A Folha de S.Paulo e a intervenção militar internacional na Venezuela

Fica nítida a percepção de que a Folha de São Paulo reverberou um texto de extrema gravidade, um chamado a uma intervenção militar internacional na Venezuela sem ao menos abrir a possibilidade de um contraditório

Venezuelan flags are seen during an opposition rally in Caracas, Venezuela, April 8, 2017. REUTERS/Christian Veron - RTX34Q8A
Venezuelan flags are seen during an opposition rally in Caracas, Venezuela, April 8, 2017. REUTERS/Christian Veron - RTX34Q8A (Foto: Paulo R de Andrade Castro)

A Folha de São Paulo publicou nesta edição de 3 de janeiro, na seção opinião, um artigo assinado Ricardo Hausmann, ex-ministro das finanças no governo neoliberal de Carlos Andrés Perez, onde o autor  faz um apelo por uma “intervenção militar internacional” na Venezuela para derrubar o governo de Nícolas Maduro.

O texto de Ricardo Haussmann foi publicado originalmente no site Project Syndicate, no dia 2 de janeiro, com o sugestivo título “O Dia D da Venezuela”, fazendo alusão à campanha aliada na segunda guerra mundial.

Em um trecho do artigo, Ricardo Hausmann compara a possível intervenção militar internacional na Venezuela com a intervenção de forças aliadas na 2ª. guerra mundial para a “libertação de França, Bélgica e Holanda”, que “não conseguiriam se libertar sozinhos” do nazismo.

Ricardo Haussmann culpa o governo de Nicolas Maduro pela grave situação econômica na Venezuela, sem obviamente fazer menção ao papel cumprido por empresários que reduzem a produção propositalmente e desviam mercadorias para o mercado negro, para produzir escassez e inflação.  

Entre os argumentos que utiliza de maneira cínica se incluiu a queda renda e do poder de compra dos salários. Contudo, omite o fato de que recentemente o governo de Nícolas Maduro decretou um aumento geral de 40% do valor dos salários e que esta medida foi fortemente repudiada por entidades empresariais como a Fedecamaras e pelas editorias de economia de jornais tradicionais como El Nacional, que reverberam a visão das elites empresariais. Cita ainda a hiperinflação e a queda da produção de petróleo.

Quanto à queda de produção de petróleo cabe notar que a Venezuela, desde 2016, cumpre rigorosamente metas de redução de produção acordadas na OPEP, para reverter a queda do preço do barril de petróleo no mercado internacional. A escalada inflacionária reflete as medidas de guerra econômica e produção deliberada de escassez citadas anteriormente.

Para justificar a intervenção militar internacional, Ricardo Haussmann ainda afirma que as três vitórias eleitorais que o PSUV obteve em 2017 frente à oposição foram “vitórias roubadas”. Não apresenta um único fato ou evidência para sustentar o argumento, apresentado, portanto, de forma leviana.

Sobre as rodadas de negociação em curso entre governo e oposição, realizadas desde dezembro na República Dominicana  sob supervisão internacional (observadores de sete países) revela descrença sobre a possibilidade de que ocorram “eleições limpas”.

Cabe notar que observadores internacionais e o Conselho de Especialistas Eleitorais Latino-americanos atestaram a lisura dos últimos pleitos, conforme padrão que se reitera durante os anos do chavismo no poder, sendo o sistema eleitoral venezuelano absolutamente confiável.

As afirmações de Haussmann reiteram a percepção de um fato que se torna a cada dia mais evidente. Após as três derrotas eleitorais de 2017, a oposição venezuelana ficou muito enfraquecida e mais fragmentada. Encontra-se dividida entre a tradicional Ação Democrática (AD), que “renasceu das cinzas” e ganhou todos os quatro governos regionais onde a oposição foi vitoriosa e os setores mais violentos da oposição, os partidos Vontade Popular e Primeira Justiça, que saíram extremamente enfraquecidos das eleições. A Mesa de Unidade Democrática (MUD) respondeu positivamente ao chamado ao diálogo feito pelo governo de Nícolas Maduro e aceitou participar da mesa de negociações na República Dominicana nesse contexto de derrotas. Contudo, consciente da improbabilidade de derrotar eleitoralmente Nícolas Maduro nas eleições presidenciais de 2018, prossegue a campanha internacional pelas sanções econômicas e por uma intervenção militar internacional. Jogando em duas frentes, diz procurar a paz, enquanto desenvolve uma estratégia de desestabilização que passa pelo apoio as sanções internacionais ou por uma intervenção militar internacional. A defesa destas duas formas de desestabilização (sanções econômicas e intervenção militar internacional) do governo está presente no texto de Haussmann publicado pela Folha.

Também é digno de nota que, na mesma edição, o colunista Vinicius Torres Freire publicou artigo intitulado “Venezuela em nova fase de destruição”, onde tece breves comentários sobre as credenciais acadêmicas e políticas de Haussmann, ressaltando suas competências. Afirma que a proposta de Haussmann é “uma medida do desespero demencial do país”. A partir deste ponto o colunista faz um rosário de considerações sobre a grave situação econômica venezuelana, deixando implícita uma visão muito negativa sobre o governo.

Fica nítida a percepção de que a Folha de São Paulo reverberou um texto de extrema gravidade, um chamado a uma intervenção militar internacional na Venezuela sem ao menos abrir a possibilidade de um contraditório.

O alinhamento com a campanha internacional midiática contra a Venezuela, que se desenvolve conjuntamente com uma poderosa pressão diplomática internacional, lembrada inclusive por Haussmann em seu texto, ganha contornos mais perigosos.

São conhecidos os desastres humanitários causados por intervenções militares internacionais em países como Iraque, Líbia e Síria. Cabe defender a Venezuela da possibilidade deste desfecho trágico.

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