A guerra contra a realidade já não tem fronteiras
A indústria da desinformação avança com os algoritmos, enquanto reconstruir o valor da verdade exige coragem, investimento e responsabilidade coletiva
Há momentos em que a história muda de tom sem avisar. O que presenciamos não é apenas mais uma crise política localizada, nem um surto passageiro de desinformação digital.
Trata-se de uma mutação estrutural no modo como sociedades percebem, disputam e validam os fatos. Minneapolis tornou-se símbolo recente desse abalo, mas o fenômeno é transnacional e atravessa democracias, regimes híbridos e governos autoritários com a mesma intensidade.
As mortes de manifestantes na cidade americana reacenderam lembranças do assassinato de George Floyd em 2020. Contudo, o ambiente informacional de 2026 é radicalmente distinto. Após os disparos envolvendo agentes federais e as vítimas Renee Good e Alex Pretti, imagens manipuladas por inteligência artificial circularam em larga escala. Fotografias falsas mostravam Pretti em situações inexistentes; montagens atribuíram intenções violentas às vítimas; vídeos autênticos passaram a ser classificados como “prováveis deepfakes”. A dúvida já não recai apenas sobre versões divergentes dos fatos, mas sobre a própria materialidade do acontecimento.
Essa inversão é decisiva.
Em 2020, teorias conspiratórias sobre a pandemia de Covid-19 e alegações infundadas de fraude eleitoral já testavam os limites da credulidade pública. Ainda assim, ferramentas de geração automática de imagens e vídeos eram restritas.
Hoje, plataformas abertas permitem que qualquer usuário produza retratos hiper-realistas de eventos que jamais ocorreram. A sofisticação técnica alcançou um ponto em que a falsificação não precisa ser perfeita; basta ser suficientemente plausível para circular antes da verificação.
O caso recente de imagens falsas retratando Nicolás Maduro sendo detido por forças americanas ilustra esse mecanismo. Para muitos usuários, aquelas montagens foram o primeiro “registro visual” do suposto evento. Quando uma fotografia autêntica surgiu dias depois, parte do público questionou sua legitimidade.
A sequência revela uma inversão inquietante: a falsificação inaugura a narrativa; a imagem real precisa defender-se.
Outro exemplo emblemático envolveu a deputada Ilhan Omar. Após um ataque durante discurso público, imagens geradas por IA mostraram-na sorrindo ao lado do agressor, alimentando a narrativa de que o atentado teria sido encenado. A montagem circulou com velocidade muito superior à da checagem que a desmentia. Dias depois, a suspeita infundada já estava incorporada ao debate político.
A dinâmica não é exclusiva dos Estados Unidos.
Na América Latina, vídeos manipulados atribuíram declarações inexistentes a candidatos presidenciais; na Europa, áudios sintéticos imitaram vozes de autoridades para anunciar medidas jamais aprovadas; na Ásia, fotografias adulteradas foram utilizadas para incitar tensões diplomáticas.
Em todos os casos, o impacto não decorre apenas da mentira, mas da incerteza que ela instala. E é sobre isso que nós, estudiosos dos impactos da inteligência artificial e do poder crescente das redes sociais sobre a realidade tal como ela é, nos debruçamos.
Especialistas denominam esse fenômeno de “colapso da autenticidade”.
Não se trata apenas de conviver com informações falsas. É algo ainda mais profundo, que arranha as bordas da reflexão séria. Faltam estudos acadêmicos consistentes para identificar as causas e também os sintomas previsíveis capazes de dar conta do mal-estar que se instalou de vez na pós-modernidade.
Trata-se de um ambiente no qual a veracidade deixa de ser pressuposto e passa a ser hipótese.
Ainda assim, pesquisas recentes mostram que conteúdos enganosos frequentemente superam, em alcance e engajamento, as análises de verificação.
Paralelamente, grandes plataformas reduziram equipes dedicadas à moderação, enquanto organizações independentes enfrentam restrições orçamentárias e pressões políticas. Isso é fato.
Os magnatas da Big Tech avançam sempre alguns quilômetros à frente das regulações necessárias que governos pretendem aprovar para proteger a sociedade como um todo. Isso me faz lembrar da árdua tarefa que recai sobre os ombros dos que tratam da tecnologia bancária: quanto mais simples e intuitivas são as plataformas tecnológicas financeiras, mais robustas são as medidas, em direção oposta, geradas pela criminalidade igualmente tecnológica, na qual hackers deixam de ser figuras caricatas de adolescentes entediados para se tornar feudos do crime organizado.
Há ainda um fator adicional: a legitimação institucional da distorção.
Quando autoridades compartilham imagens alteradas ou ecoam alegações não comprovadas, a fronteira entre opinião e evidência torna-se difusa.
Em Minnesota, integrantes do governo reagiram às mortes rotulando uma das vítimas como “terrorista”, sem provas apresentadas. A acusação espalhou-se rapidamente nas redes, moldando percepções antes que investigações formais fossem concluídas.
O mais perturbador é que conteúdos autênticos também passaram a ser descartados sob a alegação de manipulação digital.
Vídeos que mostravam um celular nas mãos de uma vítima foram reinterpretados, após “melhorias” com ferramentas de IA, como se exibissem uma arma. A própria tentativa de aumentar a nitidez introduziu alterações que alimentaram versões equivocadas. A tecnologia, nesse caso, não criou a mentira deliberada, mas abriu espaço para interpretações enviesadas.
A consequência política é profunda. Democracias dependem de consensos mínimos sobre fatos verificáveis. Quando esses consensos se fragmentam, o debate público transforma-se em disputa permanente de percepções inconciliáveis.
O risco não é apenas a circulação de boatos, mas a formação de sociedades incapazes de compartilhar referências comuns.
A questão central transcende a inovação tecnológica. A inteligência artificial ampliou a escala e reduziu o custo da manipulação, mas a vulnerabilidade reside na disposição coletiva de aceitar versões convenientes. A resposta não será apenas técnica, com softwares de detecção mais avançados. Exigirá compromisso institucional com transparência, investimento em educação midiática e responsabilidade pública na comunicação oficial.
A guerra contra a realidade já não tem fronteiras geográficas.
Isso porque ela se manifesta em crises locais, repercute globalmente e redefine a relação entre imagem, prova e confiança. Se não houver reação coordenada, o que hoje parece distorção episódica poderá consolidar-se como padrão permanente.
E, quando a própria noção de fato se torna objeto de disputa contínua, o que está em jogo não é apenas a narrativa do presente, mas a possibilidade de construir qualquer futuro comum — e não aquele futuro sempre sonhado pela espécie humana. Precisamos debater mais isso, antes que seja tarde demais para reverter esse caminho acelerado rumo ao caos global.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
