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Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

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A falsa missionária

A falsa missão de Zambelli e os riscos do fanatismo político para a democracia brasileira

Carla Zambelli (Foto: Lula Marques/ Agência Brasil )
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Carla Zambelli nunca quis apenas exercer um mandato parlamentar. Ao longo dos anos, construiu para si a imagem de combatente investida de uma missão quase sagrada: salvar o Brasil de inimigos que ela própria ajudou a inventar e alimentar. Como ocorre frequentemente nos movimentos políticos radicalizados, a política deixou de ser espaço de convivência democrática para se transformar numa batalha moral absoluta entre “puros” e “corruptos”, “patriotas” e “traidores”. O problema é que, quando líderes passam a se enxergar como enviados de uma causa superior, as instituições democráticas deixam de ser limites e passam a ser obstáculos.

Toda falsa missionária precisa de um inimigo permanente. Sem ele, desaparece a própria personagem. Carla Zambelli construiu sua trajetória política alimentando conflito, indignação e teorias de perseguição. A deputada não atua como representante republicana tradicional. Atua como alguém convencida de possuir uma autorização moral superior às próprias regras democráticas.

Esse talvez seja um dos fenômenos mais perigosos da extrema direita contemporânea. Não se trata apenas de divergência ideológica. Democracias convivem naturalmente com conflitos políticos. O problema surge quando determinados grupos passam a acreditar que representam não apenas um projeto político, mas uma espécie de verdade absoluta, acima das instituições, das leis e até da própria realidade factual.

O bolsonarismo estimulou precisamente esse ambiente psicológico e político. Muitos de seus quadros passaram a agir como personagens de uma cruzada permanente. Não existe adversário legítimo; existe apenas o inimigo. Não existe crítica democrática; existe perseguição. Não existe responsabilização judicial; existe martírio político.

É nesse universo que Carla Zambelli construiu sua identidade pública.

Sua ascensão política não ocorreu pela elaboração de propostas estruturadas para o país nem pela capacidade de articulação institucional. O que a transformou em figura nacional foi justamente a lógica do confronto permanente. A deputada tornou-se conhecida por performances políticas baseadas em choque, tensão, redes sociais, acusações inflamadas e mobilização emocional de sua base.

A deputada justiceira

A cena que talvez melhor simbolize essa trajetória ocorreu às vésperas das eleições de 2022, quando Carla Zambelli perseguiu, armada, um homem negro pelas ruas de São Paulo após uma discussão política. Não se tratava apenas de uma parlamentar exaltada. A imagem revelava algo mais profundo e inquietante: a naturalização da ideia de que determinados agentes políticos podem agir como justiceiros investidos de autoridade moral superior às próprias instituições.

Armada, acuada e cercada pelo clima de radicalização que tomou conta do país naquele período, a deputada protagonizou um episódio que condensou em poucos minutos a degeneração de uma cultura política baseada no ódio, na paranoia e na lógica do inimigo interno. A falsa missionária não espera a Justiça. Não confia plenamente nas instituições. Sente-se autorizada a agir por conta própria porque acredita representar o “bem” numa guerra absoluta contra o “mal”.

Aquela perseguição armada talvez tenha sido uma das imagens mais perturbadoras do bolsonarismo radicalizado. Uma deputada federal correndo pelas ruas de uma das maiores cidades do planeta, arma em punho, como se estivesse num faroeste político tropical, enquanto parte de seus apoiadores enxergava na cena não um perigo democrático, mas um gesto heroico.

Quando representantes eleitos passam a se perceber como guerreiros acima das normas civilizatórias básicas, a democracia deixa de ser espaço institucional e começa a se aproximar perigosamente da lógica das milícias políticas e do linchamento moral.

A história brasileira conhece bem esse tipo de mentalidade. Durante a ditadura militar de 1964, consolidou-se exatamente a ideia de que determinados grupos possuíam legitimidade para agir acima da legalidade democrática em nome de uma suposta missão salvadora nacional. Em nome do combate ao “inimigo interno”, normalizaram-se censura, perseguições, violência política, cassações, tortura e destruição de direitos civis fundamentais.

O discurso era sempre parecido: a democracia precisava ser suspensa temporariamente para ser “salva”. Os adversários deixavam de ser cidadãos e passavam a ser tratados como ameaças existenciais à nação. É precisamente esse imaginário autoritário que reaparece quando figuras políticas contemporâneas se colocam como agentes moralmente autorizados a ultrapassar limites institucionais em nome de uma guerra política permanente.

Mesmo depois de condenações judiciais e do aprofundamento de seu isolamento político, o discurso permaneceu praticamente intacto. Em vez de autocrítica, surgiu a narrativa clássica do “perseguido”. A falsa missionária transforma qualquer consequência de seus atos em prova de grandeza moral. Se responde judicialmente, afirma estar sendo censurada. Se perde apoio político, diz ter sido traída. Se enfrenta condenações, converte-se em “vítima do sistema”.

O martírio como estratégia

Esse mecanismo é antigo na história política. Líderes autoritários frequentemente procuram construir uma relação quase messiânica com seus seguidores. A lógica é simples: quanto maior a sensação de cerco, maior a necessidade de fidelidade absoluta ao líder ou à causa.

A política deixa então de operar no terreno racional e passa a funcionar no terreno da fé. E a fé política possui uma característica perigosa: ela dispensa evidências. Dispensa coerência. Dispensa limites.

No caso brasileiro, esse processo adquiriu contornos particularmente explosivos porque se misturou à instrumentalização religiosa. Parte da extrema direita percebeu rapidamente a potência política de uma linguagem baseada em “missão”, “guerra espiritual”, “combate ao mal” e “salvação da pátria”. O vocabulário religioso passou a servir como blindagem emocional contra qualquer crítica.

Quem questiona determinadas lideranças deixa de ser apenas adversário político. Passa a ser tratado como inimigo moral da nação, da família, da liberdade ou até de Deus.

Essa apropriação da fé talvez seja uma das dimensões mais perversas do fenômeno. Não porque religião e política não possam dialogar — elas sempre dialogaram na história humana —, mas porque o uso instrumental da religiosidade para legitimar intolerância e radicalização corrói simultaneamente a democracia e a própria experiência religiosa.

A verdadeira espiritualidade costuma produzir humildade. O fanatismo político produz arrogância moral.

A prisão da personagem

E há algo profundamente contraditório na trajetória dessas figuras autoproclamadas salvadoras da pátria. Enquanto se apresentam como defensoras da liberdade, frequentemente demonstram enorme dificuldade de conviver com limites institucionais, decisões judiciais, imprensa livre ou pluralismo político. A democracia só parece legítima quando confirma suas próprias crenças.

No fundo, o fenômeno da falsa missionária revela também uma enorme fragilidade. Porque personagens construídos sobre indignação permanente precisam continuamente fabricar novos conflitos para sobreviver politicamente. O extremismo transforma-se numa prisão da própria personagem.

Talvez por isso tantos líderes radicalizados acabem presos ao personagem que criaram. Tornam-se incapazes de moderar o discurso sem perder relevância junto à própria base. Vivem da tensão permanente. Alimentam-se da sensação de guerra contínua. Dependem emocional e politicamente do caos.

Mas democracias não sobrevivem indefinidamente sob lógica de guerra civil simbólica.

A intoxicação da democracia

O Brasil atravessou anos de intoxicação política baseada exatamente nessa dinâmica. O que antes aparecia como radicalismo periférico passou lentamente a ocupar o centro da vida pública. A convivência democrática foi sendo corroída por uma lógica de guerra permanente alimentada diariamente por redes sociais, lideranças extremistas e campanhas contínuas de desinformação e mobilização emocional.

Famílias romperam relações por divergências políticas que passaram a ser tratadas não como diferenças legítimas de opinião, mas como sinais de caráter moral. Amizades de décadas foram destruídas porque o adversário deixou de ser visto como cidadão que pensa diferente para ser transformado em inimigo existencial. Professores, jornalistas, artistas, juízes, cientistas e servidores públicos passaram a ser hostilizados como integrantes de uma suposta conspiração contra “o povo”.

Ao mesmo tempo, instituições democráticas passaram a sofrer ataques sistemáticos. O Supremo Tribunal Federal virou alvo permanente de campanhas de intimidação. O sistema eleitoral foi colocado sob suspeita sem provas. A imprensa passou a ser tratada como inimiga organizada da nação. Até episódios de violência política passaram a ser relativizados ou celebrados dependendo de quem os praticava.

Nesse ambiente intoxicado, o espaço público perdeu parte de sua capacidade de diálogo racional. A política transformou-se em espetáculo permanente de indignação, paranoia e agressividade. O extremismo deixou de ser exceção barulhenta à margem do sistema para se transformar em método político organizado, baseado na produção contínua de medo, ressentimento e conflito.

Carla Zambelli talvez seja menos causa e mais sintoma desse processo histórico. Sua trajetória ajuda a revelar como parte da política brasileira abandonou qualquer compromisso com mediação democrática para abraçar uma estética de confronto permanente e de mobilização emocional radicalizada.

O mais preocupante é que figuras assim raramente percebem o próprio fracasso. Continuam acreditando desempenhar papéis heroicos mesmo quando suas trajetórias terminam cercadas de isolamento, investigações, condenações e desgaste público.

Porque toda falsa missionária precisa acreditar até o fim que não errou. Precisa convencer-se de que não colheu consequências de seus atos, mas punições impostas por forças malignas que tentam impedir sua “missão”.

República ou fanatismo

A verdadeira missão de um representante público, porém, nunca deveria ser incendiar a democracia em nome de cruzadas pessoais. Deveria ser justamente o contrário: proteger instituições, reduzir tensões sociais, fortalecer a convivência democrática e compreender que nenhum projeto político está acima da República.

É precisamente essa diferença que separa líderes republicanos de falsos profetas da política.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.