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Denise Assis

Jornalista e mestra em Comunicação pela UFJF. Trabalhou nos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora da presidência do BNDES, pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" , "Imaculada" e "Claudio Guerra: Matar e Queimar".

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A esquerda venceu na França e o povo quer levá-la ao poder

"Agora Macron não só colhe os efeitos da sua truculência, como vê, com espanto, que as ruas lotam", escreve Denise Assis

Jean-Luc Mélenchon e Marine Le Pen (Foto: Reprodução)

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Aqui, na Inglaterra, na França, onde quer que o neoliberalismo tenha dominado por longo período, o resultado foi um só: um tremendo desencanto. A cartilha com cerca de 10 pontos de arrocho e estrangulamento da classe trabalhadora, contidas no fracassado “Consenso de Washington”, que reduzia a ação do Estado e enxotava os miseráveis para a borda da sociedade, deixando-os entregues à própria sorte, não os motivou para uma militância organizada e nem tampouco para um maior nível de conscientização. Cegos de revolta, fartos de tamanho desalento, erraram da esquerda para a ultradireita, provocando estragos fatais, como no Brasil, onde se amargou o pão que Bolsonaro amassou.

O fenômeno, a princípio, assustou até mesmo os estudiosos, que não conseguiam entender como trabalhadores revoltados podiam pender para a ponta radical da ultradireita – o fascismo -, quando teriam amparo nos partidos de esquerda, em que a pauta contempla mais pontos do espectro humanista do que os demais partidos “de centro”, voltados para o capitalismo e suas exigências. E, pasmem, muitos declaravam que votariam num ou noutro (esquerda ou ultradireita), abandonando de vez os partidos que em sua maioria carregam em sua sigla a classificação de “socialistas”, mas na verdade agem para retirar-lhes direitos. Cansaram do meio. 

Com exceção do Reino Unido, onde as opções são apenas duas: conservadores X trabalhistas, nos países que passaram por governos “atucanados”, França e Brasil, por exemplo, houve um grande esforço para que as urnas parissem um nome mais à esquerda, que rompesse a dualidade estranha. E daí surgiu o resultado francês. Nem Marine Le-Pen, tampouco Emmanuel Macron. A esquerda jogou toda a sua força, fruto dessa insatisfação com o “mais ou menos” - muito mais para menos do que para mais -, do ponto de vista das pautas sociais, de Macron. Equivocado, ele partiu para uma manobra radical, a de chamar eleições ainda a três anos do fim do seu mandato (2027).

Numa tentativa de recuperar a própria imagem e preservar algum restinho de prestígio, fez acordo com Jean Luc Mélenchon, da França Insubmissa ou, como preferem alguns, da “esquerda radical. Há tempos o comentarista Breno Altman, do 247 e editor do site Opera Mundi, vem alertando que só o enfrentamento pela esquerda iria produzir um governo que desse conta do cenário atual e da ameaça da ultradireita. Sua tese estava correta. Paris fez a opção pela esquerda, mesmo sabendo que ao lado da Nova Frente Popular caminhou o macronismo, sem nenhuma garantia de que cumpriria – como agora dá mostras de que resiste ao resultado das urnas -, os compromissos assumidos. 

Levou adiante o apalavrado, até a página dois. Sim, é certo que retirou candidaturas, tal como os seguidores de Mélenchon, onde havia perigo de o vencedor – em caso de três correntes postulantes ao parlamento -, ser da ultradireita. A estratégia funcionou e a França conseguiu barrar a assunção do fascismo. Flagrantemente derrotado, Macron regateia entregar o poder para a esquerda, apesar de pela regra do jogo, devesse fazê-lo. O que ele não imaginava, porém, é que o povo recusaria tão fortemente o seu “Juntos”, uma coalizão governista que alguns forçam a barra para chamar de “centro”, mas foi responsável por exemplo, por decreto que alterou os direitos previdenciários dos trabalhadores da França, no mais puro estilo liberal.  

Agora Macron não só colhe os efeitos da sua truculência, como vê, com espanto, que as ruas lotam em defesa de uma opção pela esquerda, com uma pauta que avança em pontos há muito sonhados por eles, que não viam no horizonte a chance de conquistar. É hora de reconhecer que não só a esquerda venceu na França, mas o povo está com um dos pés no poder. A ver.

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