A estreia de Douglas Ruas, crise política no Rio de Janeiro e a força gonçalense: nova hegemonia de uma família?
Família Ruas vai se gabaritando como uma força emergente no Rio de Janeiro
Com a renúncia de Cláudio Castro (PL) ao governo do estado, o Rio de Janeiro passa por dias de grande indefinição, e a população fluminense testemunha a inelegibilidade de mais um chefe do Executivo, a poucos meses das eleições ordinárias de outubro. A crise instaurada não é exatamente uma novidade, pois desde 2016, foram cinco detidos, em uma lista de sete ex-governadores com algum tipo de ação penal. Trata-se de um cenário sem precedentes históricos. Este recente vácuo de poder levou à ascensão conturbada do novato deputado estadual Douglas Ruas, também do PL. A força política do agora midiático Ruas se origina na consolidação da sua família na cidade de São Gonçalo, o segundo maior colégio eleitoral dentre os 92 municípios do RJ. O Poder Judiciário acabou enredado na trama e vem ditando os rumos do estado, situação que pode se manter até o primeiro dia de 2027, quando assumirá o novo governador eleito.
Características da crise e os protagonistas:
A primeira dimensão a ser analisada é a da crise política, que é profunda a ponto de o governador interino hoje ser o presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ), o quarto na linha sucessória do Poder estadual. Trata-se do desembargador Ricardo Couto, que assumiu um mandato-tampão, ainda sem perspectiva de saída. Está totalmente imprevisível até quando Couto seguirá no cargo e se haverá eleição antes de outubro.
A conjuntura conturbada dragou o Poder Judiciário para a cena política com a saída de Cláudio Castro. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) atuou no impedimento do ex-governador, assim como o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ), o Supremo Tribunal Federal (STF) e o TJ-RJ. Cada um desses órgãos vem tendo um papel específico na crise generalizada. Falarei disso mais adiante, à medida que contextualizo os envolvidos no imbróglio.
Sem dúvidas, o pivô da crise é o ex-governador Cláudio Castro, que renunciou em 23 de março, numa tentativa de evitar a perda de seus direitos políticos e a cassação do mandato. No dia seguinte, porém, o TSE julgou o caso, condenando-o por abuso de poder político e econômico, além de irregularidades em gastos de campanha e na conduta junto a agentes públicos no pleito de 2022, em um episódio conhecido como Caso Ceperj. Agora, Castro está inelegível por oito anos.
Já o vice-governador Thiago Pampolha (MDB) deixou o cargo em maio de 2025 para assumir uma vaga no Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ). Castro e ele estavam rompidos e havia uma tentativa estratégica de dar visibilidade ao ex-presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar (União), que viria a se candidatar a governador, em 2026, como sucessor de Castro.
Por sua vez, o ex-presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, se encontra preso, pois foi condenado e teve seu mandato cassado pelo TSE em março deste ano, acusado de crime eleitoral também no Caso Ceperj. Ele já tinha sido alvo da justiça, em dezembro do ano passado, por uma suposta ligação com facções criminosas, o que resultou em medidas cautelares, como o uso de tornozeleira eletrônica.
Essa perda de mandato culminou na necessidade de recontagem dos votos das eleições de 2022, pois com a exclusão dos votos recebidos por Bacellar, poderia haver mudanças nas demais cadeiras da Alerj. O TRE-RJ fez a recontagem em 31 de março, mas não determinou qualquer alteração na distribuição das cadeiras entre os partidos e federações.
É neste contexto que ocorre a ascensão de Douglas Ruas. Em 26 de março, em uma manobra apressada e irregular, a Alerj votou e o elegeu como o novo presidente da Casa, alçando-o, consequentemente, ao posto de governador. A oposição não participou dessa sessão, alegando um golpe. São necessários 36 votos para eleger o presidente da Alerj e Douglas recebeu 45 (no universo de 70 deputados), o suficiente para expressar o clima amplamente favorável para si no espaço legislativo. A candidatura de Douglas contou com o apoio direto dos partidos União e PP, que totalizam 33 deputados
O encerramento da janela partidária, em 4 de abril, movimentou ainda mais o conturbado tabuleiro político fluminense. Após esse período, o PL saiu de uma bancada de 18 deputados para 22. Outra legenda com interesse no jogo também ganhou força: o PSD, do favorito a ganhar a eleição para governador em outubro, Eduardo Paes, ex-prefeito do Rio de Janeiro e atual pré-candidato. A legenda saltou de 6 deputados estaduais para 10 e a pré-candidatura de Paes conta com os 5 parlamentares do PT, além de MDB, PDT, PSB e PC do B, cada um com dois parlamentares. Essa equação resulta em 23 deputados apoiadores de Paes.
Se não fosse a atuação do TJ-RJ, através da desembargadora Suely Lopes Magalhães, presidenta interina do Tribunal, no sentido de aguardar a recontagem dos votos na Alerj, Douglas Ruas já seria o governador do estado.
O STF também está envolvido na crise, pois está julgando as implicações das mencionadas questões criminais sobre a linha sucessória do Rio de Janeiro. Com isso, o impasse sobre o mandato-tampão se mantém. A tendência do STF parece ser de assegurar, até a posse do novo governador eleito, a permanência de Ricardo Couto, que já iniciou as primeiras medidas políticas: redefiniu secretarias de governo, retirou os aliados de Castro e começou um movimento de auditoria das contas estaduais.
Em 17 de abril, Douglas Ruas foi eleito presidente da Alerj novamente, desta vez com o aval jurídico do TJ-RJ e do TRE-RJ, mas ainda sem uma posição definitiva do STF sobre se assumirá ou não o governo do estado. O placar foi de 44 votos favoráveis, mesmo com o boicote da oposição, e uma abstenção.
Mas afinal, quem é Douglas Ruas e por que sua família é tão importante?
Douglas Ruas tem 37 anos e é filho do atual prefeito de São Gonçalo, Capitão Nelson (PL). É concursado da Polícia Civil do Rio de Janeiro, bacharel em Direito, e conquistou 175.977 votos para Alerj, angariando o seu primeiro mandato legislativo. Tem experiência em cargos públicos, tendo sido secretário municipal de Gestão Integrada e Projetos Especiais durante o primeiro mandato de Capitão Nelson e superintendente regional do Instituto Estadual do Ambiente (INEA). Entre setembro de 2023 e março de 2026, foi secretário estadual das Cidades do governo Castro. Foi escolhido pela família Bolsonaro para ser pré-candidato a governador do RJ, numa costura política apoiada por Cláudio Castro, pelo deputado federal Altineu Côrtes (PL) e pelo PL-RJ.
Para entender sua trajetória, é necessário olhar para o seu berço político, cujo elemento-chave é o patriarca. Capitão Nelson vinha de consecutivos mandatos como vereador na Câmara Municipal de São Gonçalo e foi eleito deputado estadual em 2018, deixando o cargo para disputar, com sucesso, a prefeitura da cidade onde nasceu, trabalhou e cresceu politicamente.
Na câmara municipal gonçalense, Capitão Nelson hoje encontra uma correlação de forças altamente favorável, com apoio de 24 do total de 27 vereadores. Na última eleição municipal, nenhum dos três vereadores de oposição foi reeleito e Nelson foi reconduzido ao cargo executivo com mais de 84% dos votos válidos.
Nelsinho Ruas (PL) é outro filho de Capitão Nelson, e hoje é o primeiro vice-presidente da Mesa da Câmara de São Gonçalo. Ele foi o vereador mais bem votado no pleito de 2024, angariando 11.079 votos, e vem se projetando na vida pública gonçalense após a reeleição do pai.
A eleição de 2022 consagrou a cidade de São Gonçalo como importante palco de consolidação da família Ruas, pois além dos personagens já mencionados, o deputado federal Altineu Côrtes teve expressiva votação (167.512) para a Câmara dos Deputados, em Brasília. Parte substancial desses votos veio justamente de São Gonçalo, numa campanha em forma de dobradinha em que Douglas Ruas foi candidato à Alerj e Côrtes, à Câmara Federal. Segundo apuração de O Globo, São Gonçalo foi um destino frequente de recursos do chamado orçamento secreto, tendo em Altineu Côrtes um importante articulador.
Mesmo com a cidade sofrendo com problemas educacionais e de segurança, a família Ruas vem se fortalecendo como um grupo político e a eleição de Douglas revela isso. Ao realizar pesquisas de campo, um diagnóstico central é feito, que o governo de Nelson entregou políticas públicas, como obras de infraestrutura na cidade. Diante de anos anteriores de escassez ou limitada ação do poder municipal, este governo conseguiu angariar adesão da população e da maioria da classe política local.
A ascensão dos Ruas se confunde com o fortalecimento do bolsonarismo em São Gonçalo também. Desde 1989 até as eleições de 2014, as candidaturas petistas sempre obtiveram bons resultados, com vitórias na maioria das vezes. Uma exceção foi o pleito presidencial de 1994. No entanto, a partir de 2018, com o advento do bolsonarismo, o Capitão Nelson também se projetou, como demonstram análises anteriores que este pesquisador vem realizando.
Quanto ao futuro deste grupo e do estado, o que esperar?
De forma mais imediata, estamos vendo a projeção acelerada da família Ruas como uma força regional. Em São Gonçalo, não se nota qualquer força política capaz de fazer frente a este grupo e há boa chance de algum Ruas pleitear a prefeitura. Na esfera estadual, se avizinha a eleição para governador, na qual o nome de Douglas Ruas se difundirá ainda mais. Ele enfrentará um forte candidato, o favorito Eduardo Paes. Seja em uma eleição extraordinária ou somente na eleição ordinária de outubro, Douglas definitivamente está no jogo político e com muito espaço de crescimento.
Considerando os últimos resultados estaduais, quando o RJ elegeu, em 2018 e 2022, respectivamente, os desconhecidos Wilson Witzel (PSC) e Cláudio Castro (PL), Douglas pode nutrir boas expectativas, uma vez que, além de já ter considerável projeção, ele tem três grandes trunfos: a família Ruas, a família Bolsonaro e o PL-RJ. Caso perca a eleição, poderá voltar ao seu berço no executivo municipal gonçalense, como já ocorreu no primeiro mandato do Capitão Nelson.
O patriarca dos Ruas tende a seguir na vida pública, com boas chances na vereança, em 2028, na Alerj ou na Câmara dos Deputados, em 2030. Todavia, neste último caso, precisaria realinhar o duradouro pacto com o deputado federal Altineu Côrtes, o quinto deputado federal mais bem votado do RJ.
Impulsionada pelo voto gonçalense e pelo bolsonarismo — com algumas semelhanças, mas com luz própria — a família Ruas vai se gabaritando como uma força emergente no Rio de Janeiro.
A condensação de forças no bloco do poder do Rio de Janeiro está nacionalizada pela inserção judicial, pelo bolsonarismo e pela provável entrada do governo federal na disputa política aberta, principalmente com a aproximação das eleições de outubro, em apoio à candidatura de Eduardo Paes.
A renúncia de Castro, portanto, gerou ainda mais imprevisibilidade numa dinâmica política já conturbada. No Rio de Janeiro, realmente, ninguém sofre de qualquer sombra de tédio.
Agradeço à revisão de Natalia Veiga.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
