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José Luis Oreiro

Professor Associado do Departamento de Economia da Universidade de Brasília. Pesquisador Nível IB do CNPq, Membro Senior da Post Keynesian Economics Society e Líder do Grupo de Pesquisa Macroeconomia Estruturalista do Desenvolvimento

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A grande divergência e o pioneirismo inglês: uma análise multidimensional

Instituições, termodinâmica e mudança estrutural na Revolução Industrial

A grande divergência e o pioneirismo inglês: uma análise multidimensional (Foto: Reprodução)

Resumo Executivo

Este relatório técnico-científico investiga as causas fundamentais do pioneirismo britânico na Revolução Industrial e o fenômeno subsequente da “Grande Divergência”. A questão central é determinar se o avanço tecnológico isolado — especificamente o aumento da densidade de potência proporcionado pela máquina a vapor e a transição para uma base energética fóssil — teria sido suficiente para desencadear a transformação econômica mundial sem as profundas mudanças institucionais e estruturais da sociedade inglesa. Através de uma perspectiva que mimetiza a abordagem da Macroeconomia Desenvolvimentista e do Novo-Desenvolvimentismo, o texto analisa a Revolução Gloriosa, os cercamentos de terras, a acumulação primitiva de capital e o sistema fabril como pré-condições indispensáveis.

A análise integra as teorias de Nicholas Kaldor sobre a Revolução Agrícola, o debate marxista Dobb-Sweezy sobre a transição do feudalismo ao capitalismo, o institucionalismo de North e Acemoglu, a sociologia da religião de Max Weber e o estruturalismo de Celso Furtado. O relatório conclui que a tecnologia é um determinante “próximo”, enquanto as instituições e a mudança estrutural são determinantes “profundos”, conforme a classificação de Maddison (1988). Adicionalmente, avalia-se a cientificidade das hipóteses institucionalistas e weberianas sob o critério de falseabilidade de Karl Popper, demonstrando as limitações da ética protestante diante de casos de industrialização em regiões católicas e a natureza por vezes tautológica do institucionalismo contemporâneo.

Resumo

O presente artigo analisa as raízes da Revolução Industrial inglesa, questionando a suficiência da hipótese puramente tecnológica. Argumenta-se que o aumento da densidade de potência, embora necessário, foi um fenômeno endógeno resultante de uma configuração institucional e estrutural única. A Revolução Gloriosa (1688) garantiu direitos de propriedade, enquanto a Revolução Agrícola, conforme postulado por Nicholas Kaldor (1967, 1977, 1996), forneceu o excedente necessário para a urbanização. O debate Dobb-Sweezy ilumina as contradições de classe que permitiram a transição ao capitalismo. Avalia-se criticamente a tese de North-Acemoglu e a ética de Weber sob a ótica popperiana, confrontando-as com evidências de desenvolvimento em áreas católicas. Finalmente, o texto utiliza o esquema de Maddison para hierarquizar os determinantes do crescimento, reafirmando a importância da indústria como motor do desenvolvimento econômico sustentado.

Introdução

O fenômeno da “Grande Divergência”, termo consolidado pela historiografia econômica para descrever o fosso crescente de renda per capita entre o Ocidente e o resto do mundo a partir do século XIX, permanece como um dos temas mais instigantes da ciência econômica.3 Como bem aponta a literatura da Macroeconomia Desenvolvimentista, não é possível compreender as assimetrias contemporâneas do desenvolvimento sem mergulhar na gênese da Revolução Industrial inglesa.5 A Inglaterra do século XVIII não foi apenas o berço de inovações mecânicas; ela foi o laboratório de uma nova ordem institucional que permitiu a transformação de avanços técnicos em crescimento econômico auto-sustentado.

Muitas vezes, a narrativa tradicional enfatiza o papel da máquina a vapor de James Watt e a descoberta da energia térmica como o deus ex machina do progresso. No entanto, do ponto de vista da teoria do desenvolvimento, a tecnologia não surge em um vácuo social. A hipótese de que a Revolução Industrial teria ocorrido apenas pelo aumento da densidade de potência energético, sem as reformas políticas da Revolução Gloriosa, sem a expropriação violenta dos camponeses nos cercamentos e sem o domínio mercantil dos mares, carece de sustentação histórica e teórica.4 A tecnologia é, em larga medida, uma resposta a incentivos econômicos e gargalos estruturais.7

Este artigo propõe uma análise detalhada dessa interdependência. Utilizando o arcabouço teórico de Nicholas Kaldor, Maurice Dobb, Paul Sweezy, Douglass North, Daron Acemoglu, Max Weber e Celso Furtado, pretendemos demonstrar que a Revolução Industrial foi o resultado de uma sinergia entre o que Angus Maddison classificou como determinantes próximos (capital, trabalho, tecnologia) e determinantes profundos (instituições, história, política).4 O pioneirismo inglês é aqui visto como um processo multidimensional onde a mudança estrutural em direção à indústria — o setor de retornos crescentes por excelência — foi possibilitada por uma ruptura institucional prévia.8

Adicionalmente, este trabalho submeterá as teses institucionalistas e socioculturais ao rigor do critério de falseabilidade de Karl Popper. Questionaremos se a tese de North e Acemoglu pode ser considerada uma explicação científica ou se recai em circularidades explicativas.9 Igualmente, confrontaremos a famosa tese de Max Weber sobre a ética protestante com a robusta industrialização de regiões católicas na Bélgica, no sul da Alemanha, na Áustria e na Catalunha, buscando uma síntese que integre cultura e estrutura econômica.11

Referencial Teórico

Nicholas Kaldor e a Revolução Agrícola como Pré-condição

A contribuição de Nicholas Kaldor para a teoria do crescimento é fundamental para entender por que alguns países avançam enquanto outros estagnam.4 Em seus escritos de 1967 (Strategic Factors in Economic Development), 1977 (Capitalism and Industrial Development) e nas lições Mattioli publicadas postumamente em 1996, Kaldor defende que a industrialização não é um processo isolado, mas depende criticamente da relação intersetorial entre agricultura e indústria.14

Kaldor argumenta que a “revolução agrícola” do século XVIII foi uma pré-condição absoluta para a Revolução Industrial na Inglaterra.4 Esta revolução teve um caráter duplo: técnico e social. Do lado técnico, novas rotações de culturas, melhoria no manejo animal e ferramentas mais eficazes aumentaram a produtividade por hectare.4 Do lado social, os Atos de Cercamento (Enclosure Acts) promovidos pelo Parlamento inglês transformaram as terras comunais em propriedade privada em larga escala.4

Essa transformação gerou dois efeitos sistêmicos indispensáveis para o advento do capitalismo industrial:

  1. Criação de um Excedente Comercializável: O aumento da produtividade permitiu que uma parcela menor da população produzisse alimento suficiente para sustentar uma massa crescente de trabalhadores não-agrícolas. Sem esse excedente, a urbanização e o sistema fabril teriam sido sufocados pela falta de suprimentos básicos.8
  2. Liberação de Mão de Obra (Proletarização): A expropriação dos camponeses de seus meios tradicionais de subsistência criou um “exército industrial de reserva” que foi forçado a migrar para as cidades e vender sua força de trabalho nas fábricas nascentes por salários de subsistência.4

Dessa forma, na visão kaldoriana, a Revolução Industrial é indissociável da mudança institucional no campo que permitiu a transferência de recursos (trabalho e capital) para o setor manufatureiro, onde operam os retornos crescentes de escala e o aprendizado prático (learning by doing).4

O Debate Dobb-Sweezy: A Transição do Feudalismo ao Capitalismo

O debate marxista sobre a gênese do capitalismo, travado principalmente entre Maurice Dobb e Paul Sweezy na década de 1950, oferece uma perspectiva rica sobre as forças motrizes por trás da transformação inglesa.15 A questão de fundo era se o capitalismo surgiu devido a contradições internas do feudalismo ou devido à expansão do comércio de longa distância.17

Maurice Dobb enfatizava as causas internas: a superexploração do campesinato pelos senhores feudais teria levado ao colapso da produtividade servil e à fuga dos camponeses. Isso permitiu o surgimento de uma camada de produtores independentes (o “pequeno modo de produção”) que, ao se diferenciarem socialmente, deram origem à burguesia industrial.15 Para Dobb, a Revolução Industrial foi o desfecho de uma luta de classes interna que rompeu as amarras feudais à inovação técnica.

Paul Sweezy argumentava que o feudalismo era um sistema inerentemente estável e que a força motriz da sua dissolução foi externa: o ressurgimento do comércio marítimo e o surgimento das cidades comerciais.15 No caso inglês, o domínio britânico sobre os mares e a acumulação primitiva de capital decorrente do comércio colonial e do tráfico de escravos forneceram o capital necessário para os investimentos massivos em novas tecnologias.17

Nesta análise, a máquina a vapor não aparece como um milagre técnico, mas como uma ferramenta financiada pelo capital mercantil e operada por um proletariado criado pela dissolução das relações feudais. A síntese desse debate mostra que tanto o mercado (Sweezy) quanto as relações de produção (Dobb) foram necessários para o pioneirismo inglês.15

Institucionalismo: North, Acemoglu e a Revolução Gloriosa

A escola do Novo Institucionalismo, liderada por Douglass North e Daron Acemoglu, coloca as “regras do jogo” como o determinante fundamental do crescimento de longo prazo.19 O argumento central é que a tecnologia e o capital físico são apenas determinantes “próximos” — o crescimento real ocorre quando as instituições incentivam a inovação e o investimento.21

O ponto de inflexão para o pioneirismo inglês teria sido a Revolução Gloriosa de 1688.21 Ao limitar o poder arbitrário da monarquia e fortalecer o Parlamento, a Inglaterra estabeleceu:

  • Direitos de Propriedade Seguros: Investidores e inovadores tinham a garantia de que seus lucros não seriam confiscados pela coroa.19
  • Mercados de Capitais Eficientes: A criação do Banco da Inglaterra e a estabilização das finanças públicas permitiram a queda das taxas de juros, facilitando o financiamento da expansão industrial.4
  • Fim das Instituições Extrativistas: A transição para instituições “inclusivas” permitiu o florescimento da “destruição criativa” schumpeteriana, onde novas tecnologias podiam substituir velhos interesses monopolistas sem serem bloqueadas pelo Estado.19

Acemoglu argumenta que sem essa base institucional, o carvão e o vapor teriam permanecido curiosidades técnicas ou teriam sido utilizados de forma limitada.21

Weber e o Espírito do Capitalismo: Uma Perspectiva Sociocultural

A sociologia da religião de Max Weber, em sua obra clássica A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, propõe que uma mudança na mentalidade religiosa foi o catalisador para o desenvolvimento econômico moderno.24 Weber observou uma correlação estatística na Alemanha entre o sucesso nos negócios e a origem protestante.27

O cerne da tese weberiana reside na doutrina da predestinação de Calvino.27 A angústia existencial do crente sobre sua salvação o levava a buscar sinais de eleição divina na prosperidade mundana. Isso gerou:

  • Ascetismo Intramundano: Uma ética que valorizava o trabalho árduo e a parcimônia, condenando o consumo de luxo.25
  • Racionalização da Vida: O tempo e o trabalho tornaram-se objetos de cálculo racional e disciplina metódica.24
  • Acumulação de Capital: Como o lucro não era gasto em prazeres, ele era sistematicamente reinvestido na produção, criando a dinâmica de acumulação infinita típica do capitalismo.28

Para Weber, a Inglaterra, imbuída desse espírito puritano, encontrou na tecnologia industrial a ferramenta perfeita para a realização dessa vocação religiosa para o trabalho e o lucro.25

Estruturalismo de Celso Furtado: Subdesenvolvimento e Dependência

Celso Furtado oferece uma visão crítica sobre como a Revolução Industrial configurou o sistema econômico global.31 Para Furtado, o pioneirismo inglês não foi apenas um avanço cronológico, mas a criação de um “centro dinâmico” que moldou a “periferia” para atender às suas necessidades de matérias-primas e mercados consumidores.33

Furtado destaca que o desenvolvimento industrial exige uma transformação profunda na estrutura de produção.36 No centro (Inglaterra), o progresso técnico foi endógeno, nascendo de dentro do sistema produtivo.33 Na periferia, a industrialização tendeu a ser um processo de dependência, muitas vezes resultando em estruturas heterogêneas.34

A lição estruturalista para o pioneirismo inglês é que ele foi possível porque a Inglaterra conseguiu integrar tecnologia e mudança social de forma autônoma, utilizando seu poderio marítimo para capturar o excedente global e aplicá-lo em sua própria estrutura produtiva.33

Análise Detalhada: Tecnologia vs. Mudanças Estruturais

A Hipótese Tecnológica: Termodinâmica e Densidade de Potência

A hipótese de que a Revolução Industrial foi movida principalmente pela termodinâmica sustenta que o salto evolutivo da humanidade se deu pela capacidade de converter calor em trabalho mecânico através da queima de carvão.39 Antes disso, a humanidade dependia de fluxos energéticos dispersos (vento, força animal e humana), que possuíam baixa “densidade de potência”.40

A máquina a vapor de Newcomen e, posteriormente, a de Watt, permitiram concentrar energia em locais fixos (fábricas), rompendo as restrições geográficas dos moinhos de água e as restrições biológicas do trabalho manual.39 Esse aumento na densidade de potência é o que possibilitou o sistema fabril de grande escala e a mecanização têxtil.39

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Contudo, a evidência histórica sugere que a tecnologia térmica foi uma resposta ao problema institucional e ecológico da escassez de madeira na Inglaterra.40 O desmatamento acelerado no século XVII, impulsionado pela construção naval, forçou a Inglaterra a buscar combustíveis alternativos.40 Assim, a necessidade técnica foi induzida por uma crise estrutural de recursos e pelo sucesso comercial inglês.40

A Insuficiência da Tecnologia Isolada

Teria sido a Revolução Industrial possível sem as mudanças institucionais? A resposta é negativa. O exemplo da China mostra que avanços tecnológicos significativos não levaram a uma revolução industrial na ausência de instituições que garantissem a acumulação privada.21

Na Inglaterra, sem a Revolução Gloriosa, o risco de expropriação estatal teria desencorajado os investimentos de longo prazo em infraestrutura.19 Sem os cercamentos, não haveria uma massa de trabalhadores urbanos disponíveis para operar as máquinas a vapor sob a disciplina do sistema fabril.4 A tecnologia foi a ferramenta, mas as instituições foram o motor.

Como demonstra a classificação de Maddison (1988), a máquina a vapor e o capital físico são determinantes “próximos”.4 Eles explicam “como” a produção cresceu, mas não explicam “por que” ela cresceu naquela magnitude. As causas últimas ou profundas são as instituições, a ordem social, as políticas governamentais e a distância da fronteira tecnológica.41

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Crítica Epistemológica: O Critério de Popper

A Falseabilidade de North e Acemoglu

A hipótese de North e Acemoglu, embora dominante, enfrenta desafios epistemológicos quando submetida ao critério de falseabilidade de Karl Popper.10 Para Popper, uma teoria científica deve ser capaz de fazer previsões que possam ser contraditadas por observações empíricas.42

Muitos críticos apontam que a definição de “instituições inclusivas” vs. “instituições extrativistas” sofre de circularidade.10 Se um país cresce, conclui-se ex-post que suas instituições são inclusivas; se um país com instituições aparentemente sólidas entra em declínio, argumenta-se que suas instituições eram “secretamente” extrativistas.4

Para ser científica no sentido popperiano, a teoria deveria definir critérios institucionais objetivos antes da observação do crescimento.42 Além disso, casos como o sucesso econômico da China contemporânea sob um regime não-liberal desafiam o axioma de que apenas democracias liberais podem se industrializar.45 Os defensores da tese frequentemente utilizam hipóteses ad hoc para explicar esses casos, o que, segundo Popper, retira o caráter científico da teoria.43

A Tese de Weber e os Contra-exemplos Católicos

A tese de Max Weber sobre a ética protestante também enfrenta sérios desafios empíricos que atuam como falsificadores potenciais.11 Embora Weber tenha identificado um “tipo ideal” de comportamento capitalista no calvinismo, a história da industrialização europeia mostra que o catolicismo não foi um impedimento.11

  1. Bélgica: Foi o segundo país europeu a se industrializar, seguindo de perto a Inglaterra. Possuía uma tradição católica fervorosa, mas também abundância de carvão e uma burguesia mercantil ativa.11
  2. Sul da Alemanha (Baviera): Tornou-se um dos centros industriais mais avançados da Alemanha, superando áreas protestantes em tecnologias de ponta como a química e a mecânica.12
  3. Catalunha e País Basco: Na Espanha, estas regiões católicas desenvolveram indústrias têxteis e siderúrgicas vibrantes enquanto o resto do país permanecia agrário.18 O diferencial não foi a religião, mas a estrutura comercial e a proximidade com o mar.
  4. Áustria: Áreas católicas alcançaram níveis de industrialização comparáveis ao Ocidente.11

Esses casos demonstram que variáveis econômicas e geográficas muitas vezes sobrepujam os determinantes culturais.11 Do ponto de vista popperiano, a tese de Weber, em sua forma forte de exclusividade protestante para o capitalismo industrial, foi falseada pela história.12

Evidências Empíricas e o Debate Contemporâneo

A Mudança Estrutural como Motor do Crescimento

As evidências empíricas coletadas por autores contemporâneos confirmam que o processo bem-sucedido de catch-up econômico no período 1970-2019 foi caracterizado pelo aumento sistemático da produtividade do trabalho através da mecanização.4 Os países que mimetizaram o sucesso inglês foram aqueles que promoveram uma mudança estrutural deliberada em direção à manufatura.4

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No caso inglês, a mudança estrutural foi profunda. A evidência empírica sugere que a correlação de Kaldor — a taxa de crescimento do PIB é positivamente relacionada à taxa de crescimento do setor manufatureiro — continua válida para explicar as diferenças contemporâneas de renda.48

Lições do Pioneirismo Inglês para o Brasil

O Brasil vive hoje o processo inverso ao da Revolução Industrial inglesa: a desindustrialização precoce.47 Enquanto a Inglaterra construiu seu poderio através de uma política industrial agressiva e proteção de mercados nascentes, o Brasil tem se tornado cada vez mais dependente da exportação de commodities.2

A lição de Nicholas Kaldor e Celso Furtado é que o subdesenvolvimento é uma estrutura que se perpetua se não houver uma ação deliberada do Estado para transformar o perfil produtivo.8 O pioneirismo inglês ensina que a tecnologia (determinante próximo) só se torna produtiva quando inserida em um projeto nacional de desenvolvimento (determinante profundo).4

Conclusão

A Revolução Industrial na Inglaterra não foi um milagre tecnológico isolado. Ela foi o desfecho de um processo histórico multidimensional onde mudanças institucionais radicais criaram o ambiente necessário para o florescimento da técnica. A máquina a vapor e o aumento da densidade de potência foram ferramentas essenciais, mas sua utilidade econômica foi forjada pela Revolução Gloriosa, pela expropriação agrária descrita por Kaldor e pela acumulação de capital discutida no debate marxista.

A análise epistemológica baseada em Popper revelou que nem o institucionalismo puro nem a sociologia weberiana fornecem explicações universais ex-ante. O desenvolvimento robusto de regiões católicas prova que as condições materiais e institucionais são mais determinantes do que a fé religiosa. Da mesma forma, as instituições inclusivas não são apenas “boas leis”, mas reflexos de equilíbrios de poder social que permitem a industrialização.

Em suma, seguindo a classificação de Maddison, o pioneirismo inglês resultou da combinação bem-sucedida entre o “como” crescer (tecnologia térmica e mecanização) e o “porquê” crescer (instituições seguras, excedente agrícola comercial e soberania mercantil). Para as nações que hoje buscam superar o subdesenvolvimento, o exemplo britânico reafirma que a indústria continua sendo o motor do progresso, e a mudança estrutural, o caminho para a verdadeira soberania econômica.

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  51. Strategic Factors In Economic Development Revisited – tapia, acessado em março 29, 2026, https://blog.tapiahouse.org/Strategic%20Factors%20in%20Economic%20Development%20Revisited%2005082022[6787].pdf
  52. Falsifiability – Wikipedia, acessado em março 29, 2026, https://en.wikipedia.org/wiki/Falsifiability
  53. (PDF) An Analysis of the Falsification Criterion of Karl Popper: A Critical Review, acessado em março 29, 2026, https://www.researchgate.net/publication/339791892_An_Analysis_of_the_Falsification_Criterion_of_Karl_Popper_A_Critical_Review

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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