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Claudio Katz

Professor de economia na Universidad Buenos Aires. Autor, entre outros livros, de Neoliberalismo, neodesenvolvimentismo, socialismo (Expressão Poplar)

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A guerra no Irã desorganiza o Oriente Médio

Fracasso da ofensiva contra Teerã expõe o declínio da hegemonia de Washington e impõe um freio histórico aos projetos de expansão colonial do sionismo

Teerã (Foto: Reuters)
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A guerra no Irã remodelou o cenário geopolítico do Oriente Médio e a derrota impactante sofrida pelos Estados Unidos suscita sérias reflexões na elite imperial. Alguns membros desse círculo aceitam o fracasso e propõem gerir a situação, outros exigem intensificar a aposta bélica e a maioria hesita sem definir o rumo a seguir. Todos pressentem a proximidade de um ponto de inflexão no domínio regional da potência maior, mas essa mudança ainda depende do resultado do armistício em curso.

Ninguém sabe que duração e consistência terá o acordo de cessar-fogo que os Estados Unidos e o Irã se preparam para assinar. São incontáveis os antecedentes de compromissos que os governos norte-americanos violaram. Os termos conhecidos do acordo indicam uma vitória categórica do Irã. Todos os analistas da imprensa internacional coincidem em destacar que as condições exigidas por Teerã prevaleceram.

Donald Trump não conseguiu atingir qualquer objetivo de sua incursão bélica. Não houve mudança de regime, nem desarmamento, nem limitação ao uso de mísseis. O magnata apresenta como uma grande vitória que o Irã “nunca possuirá uma arma nuclear”, mas isso é uma fanfarrice ridícula, pois o governo dos aiatolás sempre rejeitou a fabricação dessa bomba. Atribuiu a essa restrição uma dimensão religiosa (fatwa) e considerou que esse instrumento não era útil para a defesa do país.

O compromisso a ser assinado contempla as mesmas limitações ao enriquecimento de urânio que Teerã aceita há décadas. No meio de sua guerra fracassada, o Pentágono tentou assaltar e roubar os depósitos de urânio, na operação mais fracassada de todo o conflito.

O acordo permitiria, de imediato, normalizar a navegação no Golfo e dissipar a ameaça de uma crise econômica devido ao aumento do preço do petróleo, que tanto preocupa Donald Trump. Mas, em troca desse gesto, o magnata teve que começar a levantar as sanções comerciais e financeiras. Reconhece também, de fato, o controle reforçado que o Irã instaurou no Estreito de Ormuz. No cenário pré-guerra, não exercia um controle tão significativo. Nos últimos meses, começou a cobrar pedágios importantes e está em discussão a forma que tal cobrança assumirá no futuro.

O ponto crítico é Israel, porque Benjamin Netanyahu está empenhado em destruir o acordo com bombardeios ao Líbano, o que aniquila todos os compromissos. O Irã já vetou a tentativa estadunidense de dissociar a trégua no Golfo da guerra que Israel trava em suas fronteiras. Devido a essa exigência de Teerã, a situação do Líbano foi explicitamente incorporada no acordo de cessar-fogo. Mas, para além das inúmeras vicissitudes que afetarão essa negociação, a guerra criou um novo cenário em toda a região.

Múltiplos reveses

Donald Trump lançou o ataque à espera de uma vitória rápida e agora enfrenta uma derrota esmagadora. Este resultado deixou-o atordoado, desesperado e com medo de uma humilhação gigantesca. Sua anunciada viagem de fim de semana transformou-se num conflito prolongado que o magnata não soube conduzir. Formulou propostas impraticáveis, contradisse-se todos os dias e não encontrou um modo de disfarçar seu revés com proclamações de vitória.

Chegou a proferir ameaças apocalípticas de destruição da civilização iraniana, para negociar imediatamente com a agenda de seu inimigo. Nunca conseguiu assimilar a adversidade fulminante que suas tropas enfrentaram diante de Teerã.

A primeira surpresa foi a onda de mísseis iranianos que destruiu os radares estadunidenses no Golfo. O segundo choque resultou da magnitude do arsenal persa e da eficácia de seus disparos. Mobilizaram uma grande reserva de drones baratos, que anularam os interceptadores extremamente caros e ineficazes das baterias ianques.

A Rússia e a China forneceram aos iranianos as informações de satélite necessárias para atingir com precisão os alvos de cada saraivada. Teerã utilizou, além disso, novas táticas navais, sistemas eficientes de defesa costeira, veículos não tripulados e lanchas de ataque rápido, que neutralizaram a presença monumental (e barroca) dos navios estadunidenses.

Após vários meses de confrontos, inúmeras premissas do predomínio imperial na região foram invalidados. A primazia do Pentágono, a invencibilidade do militarismo israelense e a imunidade das ditaduras do Golfo perderam credibilidade.

O Irã venceu a guerra com uma estratégia de desgaste mais eficaz do que a política de simples destruição tentada pelos Estados Unidos. Donald Trump apostou num bloqueio naval para estrangular a economia iraniana, na esperança de forçar a capitulação de seus governantes. Mas essa liderança não se rendeu e enfrentou com sucesso a aventura de seu inimigo, recorrendo a uma paciência estratégica que subjugou o agressor. Teerã assimilou de Moscou e Pequim a atitude necessária para confrontar a torpeza e a improvisação que caracterizam o ocupante da Casa Branca.

A cegueira política do magnata levou-o a imaginar um colapso vertiginoso do regime iraniano, após o assassinato do presidente do país. Com a mesma miopia, apostou numa revolução colorida, o que resultou num processo oposto de consolidação da resistência à agressão imperial.

Com essas respostas, Teerã chegou às negociações numa posição de força e com o controle da escalada. Continua enfrentando o risco de ataques aéreos sangrentos, mas já anunciou que responderia aniquilando toda a infraestrutura dos Estados do Golfo.

Essa destruição provocaria, por sua vez, uma crise mundial extrema no abastecimento de gás liquefeito, fertilizantes e combustíveis. A capacidade de exportação do Catar encontra-se gravemente afetada, os Emirados perderam fortunas, o Kuwait renunciou a vendas volumosas e a Arábia Saudita não cumpriu contratos.

O Irã demonstrou ao mundo sua capacidade de bloquear o estreito de Ormuz, com dispositivos capazes de destruir refinarias, campos petrolíferos e estações de dessalinização da água em toda a Península Arábica. Age com proporcionalidade e com respostas equivalentes aos golpes recebidos.

Com sua gestão do estreito, ilustrou o alcance dessa reação no plano econômico. O Irã definiu quais são os navios que atravessam Ormuz e arrecadou somas significativas de dinheiro com o pedágio imposto por essa administração.

Os efeitos de uma derrota

Donald Trump é um criminoso que ameaçou perpetrar no Irã o mesmo genocídio que seu parceiro Benjamin Netanyahu consumou em Gaza. Esse tipo de massacre destruiu, em tempo recorde, a autoridade, o prestígio e o poder simbólico internacional dos Estados Unidos.

O magnata agiu com a exasperação típica dos imperadores decadentes. Por isso, adotou o método israelense de assassinar os líderes do campo adversário, sem perceber as consequências adversas de uma prática terrorista que obstrui qualquer negociação ou estratégia a médio prazo.

Em seu desespero, Donald Trump sugeriu que poderia provocar uma catástrofe no Irã, semelhante à perpetrada por seu antecessor Bush no Iraque. Mas evitou esse rumo devastador e optou por negociar uma retirada que já tem efeitos geopolíticos de enorme importância. O magnata tentará lidar com essa adversidade com mais bravatas e despautérios. Em vez de assumir uma derrota maior do que a sofrida por Joe Biden no Afeganistão, disfarçará o revés com alguma de suas conhecidas incoerências. Mas nenhuma farsa anulará os efeitos da vitória iraniana.

Esse sucesso terá impacto, acima de tudo, nas dinastias do Golfo, que já não dirigem simples empresas petrolíferas. Têm uma grande participação no refinamento ou na produção de produtos petroquímicos e plásticos e são proprietárias de empresas marítimas, oleodutos e postos de abastecimento. Todas mantêm uma relação estreita e privilegiada com os Estados Unidos, mas consolidaram seu intercâmbio comercial com a China. Além disso, sua influência política é maior do que no passado, tanto no Oriente Médio como na África, e rivalizam entre si em múltiplos negócios.

Essas monarquias perceberam, pela primeira vez, a impotência de seu protetor norte-americano e sentiram na própria pele sua indefesa diante dos mísseis do Irã. Se negociarem com esse adversário – assumindo atitudes de maior autonomia em relação ao tutor ianque –, poderão alterar seriamente a dinâmica do sistema financeiro internacional.

A continuidade ou o ressurgimento do conflito ameaça desestabilizar novamente o preço do petróleo. É nessa cotação que estão concentrados os desequilíbrios que tanto desesperam Donald Trump. Inicialmente, não conseguiu conter o aumento do preço do combustível com a libertação das reservas de petróleo bruto, nem com o abrandamento das sanções contra a Rússia. A trégua que conseguiu impor com cada suspensão das hostilidades foi abruptamente rompida com o reinício dos disparos.

Donald Trump navega por um desfiladeiro, sabendo que, se for ultrapassado um determinado limite do preço do petróleo, sobrevirá uma recessão com grande impacto no circuito da economia digital. A grande bolha financeira que se forma nesse âmbito sentiria imediatamente esse efeito.

O Irã tornou-se, portanto, o epicentro das batalhas geopolíticas atuais. Define quem terá supremacia nos corredores da globalização, que atravessam seu país para reduzir os custos de transporte. As rotas que ligam a Rússia à Índia e a China à Turquia já estão muito avançadas, mas como os Estados Unidos e seu parceiro israelense chegaram tarde, propiciaram a guerra para impor outra variante da conexão entre a Europa, a Índia e a Ásia. O resultado adverso dessa incursão potencia agora a perda de influência dessa rede relegada que o Ocidente patrocina.

Donald Trump precisa consolidar o acordo provisório que está tentando alcançar com o Irã, mas depara-se com a ala belicista de seu próprio governo e com a elite militar que domina a política externa de seu país. As provocações que Benjamin Netanyahu perpetra cotidianamente – por delegação de seus padrinhos estadunidenses – expressam esse militarismo descarado.

Se, finalmente, se impuser algum tipo de armistício duradouro – que reflita o que aconteceu no campo de batalha –, o Irã ampliará sua influência na região, afetando ou neutralizando a presença militar estadunidense no Golfo.

Esse retrocesso marcaria um salto qualitativo no declínio imperial dos Estados Unidos. As derrotas acumuladas que o Pentágono enfrenta ao longo de várias décadas começam a amadurecer, mas esse desfecho depende também do resultado da guerra que Israel está travando em várias frentes.

A desorientação do sionismo

Donald Trump e Benjamin Netanyahu lançaram conjuntamente a guerra contra o Irã, mas se distanciaram diante do resultado dessa operação. Enquanto o magnata procura sair do atoleiro, seu colega israelense – apoiado pelos belicistas dos Estados Unidos – exige que a agressão seja intensificada.

O líder sionista faz valer essa exigência através de uma sucessão interminável de matanças. Recebe repreensões diárias de Washington, mas multiplica igualmente os bombardeios no Líbano, para sabotar as negociações com Teerã. Enquanto Donald Trump tenta chegar a algum acordo que lhe permita evitar a derrota eleitoral em novembro (e a consequente perspectiva de sua destituição), Netanyahu procura prolongar as guerras, para contornar o julgamento por corrupção que o levaria à prisão.

Essa sobrevivência político-pessoal converge com o projeto expansionista do Grande Israel, que a direita sionista apoia com total descaramento. De imediato, tentam repetir no Líbano os crimes de Gaza. Fomentam massacres nas fronteiras para despovoar seu vizinho e abrir caminho para a ocupação do sul desse país.

Encorajados pelos crimes que cometem nas fronteiras norte e leste, os sionistas lançaram-se também numa grande ofensiva militar para anexar definitivamente a Cisjordânia, através da expansão dos assentamentos e da expulsão dos palestinos que sobrevivem no local. O governo aprovou uma nova lei de registro de terras para legitimar essa espoliação, forçando a transferência para o Estado israelense dos terrenos, que este imediatamente transfere aos colonos. Concretiza esse confisco à força, ao mesmo tempo que agrava o sofrimento dos 9.000 presos políticos palestinos que maltrata em suas prisões de terror.

A deriva fascista de Benjamin Netanyahu é tão explícita quanto os disparos de seus gendarmes contra crianças, os assassinatos de jornalistas, as agressões a cristãos e os maus-tratos a muçulmanos. Israel inaugurou um novo modelo de guerra, que elimina a distinção entre civis e militares e legitima os massacres, anulando qualquer vestígio de proteção humanitária às vítimas de um conflito armado.

Começou também a estender essa criminalidade à jurisdição marítima internacional, através do assalto às flotilhas que transportam ajuda à população sitiada de Gaza. Recorre à pirataria e normaliza o sequestro de ativistas fora de suas fronteiras, aproveitando-se da cumplicidade de todos os governos do Mediterrâneo. Seus porta-vozes divulgam vídeos que exibem os maus-tratos infligidos a esses ativistas, para testar o terreno para ações mais violentas contra quem denuncia o apartheid israelense.

Como já aconteceu com a África do Sul no passado, o status internacional de Israel está deteriorando-se num ritmo vertiginoso, com artistas, desportistas e intelectuais que repudiam sua conduta criminosa. Em todo o mundo, os filhos de Gaza estão ganhando a batalha política e moral contra seu opressor, hasteando as bandeiras palestinas que irrompem em inúmeros eventos de relevância global. Essa indignação coletiva tem impacto na própria sociedade israelense, que percebe essa rejeição sem poder assumi-la.

O expansionismo em apuros

A violência extrema que Israel exerce segue o modelo colonial, que desenvolve para expulsar os palestinos de suas terras e expandir os assentamentos com população imigrante. O país foi forjado com esse dispositivo de extermínio e, por essa razão, não consegue conter o ímpeto criminoso do sionismo. Tal como ocorreu no passado com outros esquemas desse colonialismo (Estados Unidos, Canadá, Austrália), os residentes locais não são explorados, mas aniquilados pelos novos ocupantes.

Israel surgiu com essa atuação aterrorizante e consolidou-se recorrendo a uma sucessão de guerras, para consumar a limpeza étnica da população nativa. Procurou tornar invisível a própria existência nacional desse conglomerado e montou a falácia dos “Dois Estados”, para encobrir sua apropriação das terras palestinas.

Benjamin Netanyahu implementa essa política de forma extrema. Carrega todos os apelidos imagináveis. É de direita, fascista, criminoso e genocida, mas leva adiante o mesmo projeto sionista de seus antecessores. O belicismo desenfreado que emprega obedece a uma base colonial, que exige guerrear constantemente para consolidar e expandir as fronteiras.

Mas Israel sempre complementa esse interesse específico com seu papel de instrumento do imperialismo norte-americano na região. Opera como um braço estendido dos Estados Unidos e não apenas como expoente do lobby sionista (AIPAC) desse país. Desempenha um papel co-imperialista na estrutura interna do poder estadunidense e tem cumprido todos os mandatos da Casa Branca para remodelar o Oriente Médio, com guerras destinadas a garantir o controle estadunidense do petróleo e das rotas comerciais.

É importante lembrar dessa hierarquia no funcionamento do imperialismo, para evitar a frequente apresentação de Donald Trump como um instrumento de Benjamin Netanyahu. Essa imagem contrasta com a evidente supremacia da principal potência do planeta sobre seu pequeno subordinado. De qualquer forma, os importantes conflitos que opõem o líder sionista a seu par estadunidense revelam tensões internas do poder norte-americano. Como Israel foi integrado nessa estrutura, seus porta-vozes refletem as tendências e controvérsias predominantes em toda essa configuração.

Por sua dependência do apoio ianque, o Estado sionista não poderia sustentar nem por um minuto suas incursões bélicas sem o abastecimento norte-americano. Mas a disposição de Benjamin Netanyahu a guerrear em sete frentes conduz a uma expansão militar insustentável de Israel.

O principal obstáculo atual do sionismo provém do Irã. Não só a vitória persa no Golfo constitui uma derrota contundente para Telaviv, como, pela primeira vez, Teerã demonstrou capacidade de causar danos diretos, por meio dos mísseis que atingiram Israel. Os líderes desse país já admitem que as defesas foram neutralizadas e que essa vulnerabilidade altera a dinâmica do conflito.

O Irã poderia bombardear seriamente seu adversário e ninguém prevê respostas eficazes face a essa investida. Teerã começou a disparar em resposta aos bombardeios que o Líbano sofre e, dessa forma, introduz um mecanismo inesperado de dissuasão contra a criminalidade sionista.

O ensaio colonial em dificuldades

O fracasso da agressão ao Irã compromete a viabilidade do plano apoiado por Donald Trump para consolidar a ocupação israelense de Gaza, transformando esse minúsculo território num novo experimento colonial.

O chamado “Conselho da Paz” que o magnata promove para esse enclave consagra a continuidade do genocídio. O futuro desse campo de concentração é debatido na Casa Branca, no meio de bombardeios e assassinatos dos sobreviventes. Longe de considerar qualquer tipo de reconstrução a serviço de seus habitantes, os trumpistas propõem erguer edifícios de luxo e praias para um turismo de elite, sobre as cinzas dos 70.000 mortos pelo exército sionista.

O Conselho de multimilionários, predadores e genocidas que administraria esse empreendimento concebe investimentos limitados a esse balneário, partindo do princípio de que a maior parte da população de Gaza ficará alojada em campos de refugiados distantes da costa.

Donald Trump autoproclamou-se presidente vitalício do Conselho e administrará esse enclave com seu cupincha Tony Blair. Propõe um modelo de gestão semelhante ao da Companhia Britânica das Índias Orientais, que, nos primórdios do capitalismo, geria os territórios conquistados pela Grã-Bretanha com exércitos e funcionários próprios. Já fixou uma cota de entrada para todos os participantes dessa transformação de Gaza num território inteiramente privatizado. Pretende testar ali os enclaves ultracoloniais que a extrema-direita promove para outras regiões do planeta.

Os palestinos não figuram em nenhuma linha dessa iniciativa. As eleições estão tão descartadas quanto qualquer indício de administração própria, e a velha formalidade de sugerir algum futuro Estado palestino ficou totalmente enterrada. O “plano de paz” visa apenas o desarmamento do Hamas e a anulação de qualquer força policial dos próprios habitantes de Gaza. Um tecnocrata decorativo de origem palestina – cooptado pela burocracia de Washington – seria o único representante dessa comunidade, na gestão de um dispositivo colonial semelhante ao que prevalece no Kosovo.

O empreendimento colonial em Gaza enfrenta outro obstáculo de igual importância, dado o papel da Turquia. As ambições subimperiais neo-otomanas colidem, em várias questões, com o expansionismo co-imperial de Israel. Existe, acima de tudo, uma séria disputa pelos recursos de gás do Mediterrâneo que as duas subpotências aspiram a controlar.

Os sionistas já expropriaram a porção dessas jazidas que cabia aos habitantes de Gaza e estabeleceram uma aliança com Grécia e Chipre para controlar as explorações energéticas nas águas em disputa. A Turquia exige sua parte e insere essa exigência numa estratégia para criar três corredores logísticos de abastecimento e comercialização de combustível. A extrema direita israelense está protestando com veemência e alguns prevêem uma rivalidade tensa entre os dois países, que já desponta nas zonas da Síria sob controle de ambos os exércitos.

Donald Trump encara sua tentativa de dominação de Gaza retomando os antigos mandatos coloniais da Liga das Nações. Pretende usurpar competências à ONU e desafiar o funcionamento do Conselho de Segurança, para instaurar um primeiro esquema de remodelação geopolítica alinhado com seu projeto imperial.

O problema reside no total desajuste dessa ambição em relação à realidade. Os fracassos militares diante do Irã ilustram essa fratura. Se o magnata for definitivamente humilhado por Teerã, terá que arquivar seu plano de se apoderar de Gaza. E esse fracasso assumirá dimensões muito maiores se o outro conflito de alcance global que se desenrola na Ucrânia seguir por caminhos adversos para os Estados Unidos.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.