimentação. A reprovação ignora essas diferenças e impõe uma sentença totalizante: o aluno não serve para avançar.

Essa lógica precisa ser substituída por relatórios contínuos de proficiência.

Ao final do curso, que todos devem completar, a diplomação não deveria ser concebida apenas como título formal, como mera chancela burocrática de conclusão de etapa. O diploma deveria vir acompanhado — ou mesmo ser deslocado de sua centralidade simbólica — por um relatório de proficiência detalhado, capaz de indicar as virtudes, competências, limitações e necessidades de aprimoramento de cada aluno em cada disciplina.

Esse relatório não poderia ser genérico. Não bastaria afirmar: “tem dificuldade em matemática” ou “precisa melhorar em português”. Isso é insuficiente, quase inócuo. O correto seria apontar, de maneira específica e objetiva, quais itens educacionais o aluno domina e quais precisa desenvolver. Em matemática: operações básicas, porcentagem, equações, geometria, leitura de gráficos, resolução de problemas. Em língua portuguesa: interpretação textual, coesão, coerência, pontuação, argumentação, vocabulário, leitura crítica. Em ciências: compreensão do método científico, ecologia, corpo humano, energia, matéria, tecnologia. E assim sucessivamente.

A educação deixaria, então, de funcionar como uma máquina de carimbar aprovação ou reprovação e passaria a constituir um sistema efetivo de acompanhamento do desenvolvimento humano.

Esse relatório também não deve emergir apenas ao término da trajetória escolar. Se aparecer somente no encerramento do curso, chegará tarde demais. O acompanhamento precisa ocorrer ano a ano, semestre a semestre ou, idealmente, mês a mês. Pais, alunos e professores devem ter acesso a um mapa permanente do desenvolvimento escolar. Não um boletim frio, reduzido a números, médias e conceitos abstratos, mas um instrumento inteligível de orientação pedagógica.

A família precisa saber onde o estudante avançou, onde permaneceu estagnado, onde regrediu e de que modo pode ser apoiado. O aluno precisa compreender sua própria trajetória, não como culpa, mas como processo. O professor precisa dispor de instrumentos para recalibrar sua intervenção. A escola precisa identificar padrões coletivos de dificuldade para reformular métodos, materiais, tempos e estratégias.

Essa mudança permitiria corrigir rotas antes que o fracasso se cristalize. A reprovação, tal como aplicada hoje, muitas vezes funciona como diagnóstico tardio. Primeiro o sistema falha durante meses; depois, ao final do ano, comunica ao aluno que ele fracassou. É uma pedagogia do necrotério: apenas declara o óbito depois que o processo de aprendizagem já foi abandonado à própria sorte.

Uma escola verdadeiramente comprometida com o conhecimento não esperaria o encerramento do ano letivo para constatar que um estudante não aprendeu. Ela teria mecanismos permanentes de observação, intervenção e recomposição. Não recuperação como expediente burocrático, improvisado às pressas, com exercícios repetitivos e provas substitutivas, mas recuperação como reconstrução efetiva do percurso de aprendizagem.

É preciso reconhecer, ainda, que a reprovação incide de modo profundamente desigual sobre os alunos. Ela penaliza com maior dureza os pobres, os estudantes com menor suporte familiar, aqueles inseridos em contextos de vulnerabilidade, os que não dispõem de reforço privado, internet adequada, ambiente silencioso de estudo, alimentação regular ou estabilidade emocional. O aluno de classe média, quando apresenta dificuldades, frequentemente recebe aula particular, psicopedagogo, acompanhamento familiar, tecnologia e tempo. O aluno pobre, diante das mesmas dificuldades, recebe reprovação.

Portanto, a reprovação não é apenas um mecanismo pedagógico anacrônico. É também um dispositivo social de exclusão.

Defender o fim da reprovação, entretanto, exige seriedade. Não basta abolir o ato administrativo de reter o aluno. É necessário construir uma nova arquitetura educacional. Isso implica investimento em professores, equipes multidisciplinares, tecnologia educacional, turmas com tamanho adequado, formação continuada, avaliações diagnósticas, plataformas de acompanhamento, atendimento individualizado e diálogo permanente com as famílias.

Sem estrutura, o fim da reprovação pode converter-se em simples maquiagem estatística. Com estrutura, pode representar uma profunda revolução pedagógica.

O que se propõe não é facilitar a escola. É torná-la mais inteligente. A reprovação é um instrumento grosseiro, rudimentar e intelectualmente pobre. Ela diz apenas: “não aprendeu o suficiente”. Mas não explica, com precisão, o que não foi aprendido, por que não foi aprendido, como deve ser aprendido, em quanto tempo pode ser recuperado e quais estratégias devem ser mobilizadas.

Um relatório de proficiência, ao contrário, desloca a escola do julgamento sumário para o acompanhamento qualificado. Sai a sentença; entra o diagnóstico. Sai a punição; entra a orientação. Sai a exclusão; entra a responsabilidade compartilhada.

O estudante não deve ser tratado como peça defeituosa retirada da linha de montagem. Deve ser compreendido como sujeito singular, portador de tempos, talentos, dificuldades, bloqueios, potências e modos próprios de aprender. A educação do século XXI não pode permanecer prisioneira da fábrica do século XIX.

A escola precisa deixar de perguntar apenas quem passa e quem fica. Precisa perguntar o que cada aluno aprendeu, o que ainda não aprendeu, como aprende melhor, onde precisa de apoio, em quais áreas demonstra maior potência e quais caminhos concretos deve seguir para continuar se desenvolvendo.

O fim da reprovação não é o fim da exigência. É o início de uma exigência mais honesta, mais sofisticada e mais humana.

Porque educar não é separar vencedores e vencidos ao final de cada ano letivo. Educar é assegurar que todos completem sua formação com consciência de suas virtudes, clareza de suas carências e condições reais de continuar aprendendo. A escola não deve ser uma fábrica de diplomas nem uma engrenagem de exclusão. Deve ser uma instituição de desenvolvimento humano.

E o desenvolvimento humano não se mede pela retenção. Mede-se pelo percurso, pelo acompanhamento, pela intervenção e pela transformação.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.