A guerra contra os professores voltou
A figura do “professor doutrinador”, difundida há anos por setores conservadores, voltou a ganhar força nas redes sociais
Escolas e universidades brasileiras voltaram a ocupar o centro das guerras culturais impulsionadas pela extrema direita. Em ano eleitoral, cresce o número de episódios de perseguição, exposição pública e vigilância contra professores, especialmente nas áreas de Humanidades.
Em março de 2026, um vereador paulistano de extrema direita montou uma tenda na Universidade de São Paulo (USP) com uma placa dizendo “aborto é assassinato”. Alegava estar ali para “debater ideias”. Pouco depois, vídeos de confronto, empurrões e spray de pimenta passaram a circular nas redes como prova da suposta “intolerância” das universidades públicas.
No mês seguinte, em Hortolândia (SP), famílias esconderam gravadores dentro das mochilas de crianças para registrar aulas sem o conhecimento do professor. O episódio não foi isolado. Casos semelhantes têm se multiplicado pelo país, alimentados por discursos que apresentam docentes como ameaças ideológicas a serem monitoradas.
A figura do “professor doutrinador”, difundida há anos por setores conservadores, voltou a ganhar força nas redes sociais e no debate político. Parlamentares, influenciadores e candidatos transformam episódios descontextualizados em combustível para campanhas digitais, frequentemente acompanhadas de ataques às universidades públicas e às Ciências Humanas.
Os principais alvos não são difíceis de identificar: professores de Sociologia, História, Filosofia, Pedagogia e outras áreas voltadas à reflexão crítica sobre desigualdade social, democracia, racismo, direitos humanos e gênero.
Ao mesmo tempo, quase nunca vemos o mesmo tipo de indignação dirigido a escolas militares, escolas cívico-militares ou instituições privadas que difundem valores conservadores, nacionalistas ou religiosos. Tampouco há grande mobilização quando materiais didáticos apresentam erros históricos graves ou quando empresas privadas produzem conteúdos educacionais marcados por revisionismo ideológico. A seletividade é evidente.
Enquanto professores são acusados de “doutrinação” por discutir desigualdade social ou direitos humanos, conteúdos alinhados ao empreendedorismo individual, à militarização da vida escolar e ao conservadorismo moral são frequentemente tratados como neutros.
Isso aparece, por exemplo, na expansão de componentes curriculares como “Projeto de Vida”, impulsionados pela reforma do ensino médio. Sob o discurso da autonomia e da inovação, muitos desses conteúdos reforçam a ideia de que o sucesso depende exclusivamente do esforço individual, mesmo em um cenário marcado pela precarização do trabalho e pelo avanço da desigualdade.
O mesmo vale para grupos privados que vêm ampliando sua influência sobre a educação brasileira. A produtora Brasil Paralelo, por exemplo, investe cada vez mais na produção de conteúdos escolares e na formação docente a partir de interpretações conservadoras sobre história, política e sociedade. Ainda assim, raramente essas iniciativas são classificadas como “doutrinação”.
No fundo, o debate nunca foi sobre a existência de ideologias na educação. Toda educação envolve escolhas, valores e visões de mundo. A verdadeira disputa é outra: quais ideias terão o direito de parecer naturais, neutras e legítimas dentro da escola.
Porque, no Brasil contemporâneo, determinadas perspectivas são imediatamente tratadas como ameaça, enquanto outras seguem protegidas pelo confortável disfarce da neutralidade.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

