A geopolítica da negação: Covid-19, a guerra das vacinas e a cooperação multidisciplinar no combate à desinformação



No dia 11 de agosto de 2020, cerca de sete meses depois da pandemia da Covid-19 atingir todos os continentes, o presidente russo Vladimir Putin anunciou em cadeia nacional o registro da primeira vacina contra a doença. Acontecia, Neste mesmo período, nos bastidores de grandes centros de pesquisas, uma guerra para definir qual nação conseguiria produzir a vacina em menor espaço de tempo. Milhões de pessoas já haviam sido contaminadas à essa altura, e outras milhares morreram em decorrência da pandemia.  Pela reação do mainstream editorial do ocidente, o anúncio que veio do Kremlin caiu como uma bomba nas pretensões dos EUA e da UE e suas grandes indústrias farmacêuticas em ganhar a corrida pela imunização. O que estava em jogo não era somente esforços globais para garantir que a pandemia teria um fim relativamente rápido, mas uma disputa geopolítica que consolidaria, ou reforçaria, o poderio econômico, tecnológico e político de determinados blocos econômicos. As reações, no ocidente, ao anúncio de Putin, partiram de setores liberais e conservadores que tiveram como primeira reação negar a capacidade russa de produzir uma vacina eficaz num espaço de tempo tão breve. Desenvolvida pelo Instituto Gamaleya, tradicional laboratório, que remonta dos tempos da URSS e que tem reconhecimento internacional pela capacidade tecnológica, a Sputnik V passou a ser alvo de persecução no ocidente, partindo de redes negacionistas conservadoras e grandes grupos de mídias liberais que reverberam toda sorte de desinformação sobre a vacina não como um problema de saúde pública e sim político. 

A questão da vacinação em meio a maior tragédia humanitária desde a Segunda Guerra Mundial, passou a ilustrar de forma muito evidente o efeito direto das teorias conspiratórias e do negacionismo científico, tanto na saúde pública, quanto na vida cotidiana das pessoas mundo afora. A desinformação, as notícias mentirosas e sua massificação passou a ter efeito direto nos mais diversos setores da economia, da política e da sociedade. Novos debates em torno do problema foram surgindo com o passar do tempo, questões outrora inimagináveis, como a eficácia, jamais antes questionada e não inteiramente compreendida pelo público leigo,tornaram se  debates corriqueiros dentro da academia. Biólogos fazendo lives e concedendo entrevistas para explicar que a vacina russa não torna o vacinado comunista ou que a vacina chinesa - outro Estado que antagoniza os interesses políticos e econômicos do  Ocidente -, não contém um chip que controla a vida das pessoas. Qual a urgência em se comunicar à população que a vacina da Astrazeneca, financiada pela Fundação Bill e Melinda Gates, desafetos da extrema direita, não transforma o sujeito em jacaré, contradizendo o próprio presidente da República Jair Bolsonaro? A vacina é somente um, dentre inúmeras amostras, de como a desinformação em relação à ciência aumenta o descrédito da mesma junto da sociedade. Outros patentes absurdos são a cloroquina, ivermectina, ozônio, e assim por diante.

Um exemplo notável dos dias de hoje são os debates jurídicos se é possível ou não que patrões punam funcionários que se neguem a tomar a vacina. Ou seja, a desinformação sobre a pandemia transcende a saúde pública passa a pautar outros setores com debates sobre seus efeitos colaterais com reflexos sociais e políticos dentro dos processos pandêmicos. Salientemos o fato de que a desinformação e a disseminação de fake news tem sido um problema em boa parte dos países ocidentais. Como nos EUA, México, Alemanha e Reino Unido, de onde tivemos notícias de grande adesão ao movimento antivacina por parte de suas sociedades. 

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Houve uma corrida por parte de cientistas e pesquisadores para oferecer respostas a estas questões dentro do âmbito social. A ciência foi colocada à prova pela disseminação de teorias conspiratórias e do negacionismo sistemático das vozes que ecoavam nos centros de pesquisas. Observamos um efeito dominó onde todos os campos epistêmicos, das ciências naturais até as humanidades foram sendo desqualificados e ganhando conotações cada vez mais negativas no que era propagado nas redes sociais, passando como elemento factual no seio das famílias e nas conversas entre amigos. A negação aos princípios racionais assumiu um papel político em meio à pandemia com reflexos imediatos na economia e, por conseguinte, na sociedade. Quando a desinformação e a negação da ciência são disseminadas por figuras públicas e pelo próprio governo, acende a luz de alerta de que precisamos lidar com um movimento de ruptura como poucas vezes visto nos últimos trezentos anos de iluminismo. Com efeito, o que se enxerga dentro deste processo é um arranjo entre os setores conservadores da sociedade e a ação política de composição a tais interesses comuns, como via de críticas e combate ao status quo alicerçado no pensamento liberal contemporâneo. O discurso de negação à ciência vem ganhando cada vez mais força nas redes sociais e consecutivamente na sociedade, sua adoção generalizada passou afetar de forma direta os próprios preceitos do ethos científico.

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O que se vê é uma disputa pelo poder em pautar os valores, identidade, comportamentos, métodos e o caráter da ciência, para junto a opinião pública, a fim de moldá-la segundo princípios e valores de campos antagônicos de interesses políticos e culturais, onde a academia, casa da ciência, perde cada vez mais espaço e força. Por essa perspectiva, na atual correlação de forças no Brasil, políticas e culturais, o ideário de uma ciência aberta ao alcance de todos fica cada vez mais distante. 

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O combate à desinformação e ao negacionismo científico deve ser um exercício multidisciplinar, uma cooperação onde todas as áreas do conhecimento pensem o objeto desinformação, com o propósito de tornar aos princípios científicos num contraponto ao relativismo leviano e perfunctório. A ciência, mais uma vez, é instrumento de uma disputa política que nega a essência de seus métodos em nome de uma conceituação obscurantista, profundamente ideologizada. Das ciências exatas e da terra, transpassando pela ciência da saúde e humanas, o objeto desinformação e a negação científica é um assunto que deve ser pensado de forma colaborativa. Cada área de conhecimento precisa lidar com a influência da desinformação em algum grau, a biologia precisa comunicar seus métodos à sociedade, a comunicação entender seus fluxos e redes e o direito pensar uma forma de se legislar sobre ela. Vem crescendo o número de pesquisadores que, desde seus campos de atuação, se debruçam sobre o tema e buscam respostas para enfrentar o desafio do negacionismo. A educação científica e sua multiplicidade de saberes devem pavimentar os caminhos no combate à desinformação, ao obscurantismo e a coisificação da ciência e do conhecimento gerado por ela.

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Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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