A esquerda portuguesa não aprendeu nada com Trump e Bolsonaro!

Estamos a cometer os mesmos erros que os “progressistas” ou a esquerda moderada e radical do Brasil e em certa medida da esquerda estadunidense cometeram

(Foto: Agência Lusa)
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Por Carlos Hortmann

Aquela insígnia de que devemos aprender com os nossos próprios erros é uma forma de naturalização ou diminuição da nossa capacidade de análise e crítica, alimentado pela ideologia liberal-capitalista.  

Perdoem-me amigos e camaradas portugueses por esse título um pouco provocativo, mas a conjuntura que se apresenta não me permite iniciar de outra forma essa reflexão sobre a conjuntura política e eleitoral. Pois estamos a cometer os mesmos erros que os “progressistas” ou a esquerda moderada e radical do Brasil e em certa medida da esquerda estadunidense cometeram. As escolhas táticas de como combater e enfrentar essa direita reacionária-protofascista (que alguns classificam de extrema-direita), que nos últimos anos começaram a ganhar espaço político e até governos (EUA, Brasil, Hungria e afins). Num primeiro nível, é sermos essencialmente reativos às suas táticas de comunicação – notícias falsas (via redes sociais) como forma de conspurcar o debate público.

Fiel às minhas raízes leninianas, digo-vos, que jamais devemos perder de vista a seguinte compreensão: “análise concreta de uma situação concreta”. Essa direita protofascista tem sido fomentada pelas burguesias monopolistas com um objetivo muito evidente, o de servir aos seus interesses, pois, quando as contradições (problemas) da crise estrutural capitalista não conseguirem ser administrados pela “democracia-liberal” ou justificada e mistificada pela ideologia, os mesmos não se furtarão em recorrer a uma face ainda mais autoritária do modo de relação social capitalista: o fascismo.

A situação concreta é que a direita reacionária numa estratégia de amplitude global, com suas táticas de comunicação e capacidade de mobilização de setores da classe trabalhadora, a leva a assumir uma posição de classe que não é a sua, ou seja, os interesses da burguesia. Algo que muitos procuram fingir que não é real e concreto. Contudo, reforço, os reacionários têm demonstrado uma capacidade de mobilização muito forte e destemida – basta lembrar o que aconteceu a poucos dias no Capitólio nos EUA. Imaginam estarem a lutar por uma “revolução-conservadora” contra um sistema globalista do marxismo-cultural. É claro que não passa de um delírio e teoria da conspiração.  

O cerne ideológico desses movimentos protofascistas é o nacional-chauvinismo e racismo (nas suas variadas especificidades). Essas ideias e conspirações têm ganhado dimensões mundiais, visto que a internet e as redes socais têm uma capacidade e velocidade de disseminação jamais imaginada. Concretamente, posso vos garantir que eles têm uma estratégia internacional em termos de comunicação. Parecem seguir exatamente os mesmos scripts.

Apresento-lhes algumas frases do “trump lusitano” proferidas no dia de ontem após eleição:

- “portugueses de bem”;

- “um partido declaradamente antissistema rompeu o espectro da direita tradicional [...] para criar uma avassaladora força antissistémica”;

- “esmagamos a extrema-esquerda em Portugal”;

- “quebramos os mitos das terras comunistas”; 

- “Sabemos que somos um projeto vencedor”;

- “Agradecer a Deus que o país acordou”

- “não há segundas vias”;

- “não haverá governo em Portugal sem nós” 

- “a quarta República está cada vez mais perto em Portugal”

- “nós somos e seremos a maior força de transformação em Portugal

Se substituíssemos Portugal pelo Brasil, tenho a plena convicção de que os brasileiros não teriam qualquer estranhamento. Visto que foi exatamente a mesma tática de comunicação que Bolsonaro coloca em marcha na terra de Caetano Veloso. 

A ter em vista a crise estrutural (e cíclica) do capitalismo e ambiental, que foi agudizada pela pandemia, gostava de partilhar convosco algumas análises que ando a refletir sobre a conjuntura e os motivos desse segmento político ganhar força. 

A direita reacionária-protofascista tem procurado ocupar politicamente uma posição (na aparência, mas não no conteúdo) de defensora dos interesses da classe trabalhadora, visto que muitos partidos (históricos) que lutam pelos/as trabalhadores/as foram domesticados – nem tanto ideologicamente, mas em termos estratégicos e táticos – e cooptados pelos marcos do liberal-capitalismo. Estou a tentar dizer é que essa direita protofascista está a ocupar um espaço de poder político vazio que grande parte da esquerda abandonou: uma prática e discurso contínuo anticapitalista, anti-imperialista, antissistema, deixando de apontar para a Revolução Socialista como forma de superação da barbárie em que vivemos. 

Os estrategistas do capital perceberam que poderiam potencializar esse ímpeto de insatisfação que os/as trabalhadores/as têm com “democracia” e Estado burguês, visto que na sua fase neoliberal tem servido ao máximo aos detetores do capital, em especial ao capitalismo financeiro, e dispondo o mínimo ao social, ou seja, para classe que vive-do-trabalho. Gostaria de ressaltar que o capitalismo é um projeto de Estado. Noutros termos, os descontentamentos das classes populares pauperizadas foi/são cooptadas pelo aparente discurso “anti-sistémico”, “antipolítica tradicional” e afins dessa direita, mas que também traz consigo os seus fundamentos racistas, xenófobos, homofóbicos, machistas e muitas outras opressões. Pontuo novamente, esse é um projeto e estratégia política estimulado, direta ou indiretamente, pelos bilionários ou burguesias monopolistas-imperialistas como um recurso ainda mais repressivo e autoritário. Uma espécie de “contrarrevolução preventiva”. Por outras palavras, um projeto político anti-classe trabalhadora na sua imensa diversidade. 

Por isso que essa direita reacionária criar antagonismo artificial com um suposto “sistema”, mas que ela nunca o adjetiva ou substantiva, pois só é um exercício de retórica. Eles sabem que as pessoas estão fartas e cansadas desse sistema destrutivo que é o capitalismo e não acreditam na tal “democracia” vigente. Um exemplo de como as pessoas não acreditam nessa simulação de democracia, que não passa da ditadura capitalista da mercadoria e da acumulação, são os altos índices de abstenções em processos eleitorais, no caso português gira em torno dos 50% e 60%. A palavra democracia tornou-se oca. Liberais, social-democratas, progressistas e comunistas, todos dizem estar a defender a democracia. Mas uma democracia sem um conteúdo definido. Democracia para quem: para os reais produtores da riqueza? Para os povos que viveram o julgo da expropriação colonialista? Vamos democratizar o quê: os lucros? os meios de produção? Os alimentos e a água, para que todos humanos, alteio, todos possam comer e beber? O socialismo ‘não é um estado de coisas que deva ser aplicado, mas é um movimento real que coloca fim a barbárie e exploração em que vivemos’. As respostas para os questionamentos supracitados só serão realidade com o fim do capitalismo. Resumidamente, ser antissistema nos dias de hoje é por consequência ser anticapitalista. Perguntemo-nos em Portugal: qual o segmento político de massas tem fomentado esse horizonte de superação do capitalismo? Temos sinalizado para urgência da Revolução Socialista? Estamos a utilizar os espaços institucionais da burguesia para denunciar a barbárie capitalista e agitação da nossa proposta de sociedade? Como as pessoas participam da política para além do período eleitoral? Lenine já tinha alertado sobre tal coisa há mais de 100 anos: “É preciso aproveitar os pequenos resquícios de legalidade [do Estado] ainda existentes para ampliar a propaganda, a agitação e a organização, mas sem se enganar com respeito a duração e a importância desses meios.”Infelizmente, isso é um problema que tem atingido grande parte dos partidos e segmentos políticos de esquerda em todo o mundo, é o que a socióloga Sabrina Fernandes categoriza como crise de práxis. Uma esquerda que foi colonizada pelo liberalismo, não essencialmente nas ideias, mas principalmente na tática e estratégia política. Os partidos políticos que têm força e sobreviveram foram os que radicalizaram. Não deixaram de alimentar o desejo de revolução, de que um Outro mundo é possível e superaram o discurso da luta por direitos como um fim em-si-mesmo. O objetivo último é o de tornar o “capitalismo obsoleto”. Ninguém é ingênuo de acreditar que a Revolução Socialista irá acontecer ali na esquina daqui 3 meses, mas os processos revolucionários são longos e precisam ser construídos, mesmos em época de “estagnação política”, é preciso termos agitação revolucionária, criar espaços de imaginação, de sonhos, de esperança e de acreditarmos que uma outra sociedade possível, e que possamos superar a ideologia capitalista de que não há alternativa (TINA). O socialismo, a revolução, não pode fugir da nossa práxis. Ao acreditar que defender a constituição e legitimar a forma elementar de todas as desigualdades da sociedade capitalista – a propriedade (dos meios de produção) – é algo revolucionário, é esquecer que o Estado e suas formas políticas e jurídicas são capitalistas. Isso é tudo o que a burguesia mais quer, jogar com as regras do jogo deles. O nível de progressismo ou centralidade dos interesses (via direito constitucional) da classe produtora da riqueza - os/as trabalhadores/as - é fruto da luta de classes (outra categoria esquecida por muitos) de um determinado período histórico, contudo, a correlação de classe e de forças são extremamente dinâmicas. No caso de Portugal, aquela constituição que pretendia caminhar ao socialismo e abolir as classes socais não existe mais porque a burguesia encontro força dentro dos “socialistas” para que pudesse alterar o texto, pois era perigoso as pessoas acreditarem nele.

Nesse esteio retomo as palavras de Lenine: “deve-se lutar pelos interesses imediatos do proletariado [classe trabalhadora], mas, ao mesmo tempo, defender, dentro do movimento atual, o futuro desse movimento.”, por outras palavras, a estratégia (objetivo final) é aquilo que dá sentido às atividades revolucionárias diárias nas diferentes frentes da luta, inclusive, na luta por direitos dentro da legalidade liberal-capitalista. 

Nós, anticapitalistas, precisam assumir os nossos erros táticos e estratégicos! Fazer uma “análise concreta da situação concreta” em que estamos a viver. O capitalismo tem aumentado o nível da sua intensidade destrutiva, desde o início da sua fase neoliberal e o fim da União Soviética, os/as trabalhadores/as têm vistos as suas condições de vida piorarem passo-a-passo, o desemprego híper-estrutural, a precarização e o pauperismo atingem com mais forças o mundo laboral, uma crise ambiental que ameaça a vida na terra. Portanto, não “estamos numa fase de acumulação de forças” camaradas, estamos a acumular mais miséria e barbárie.   

A famosa frase da Rosa de Luxemburgo é cada dia mais verdadeira, é o “socialismo ou a barbárie”. Não há tempo para brincamos de falar em democracia em abstrato, ou de sermos reativos (sem um objetivo tático e estratégico) com os protofascistas de hoje, pois é justamente isso que eles querem. Eles poluem, estrategicamente, o debate político com fake news ou mentiras estapafúrdias (Ex: ideologia de gênero), e nós acabamos por reagir a tudo e de forma imediatista. Não é que não devemos reagir, mas saber a hora e o que devemos responder é uma artimanha para não cairmos no jogo deles. Foi exatamente assim que Trump e Bolsonaro chegaram ao poder. Pois enquanto tentamos apagar todos os fogos (desmentir), as burguesias monopolistas continuam a acumular cada vez mais, basta ver quem foram os bilionários que mais enriqueceram em plena pandemia.

Gostaria de finalizar esse texto, caso você tenha chegado até aqui, a convidá-lo, caso não seja, a filiar-se a um partido político – que seja anticapitalista, pois a organização como forma de resistência sempre foi, e agora mais do que nunca, é fundamental para coletivamente construirmos uma sociedade em que todos/as possam ter o que comer e beber, não viver somente para pagar as contas e, que o “reino das mercadorias” desaparecera por completo. Lutemos por uma sociedade do bem viver e livre de todo o tipo de opressão. 

** Uma última observação: não é possível ser antifascista e se dizer a favor do capitalismo, pois o fascismo-nazismo é a face mais assassina e autoritária do capitalismo. 

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