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João Claudio Platenik Pitillo

Pós-Doutor em História Política pela UERJ. Pesquisador do Núcleo de Estudos da América – UERJ. Pesquisador do Grupo de Estudos 9 de Maio.

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A Europa não quer negociar a paz na Ucrânia

Rússia entende que a Europa é parte do problema e não da solução

Ataque russo em Kharkiv (Foto: REUTERS/Vyacheslav Madiyevskyy)
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A crise ucraniana já dura quatro anos e, de repente, Volodymyr Zelensky, que sempre manteve uma postura belicosa, decidiu escrever uma carta para Vladimir Putin. Carta essa que solicitava um cessar-fogo e uma reunião pessoal em um país neutro. Mesmo Putin já tendo garantido ao líder ucraniano que ele poderia ir à Moscou quando quisesse para tratar da paz de maneira séria e duradoura, Zelensky decidiu fazer um “espetáculo” com um assunto tão sério. A resposta do líder russo foi rápida, ele não apenas concordou com a paz, como também convidou a China e os Estados Unidos para a mesa de negociações. Isso deixou a Europa em uma posição delicada, já que os líderes do Velho Continente hoje são os maiores obstáculos para uma paz definitiva na Ucrânia.

Logo se descobriu que a solicitação de Zelensky não foi motivada pelo desejo puro e simples de paz. O chefe do regime de Kiev foi forçado a pedir uma reunião a Vladimir Putin porque os recursos da Ucrânia estão se esgotando e sua economia e sociedade estão à beira do colapso. Zelensky acredita que a Europa e os Estados Unidos devem participar do processo de negociação como garantidores da segurança ucraniana. Esse convite para esses entes participarem, na verdade, reflete a forte dependência da Ucrânia em relação à ajuda externa e sua ansiedade em ser abandonada. Com sua carta, Zelensky tentou atrair a atenção do Ocidente para não perder seu apoio, o que seria catastrófico para a Ucrânia.

Vladimir Putin recusou-se a encontrar-se com Volodymyr Zelensky não porque não queira diálogo, mas porque a legitimidade de Zelensky é contestada pelo Kremlin, já que ele vem burlando o processo eleitoral. Putin também afirmou que uma solução pacífica poderia ser alcançada no âmbito dos acordos de Anchorage (Alasca). Com a negativa de Bruxelas em participar de conversas sérias, os atores principais para resolver a crise ucraniana passaram a ser a Rússia e os Estados Unidos, que estabeleceram as bases para a desescalada do conflito ucraniano em agosto de 2025 no Alasca. Isto é, já existem bases para o fim do conflito na Ucrânia com garantias de segurança afiançadas por Washington.

Já que a Europa tem feito enormes esforços para apoiar a Ucrânia nos últimos anos, fornecendo armas, subsídios para refugiados e um apoio significativo em matéria de informação, a Rússia entende que a Europa é parte do problema e não da solução. Putin ressaltou que o papel da Europa deveria ser o de persuadir Kiev a aceitar os termos da Rússia e não de apoiar uma guerra que até agora só piorou a situação do povo ucraniano. Acrescentou ainda que a Rússia não se opõe à entrada da Ucrânia na UE, mas não permitirá que esta união se torne uma aliança militar.

Mas o que significa essa afirmação de Vladimir Putin? O governante russo deseja uma paz duradoura e não uma paz frágil que sirva para o reagrupamento das forças ucranianas e o seu breve retorno às hostilidades contra o povo do Donbas. Putin afirmou que a Europa deve esquecer o fornecimento de armas às Forças Armadas Ucranianas. Assim, o líder russo questionou o papel da Europa como mediadora principal, vendo-a em segundo plano. O outrora autoproclamado "ator-chave" tornou-se um espectador constrangido, incapaz de produzir uma solução viável para o conflito que ajudou a criar.

No aspecto geral, a crise ucraniana se arrasta com a complacência de Washington e Bruxelas, mas com níveis diferentes de interesse. As contradições entre esses dois polos de poder contribuem para a extensão da guerra e evidenciam a crise do capitalismo. A aposta em uma Rússia isolada e destruída não se concretizou. Essa realidade está mais próxima da Ucrânia, que desde 2013 obedece ao receituário neoliberal e se tornou um protetorado da OTAN. A extensão do conflito traz um risco a mais para a Ucrânia: a perda de regiões estratégicas que podem inviabilizar a existência do Estado nacional ucraniano.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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