A ESFINGE E A IDIOTIA: A direita alienígena e alienada

A direita brasileira não cessa de se mostrar: é uma verdadeira idiotia não-extirpável, dentro de seu túmulo, que o refluxo das novas marés apagará das areias e das terras brasileiras

A direita brasileira não cessa de se mostrar: é uma verdadeira idiotia não-extirpável, dentro de seu túmulo, que o refluxo das novas marés apagará das areias e das terras brasileiras
A direita brasileira não cessa de se mostrar: é uma verdadeira idiotia não-extirpável, dentro de seu túmulo, que o refluxo das novas marés apagará das areias e das terras brasileiras (Foto: Cássio Vilela Prado)

Parece que todas as teorias psicológicas sobre o funcionamento psíquico não deixam dúvidas quanto à importância do meio ambiente na sua formação subjetiva, intelectual e até mesmo biológica, haja vista também a sua constante troca com o seu exterior: alimentação, o ar, a água... e demais meios materiais necessários à sua existência.

Nem o mais ferrenho pensador cônscio solipsista parece negar o mundo exterior ao sujeito do conhecimento, embora priorize as sensações individuais advindas do contato interior-exterior. Tampouco os mais ardentes defensores das neurociências e do cognitivismo cometam tal heresia, embora confundam mente com cérebro.

Mesmo a Psicanálise com o seu rigoroso inconsciente nega o mundo exterior, ao contrário, depois de Jacques Lacan (1901-1981) e a sua teoria do significante, a constituição do Outro na subjetividade depende da operação fundamental do infans com os primeiros outros: a mamãe e similares. Desde as suas vivências de privação, frustração e castração simbólica, este último mecanismo balizador das estruturas clínicas psicanalíticas.

Sobre o mundo externo, é desnecessário trazer a Sociologia, a Antropologia, a Linguística, etc, com as suas múltiplas leituras acerca do homem, das sociedades e das culturas enquanto componentes inseparáveis na formação do psiquismo humano. Na verdade sobra muito pouco da própria psicologia para entender a mente humana. Aliás, toda essa gama de campos diversos do conhecimento e do saber parecem eliminar as pretensões de um “eu” autônomo, centrado e onipotente. Neste sentido, o “eu” sozinho da psicologia individual é uma grande ilusão.

Não foi sem motivo que o psicanalista Sigmund Freud (1856-1939), antes mesmo de J. Lacan, chegou à seguinte conclusão: “Toda psicologia é social” (Psicologia das Massas e Análise do Eu). Contudo, frise-se que Freud não separa a psicologia individual da psicologia social, as unem, alocando definitivamente o Outro simbólico na cena psíquica.

Poder-se-á dizer que o homem é um algo altamente complexo, inclusive o “inconsciente estruturado como uma linguagem” do erudito Lacan.

Posto isso, não há uma resposta única para pergunta: que é o homem? Ou o que é o psiquismo? Qualquer resposta será reducionista, até mesmo o aforismo de um Michel Foucault (1926-1984) soa como mais uma de suas aberrações: “Foucault nos sugere que o homem é um problema recente na trajetória da cultura e como tal destinado a desaparecer do espaço de nossa Episteme, como um rosto na areia com o refluxo da maré”[1].

Entretanto, retruca-lhe o filósofo Ivan Domingues (UFMG), em sua tese de doutoramento em filosofia na Sorbonne (França):

“Mas, se olharmos as coisas mais de perto, vamos ver que desde a noite dos tempos os homens sempre estiveram engajados em tentativas de autocompreensão, não se limitando a interrogar as coisas mesmas e os enigmas do universo. Um bom exemplo disso é o preceito délfico do ‘conhecer-te a ti mesmo’, de que Platão não hesitou em fazer a divisa por excelência do pensamento socrático e que, segundo Cassirer, é a prova eloquente da importância que os gregos conferiam ao problema antropológico, fazendo dele um dos eixos maiores de suas reflexões1[2].

E Domingues encerra (ou começa) assim a sua tese:

“Que o problema antropológico, se já não era tão ‘moderno’ quanto queria Foucault... tampouco está fadado a desaparecer como ele suspeita: estando seu rosto profundamente esculpido na nossa memória, sem que consigamos visualizá-lo, e não sendo, qual figura na areia, uma imagem aderida à superfície, destinada a ser vista e a desaparecer, o homem é, a exemplo da esfinge, um enigma a ser decifrado. Porém, à diferença do enigma de Sísifo no qual quem interroga é o objeto (a esfinge), no enigma do homem quem interroga é o próprio sujeito (o homem), o ‘si mesmo’ que o preceito délfico ordenava conhecer. Parece-nos, portanto, que à pergunta ‘que é o homem?’ não é a não-resposta que dá a sentença de morte, a exemplo da esfinge, mas a resposta; ficar com a pergunta é dar-lhe vida – enigma e interrogação”[3].

Em face a isso, o filósofo Domingues faz com que o aforisma de Foucault já nasça quebrado no “refluxo da maré”, a onda sequer chega na praia para apagar o rosto do homem esculpido na areia.

Contudo, a proposta de Domingues é a identificação com a esfinge que apenas formula questões, pois responder ao “que é o homem?” seria uma inexorável sentença de morte, senão uma infindável agonia de Sísifo.

Inobstante, o homem não é uma esfinge, talvez seja o próprio Sísifo em sua pesada aventura obstinada na busca da resposta para a questão: “que é o homem?”.

Hoje em dia, embora o novo homem sisifiano parece não rolar mais a pedra nem subir a mesma montanha, em suas mãos pode-se visualizar o controle remoto cibernético produto da tecnociência copulada com o capital da qual ele é um eterno operário.

Diferente do velho Sísifo, ao novo homem não são mais necessários dias e noites de exposição ao sol escaldante e às luas geladas, a sua força de trabalho física e mental está à sombra, no entanto, completamente operado pela tessitura superficial e aprofundada dos donos das pedras e das montanhas, ou melhor, o Sísifo contemporâneo está loucamente subsumido às regras do capitalismo planetário. O atual trabalhador sisifiano não tem a menor ideia da dimensão da esfinge que o controla e que o habita. A nova esfinge é interior à subjetividade humana; ela não questiona mais, ela ordena. A esfinge capitalista tirânica é o atual superego do homem, do qual ele não consegue se livrar e que o condiciona diuturnamente a gozar com as mercadorias e os objetos do mundo fetichizado, do qual o homem atual é apenas mais um de seus objetos.

Mas se a esfinge perversa capitalista engoliu o homem ao penetrá-lo – a esfinge se transformou em seu recente passageiro Alien? Alienígena e alienado! –, é permitido e emergente perguntar: onde estão as velhas esfinges racionais e reflexivas do mundo civilizacional que faziam alteridade à subjetividade do homem ao questioná-lo?

Muito bem! Tudo indica que o novo Sísifo brasileiro, eminentemente os trabalhadores operacionais de classe média, não suportam ou se incomodam sobremaneira diante das poucas esfinges socráticas sobreviventes. A nova mentalidade sisifiana brasileira, sobretudo a débil, hipócrita e inconveniente direita fast-food não cessa de devorar, engolir, triturar as manifestações das saudosas e salutares esfinge de Domingues.

Onde?

Onde há alteridade de gênero, de classe, de raça, de arte, de cultura... Tudo aquilo que possa lhe causar mal-estar, asco, repugnância e, reflexão. À direita brasileira atual não lhe foi dada a função do pensamento crítico reflexivo.

Ao invés de pensar, uma das raras virtudes humanas, engolem o Outro:

Nos museus, nas favelas, nos cárceres, no trabalho e em todo o cotidiano. A direita não suporta a esfinge externa tampouco se dá conta de que é habitada mentalmente pela esfinge gozante capitalista. A direita brasileira é assassina: da democracia, dos negros, dos índios, dos artistas, dos miseráveis e demais marginalizados sociais.

Mal sabe a direita brasileira que a perversa esfinge capitalista que se deixou habitar o seu interior e que tomou de assalto a sua subjetividade ainda causará a sua morte por envenenamento.

Incrível observar nas redes sociais virtuais e no cotidiano social a enorme congruência entre a massa de manobra direitista: são, em sua imensa maioria, adeptos de Jair Bolsonaro (“Dória também serve, ele não é político é empresário”), Feliciano, Aécio (agora nem tanto – talvez por vergonha). Todos foram às ruas ou às redes pedir “Fora Dilma!” e agora inflamam-se no mais inconsequente “Cadeia para o chefe!”.

São hipócritas, levianos e sedentos por sangue: de quaisquer de seus desiguais.

Para analisar essa claque deprimente dominada não é necessária muita Psicologia! Nem tantas teorias do conhecimento. Basta enxergar e respeitar na esfinge reflexiva a figura do Outro diferente (pleonasmo) e regurgitar o veneno asfixiante da esfinge capitalista com a qual se copulam em simbiose gozosa intracerebral, mas para isso é imprescindível não ter cérebro de barata.

Freud estava certo: “Toda psicologia é social”; some-se Aristóteles a isso: “O homem é um animal político”. Portanto, toda Psicologia do homem é política.

São nas relações com Outro que o sujeito se desvela e, muitas vezes, se revela:

A direita brasileira não cessa de se mostrar: é uma verdadeira idiotia não-extirpável, dentro de seu túmulo, que o refluxo das novas marés apagará das areias e das terras brasileiras.

Assim, reza a autêntica e verdadeira esfinge...



[1] DOMINGUES, Ivan – O grau zero do conhecimento: O problema da fundamentação das ciências humanas, Edições Loyola, São Paulo, SP, 1999, p.15.

[2] Idem.

[3] Ibidem, p. 17.

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