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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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A foto de Maduro no navio e a fabricação da verdade

Imagem divulgada por Trump afirma mostrar Maduro algemado a bordo de um navio, mas levanta dúvidas imediatas sobre autenticidade, contexto e intenção política

Nicolás Maduro (Foto: Reprodução/Truth Social/@realDonaldTrump)

Todo cuidado é pouco em um tempo marcado por fake news, pelo uso criminoso da inteligência artificial e pela manipulação abusiva de governantes em busca do domínio do fato. Nesse ambiente saturado de imagens instantâneas e verdades precárias, a informação deixou de apenas correr — ela é frequentemente sequestrada, colocada à força em um navio retórico e levada para uma espécie de Nárnia informacional, onde o que parece real obedece menos aos fatos do que à conveniência do poder. Foi exatamente nesse território instável que surgiu a imagem de Nicolás Maduro divulgada por Donald Trump.

Poucas horas depois de Trump anunciar, em sua rede social, que forças americanas haviam capturado o presidente venezuelano, uma fotografia passou a circular com força viral. Nela, Maduro aparece vestindo calça de moletom cinza, com as mãos algemadas à frente do corpo e os olhos cobertos por uma venda escura.

O enquadramento sugere que ele estaria sentado ou contido em um espaço metálico que remete ao interior de um navio militar. A legenda escrita pelo próprio Trump afirmava tratar-se de Maduro “a bordo do USS Iwo Jima”. A imagem, de baixa resolução e recorte vertical incomum, parecia mais um registro de tela ou de um impresso do que uma fotografia jornalística convencional.

Foi essa imagem — e não apenas o anúncio político — que colocou o The New York Times diante de uma decisão editorial sensível. Trump carrega um histórico documentado de divulgar imagens falsas, manipuladas ou geradas por inteligência artificial, e isso não é novidade. Durante seu mandato e nos anos seguintes, publicou montagens que o retratavam como super-herói, cenas inexistentes de prisões em massa de adversários, imagens artificialmente infladas de multidões, além de conteúdos visuais enganosos relacionados à imigração, à pandemia e às eleições americanas. Esse padrão recorrente impôs à equipe do jornal um grau máximo de cautela.

Esse comportamento não se limita a episódios isolados nem a contextos de campanha ou redes sociais. Ele reaparece também em encontros diplomáticos formais, nos quais imagens e registros audiovisuais passam a ser usados como instrumentos de pressão política direta, mesmo quando sua origem e veracidade são frágeis.

Na reunião de 21 de maio de 2025, na Casa Branca, Donald Trump exibiu de forma agressiva um vídeo a Cyril Ramaphosa, alegando mostrar perseguição a brancos na África do Sul. Dias depois, verificou-se que as imagens eram do Congo, país marcado por conflitos armados crônicos, em contraste com a ordem institucional sul-africana.

Antes mesmo da postagem presidencial, outras imagens que supostamente mostrariam Maduro sob custódia militar começaram a circular nas redes sociais. Em uma delas, ele aparecia com roupas diferentes, cercado por agentes armados; em outra, dentro do que parecia ser uma aeronave. Todas foram submetidas à análise dos editores de fotografia do Times, com o auxílio de ferramentas de detecção de inteligência artificial e de especialistas em desinformação. As inconsistências visuais — janelas anômalas, iluminação incoerente, proporções improváveis e variações físicas inexplicáveis — foram suficientes para descartar essas imagens para publicação.

A fotografia divulgada por Trump, contudo, exigia um tratamento distinto. Mesmo sem confirmação plena de autenticidade, ela não podia ser ignorada. Tratava-se de um documento político: um presidente em exercício apresentando ao público uma imagem que alegava comprovar uma operação militar de enorme impacto internacional. O Times decidiu publicá-la não como evidência visual do fato, mas como parte da comunicação oficial do presidente, explicitando sua origem, seu contexto e suas limitações.

Por essa razão, a imagem foi apresentada vinculada diretamente à postagem no Truth Social, e não isolada como fotografia jornalística verificada. Na edição digital, apareceu contextualizada; na versão impressa, foi publicada em página interna, longe da capa. A decisão refletiu um princípio editorial clássico: reconhecer o peso simbólico e político da imagem sem convertê-la em prova factual.

O episódio diz menos sobre a eventual queda de um líder e mais sobre o cenário informacional em que conflitos, prisões e operações militares passam a ser narrados primeiro por imagens frágeis, difundidas por autoridades interessadas em controlar a versão inicial dos acontecimentos.

Em um mundo no qual a fotografia pode ser simultaneamente arma, encenação e propaganda, o jornalismo profissional reafirma seu papel mais árduo e menos espetacular: desacelerar o impacto, desmontar a cena e devolver os fatos ao chão da realidade. Quando imagens tentam substituir a verdade, cabe ao jornalismo lembrar — com método, rigor e coragem — que nenhuma fotografia, por mais poderosa que pareça, tem autoridade para falsificar os fatos.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.