A geografia excludente da República de Curitiba

Em muitas metrópoles brasileiras, comunidades populares explicitam a desigualdade social, como no Morumbi ou na Zona Sul carioca. Por isso Curitiba faz tanto sucesso entre os planejadores urbanos. Aqui, a separação atingiu seu grau mais acabado entre as grandes cidades brasileiras

A geografia excludente da República de Curitiba
A geografia excludente da República de Curitiba

Com a Lava Jato, disseminou-se pelo discurso político brasileiro a expressão “República de Curitiba”. Para a elite curitibana, é uma glória. Mas para nós, que militamos nos movimentos populares da cidade, nada poderia ser mais triste do que ver o nome de Curitiba tão intimamente associado àqueles que têm golpeado a democracia e criminalizado as lutas sociais.

Tudo começou com a divulgação, pelo juiz Sérgio Moro, em 16 de março de 2016, de conversas telefônicas em que o ex-presidente Lula se declarava “sinceramente assustado com a República de Curitiba”.

Leitor dos três volumes da biografia que o jornalista Lira Neto escreveu sobre Getúlio Vargas, Lula aludia à famosa “República do Galeão”, espécie de tribunal de exceção montado pelos inquisidores de Vargas após a morte do major-aviador Rubens Vaz no episódio da Rua Toneleros, em agosto de 1954. Uma referência negativa, portanto.

Boa parte do público, entretanto, parece não ter compreendido a sutileza histórica do presidente metalúrgico, e a expressão passou a designar a suposta integridade jurídico-policial da capital do Paraná. Em poucos dias, adesivos de carro exibiam imagens do juiz Sérgio Moro secundado pelos procuradores Deltan Dallagnol e Carlos Fernando dos Santos Lima, ao lado de uma sentença marcial: “República de Curitiba: aqui a lei se cumpre”.

A orgulhosa afirmação – diga-se de passagem – infelizmente não é exata, o que foi reconhecido pela própria Operação que a inspira. Em artigo para o jornal Gazeta do Povo de 8 de abril de 2017, o procurador da República e integrante da força-tarefa da Operação Lava Jato, Diogo Castor de Mattos, negou que Curitiba fosse “uma ilha de seriedade num país tomado pela impunidade” e constatou que “enquanto a Lava Jato curitibana promoveu uma faxina no país, a cidade continuou com seu quintal imundo, pois os casos de corrupção local sempre acabaram em pizza”.

A explicação para tanta ilusão, como diria o sociólogo Jessé Souza, não está no DNA ou na origem étnica dos curitibanos. Penso que, ao menos em parte, ela se encontra no urbanismo, mais precisamente, na exclusão socioespacial que caracteriza a capital do Paraná, bem como na intensa propaganda que a nega.

Geografia da exclusão

Até a década de 1970, Curitiba era uma capital de dimensões reduzidas, com pouco mais de 350 mil habitantes em 1960. Foi então que, sob os auspícios da nascente ditadura e por inspiração sobretudo do ex-prefeito, ex-governador e ex-ministro Ney Braga, Curitiba se industrializou, recebendo, por exemplo, unidades da Bosch, da New Holland, da Volvo.

Esses novos empreendimentos demandaram e, ao mesmo tempo, financiaram um plano-diretor, elaborado pela empresa paulistana Serete, vinculada ao escritório do urbanista Jorge Wilheim, e pelo recém-criado IPPUC (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba), presidido pelo engenheiro-arquiteto Jaime Lerner.

Aprovado em 1966, o novo plano-diretor, entre outros princípios, orientou a instalação dos chamados eixos estruturais de desenvolvimento, compostos, em sua face viária, por um sistema trinário, isto é, com três vias: duas vias “rápidas”, que ligam o centro aos bairros, e uma via central “lenta”, em que se estruturou o primeiro corredor de ônibus do Brasil (pomposamente denominados BRTs).

Note-se que não estamos de modo algum sugerindo que esse princípio esteja “errado”. Ao contrário, parece evidente que as soluções urbanísticas encontradas por Jorge Wilheim e Jaime Lerner compõem um conjunto coerente de políticas públicas. O ponto em questão é que esse planejamento não foi aplicado para todos, ou seja, foi seletivo e excludente.

Como analisou o professor Dennison de Oliveira, na obra Curitiba e o mito da cidade modelo (Curitiba: Ed. da UFPR, 2000), o princípio “oculto” do planejamento urbano foi o de “agregar valor ao já valorizado”. Assim, em volta dos eixos estruturais de desenvolvimento, surgiu o que viria a constituir a cidade-modelo de Curitiba. A periferia da cidade e os municípios da Região Metropolitana, entretanto, foram esquecidos, de modo que Curitiba também se constituiu em um modelo de exclusão socioespacial.

Em 2010, por exemplo, no 5º Fórum Urbano Mundial da ONU, Curitiba foi apontada como a 17ª cidade mais desigual do mundo, dado confirmado em 2012, quando o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat) classificou Curitiba como a sexta cidade mais desigual da América Latina.

A situação é mais dramáticos quando olhamos para a Região Metropolitana. De acordo com a edição 2015 (ano-base 2013) do Índice de Desenvolvimento Municipal da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), Curitiba apresenta o 45º melhor IDH do Brasil. Já Almirante Tamandaré, município conurbado ao norte de Curitiba, ocupa apenas na 2139ª colocação. Trinta quilômetros mais distante, o município de Itaperuçu já aparece na 3992ª posição. E no extremo norte da RMC, Doutor Ulysses apresenta o mais baixo Índice de Desenvolvimento do estado do Paraná e o 4599º do Brasil.

Em síntese: percorrendo apenas 96 km, de Curitiba a Doutor Ulysses, saímos do IFDM 45 para o IFDM 4599! Sem dúvida, um dos mais notáveis casos de concentração da riqueza de todo o mundo e um autêntico modelo de exclusão socioespacial.

Incêndio e Luciano Huck nas Ocupações

Dois episódios recentes deram rosto e imagens a esses números de desigualdade. O mais grave foi o triste e trágico incêndio de cerca de 200 moradias da Ocupação 29 de Março, por volta das 22h30 da sexta-feira, 7 de dezembro, no curso de uma operação policial motivada pela morte de um soldado PM e que durou quase 24 horas.

Localizado na Cidade Industrial de Curitiba (CIC), o terreno incendiado compõe uma área de quatro Ocupações – Nova Primavera, 29 de Março, Tiradentes e Dona Cida – onde com grande dificuldade e força de resistência vivem cerca de 1500 famílias.

Há cerca de dois meses, essa população se mobilizou, pacificamente, para protestar junto a prefeitura por seu direito a regularização e moradia digna. Mas não foi recebida pelo prefeito Rafael Greca (PMN), nem pelo prefeito ou pelo secretário de governo. Apenas algumas lideranças tiveram de deslocar-se até a sede da Cohab, onde seu presidente declarou, solenemente, que “não havia nada a fazer” em favor dessas comunidades.

Um segundo caso envolveu o apresentador da TV Globo, Luciano Huck. Em 17 de agosto, Huck esteve em Curitiba para gravar um episódio de Lar Doce Lar, quadro de seu Caldeirão, em que promove a reforma de imóveis de famílias trabalhadoras. Visitou a Ocupação 29 de Outubro, no bairro da Caximba, no extremo Sul de Curitiba. E ficou horrorizado, a ponto de escrever em seu Instagram:

“O lugar lembra o Haiti. Inaceitável no Brasil do sec XXI que as pessoas ainda vivam assim. O abismo social que nos assola está cada vez mais absurdo. A dignidade ali está nos moradores, comércio, voluntários e ongs locais. E só.”

O prefeito Greca, como era de se esperar, ficou igualmente indignado, embora não com a situação social de sua cidade, mas com a indesejada “revelação” de Huck de que Curitiba também tem áreas periféricas que lembram os países mais miseráveis do mundo. Reagiu, também pelo Instagram, garantindo que “esta ocupação irregular será desmantelada e requalificada em parque ambiental e Bairro Novo humanitário”. Mas, como essa medida talvez ainda demore, Greca simplesmente pediu a Huck “para não doar material para construção na área da invasão”!

Ideologia e alienação da cidade-modelo

Todas as cidades do capital procuram ser excludentes. A essência mesma do planejamento urbano burguês é projetar a estrutura de classes da formação social capitalista na própria geografia, delimitando o território do capital e o das classes trabalhadoras.

Ocorre, porém, que, seja pela resistência popular, seja pela própria desorganização das classes dominantes, a pretendida segregação socioespacial nem sempre se realiza tão perfeitamente. Em muitas metrópoles brasileiras, comunidades populares explicitam a desigualdade social, como, por exemplo, no Morumbi ou na Zona Sul carioca. Por isso Curitiba faz tanto sucesso entre os planejadores urbanos. Aqui, a separação atingiu seu grau mais acabado entre as grandes cidades brasileiras.

A consequência cultural e ideológica é que em nenhum outro lugar – a não ser talvez a Maringá de Sérgio Moro – a classe média apresenta um setor acentuadamente soberbo, orgulhoso, ingênua e cinicamente alienado. Daí a República de Curitiba: o território onde a segregação é lei e onde, portanto, a alienação se cumpre.

Ressalte-se, por fim, que este texto não foi escrito para “falar mal” de Curitiba. Pelo contrário, o que o motivou foi o grande amor pela cidade, por sua gente e pela luta social que a anima. Gente que não vive numa cidade-modelo, muito menos na falsa República que prendeu o presidente Lula, mas nos bairros pobres e nas ocupações onde Lula será sempre o principal representante do projeto brasileiro de emancipação nacional e popular.

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