A estreia do Brasil na Copa mostrou que não somos o país do futebol
O futebol contemporâneo, cada vez mais complexo, exige organização coletiva, compactação entre os setores e intensidade durante os noventa minutos
A estreia da seleção brasileira na Copa de 2026 foi exatamente aquilo que já se previa. Uma equipe sem padrão de jogo definido, sem um meia capaz de reter a bola, organizar as ações e pensar o jogo. Na defesa, lentidão preocupante; no meio-campo, dois volantes sem intensidade na marcação, praticando o famoso “cerca Lourenço”, tão comum em equipes de veteranos: acompanham o adversário à distância, mas raramente desarmam.
O futebol contemporâneo, cada vez mais complexo, exige organização coletiva, compactação entre os setores e intensidade durante os noventa minutos. Nesse aspecto, a seleção de Marrocos apresentou todos os requisitos de uma equipe que atua junta há mais tempo e que traz na bagagem a experiência e a confiança de quem terminou a Copa de 2022 na quarta colocação.
A seleção brasileira, por sua vez, parece depender excessivamente de lampejos individuais. Quando esses jogadores são bem marcados e inseridos em um contexto coletivo pouco funcional, o talento isolado deixa de fazer diferença.
Corremos o risco — e um risco real — de assistir a um fiasco histórico. O Brasil terá dificuldades diante da Escócia e do Haiti porque, neste momento, não parece ter um time. Chegamos à Copa com um catado de jogadores, sem identidade, sem repertório tático e incluindo um ex-jogador em atividade que herdou a camisa 10, símbolo máximo da criatividade e da liderança técnica do futebol brasileiro.
E a culpa não pode ser atribuída apenas aos atletas ou à comissão técnica. Ela tem endereço conhecido: a CBF. São anos de desmando, improvisação e ausência de projeto. A entidade transformou-se em uma agência de negócios em torno do futebol, incapaz de estruturar um plano consistente de formação de treinadores, de integração entre categorias de base e seleção principal e de definição de uma filosofia de jogo.
Enquanto isso, a Argentina exporta técnicos para diversas seleções do mundo e investe na qualificação de seus profissionais. O Brasil, ao contrário, abandonou a reflexão sobre o jogo, desprezou a formação e passou a viver da ilusão de que o talento individual surgirá espontaneamente para resolver problemas estruturais.
Já não formamos jogadores como antes. Não formamos treinadores. Não formamos uma ideia de futebol. O país que transformou o futebol em parte de sua identidade nacional parece ter chegado ao ápice de sua decadência esportiva.
Se nada mudar, o fracasso deixará de ser surpresa. Será apenas a consequência lógica de décadas de negligência administrativa e da ausência de um projeto para o futebol brasileiro.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

