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Ronaldo Lima Lins

Escritor e professor emérito da Faculdade de Letras da UFRJ

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A flotilha da paz e o murmúrio das masmorras

"Thiago Ávila e Abu Keschek foram libertados. O mundo protestando e a mobilização popular se fizeram ouvir"

Said Abu Keshek e Thiago Ávila (Foto: Lautaro Rivara/Flotilha Global Sumud)
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Quem se aproximou dela ou sofreu seus arranhões, sabe que a violência é um dragão de sete cabeças. Uma vez em movimento, quer mais, muito mais, insaciável em seus propósitos. É assim no mundo e no plano individual, onde devemos evitá-la por razões pessoais ou humanitárias. Vizinhos de Israel já experimentaram os sinais desta fúria, a do dragão, tão sedenta como ambiciosa. Armado até os dentes, o regime de Tel Aviv, doa a quem doer, não se detém. Compromete a história do judaísmo pela qual se consagrou, para a obtenção de objetivos inalcançáveis: a submissão ou a eliminação étnica dos palestinos. Não importa o que houve durante o nazismo com o holocausto; e pouco importam os massacres realizados em Gaza, vitimando homens, mulheres e crianças. A vontade de esmagar predomina, como se nada conseguisse interrompê-la. Pois é assem a crônica da violência. Uma vez posta em ação, transforma-se em fascismo.

A “Flotilha Samud” (nome significando resistência inabalável ou permanecer firme), não conduziu em seu grupo apenas Thiago Ávila e Abu Keshek, o palestino espanhol, ambos capturados fora das águas do sistema sionista. Mantinha as esperanças de que, com a pressão de tantas origens, algo sacudisse as autoridades e pusesse um freio nos combates desiguais. Foi uma demonstração de que o amor e a generosidade podem até ganhar e derrotar dragões, mas antes ele ruge e solta chispas venenosas. Na ponta de fuzis dos militares, os ativistas pararam nas masmorras de uma detenção com todos os rigores da brutalidade, sem deixar de incluir maus tratos e torturas. Familiares e amigos se preocuparam com eles, bem como as nações envolvidas, o Brasil e a Espanha.

Nós e ibéricos, que vivemos ditaduras, conhecemos como se processa a falta de regras de esbirros, pagos e alimentados pela fome de poder. Na oportunidade, Benjamin Netanyahu, não convence mais a ninguém, nem ao eleitorado interno que o sustenta cada vez mais precariamente. O clamor sobe e incomoda os ouvidos, se não se efetiva na prática. Cedo ou tarde, teriam de libertar os detidos. É uma situação que desgasta o judaísmo crescentemente dividido, com dificuldade de apoiar o que se passa naquela região. Chegou-se a um ponto em que criticar os excessos do sionismo gera acusações de antissemitismo, quando uma coisa nada tem a ver com a outra. Num desses absurdos, condenaram José Maria, o dirigente do PSTU a dois anos de cadeia. Aqui, ali ou acolá, o dragão afia as garras.

Thiago Ávila e Abu Keschek foram libertados. O mundo protestando e a mobilização popular se fizeram ouvir. Malefícios não duram eternamente. A mancha na história de um país, quando se imprime na alma das pessoas, custa a desaparecer. O mais cruel dos facínoras (lembremos de Hitler) terminam derrotados. 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.