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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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A guerra ultrapassa o limite, a paz torna-se inevitável

Mais do que nunca, a paz deixou de ser apenas possível — tornou-se inevitável diante de uma guerra cujo custo já ultrapassa qualquer justificativa

Bandeira do Irã e Donald Trump (Foto: Dado Ruvic/Reuters)

Menos de vinte e quatro horas bastaram para que o cessar-fogo anunciado com pompa por Donald Trump e aceito por Teerã, sob mediação do Paquistão, revelasse sua natureza: não um acordo sólido, mas um intervalo precário entre duas vontades inconciliáveis. A trégua mal havia sido apresentada ao mundo quando Israel lançou sobre o Líbano a maior onda de ataques desde o início dessa etapa da guerra, enquanto o Irã endurecia novamente sua postura no Golfo e reabria a crise no estreito de Ormuz.

No papel, cessar-fogo. No chão, bombas, alerta aéreo, navios parados e acusações mútuas de violação.

Não se trata de um acordo que falhou; trata-se de um acordo que nunca chegou a existir como compromisso efetivo entre as partes.

É nesse descompasso entre discurso diplomático e realidade militar que se deve ler o momento atual. O acordo nasceu defeituoso porque jamais houve consenso sobre seu alcance. O Paquistão sustentou que a trégua deveria abranger também o front libanês; Israel e a Casa Branca disseram o contrário. O vice-presidente J. D. Vance afirmou que incluir o Líbano seria um “mal-entendido”. Benjamin Netanyahu, por sua vez, declarou que a guerra contra o Hezbollah continuaria.

Quando um cessar-fogo começa sem definição comum sobre quem está incluído, ele já nasce com todas as condições para ser um fracasso. E quando nasce corroído, não se sustenta — apenas simula estabilidade enquanto prepara a próxima ruptura.

Escalada no Líbano

Os fatos que se seguiram ao anúncio da trégua reforçam esse diagnóstico com números que não permitem relativização. Em poucas horas, Israel conduziu uma operação de grande escala no Líbano, lançando aproximadamente 160 mísseis em cerca de dez minutos, numa ofensiva descrita por autoridades militares como a mais intensa desde o início do conflito. O governo libanês acusou Tel Aviv de ignorar esforços diplomáticos internacionais, enquanto imagens de destruição urbana ampliaram a pressão sobre a comunidade internacional.

No terreno, equipes de resgate enfrentavam cenários de colapso estrutural, com bairros inteiros atingidos, o que evidencia que a guerra continuava a produzir vítimas em ritmo acelerado e sem distinção entre alvos militares e áreas densamente povoadas.

O primeiro ponto que emerge é o descompasso entre vitória militar e resultado político.

Após cerca de quarenta dias de bombardeios intensos conduzidos por Estados Unidos e Israel, instalações iranianas foram atingidas, infraestrutura degradada e capacidades parcialmente reduzidas. Ainda assim, o regime permaneceu intacto. Não houve colapso interno, nem ruptura significativa na cadeia de comando. Para Teerã, isso basta para reivindicar êxito político.

A estratégia em ruínas

A leitura não é isolada. O cientista político Robert Pape, referência no estudo de coerção militar, vem argumentando que a campanha ocidental produziu um impasse estratégico previsível. Em suas análises recentes, ele sustenta que Washington entrou numa lógica de dilema: ou escalava o conflito para níveis potencialmente descontrolados, ou aceitava um recuo tático que preservaria o regime iraniano.

Em avaliações amplamente repercutidas na imprensa internacional, Pape sugere que o resultado pode ser interpretado como o mais severo revés estratégico americano desde a Guerra do Vietnã — não pela escala militar, mas pela incapacidade de converter poder bélico em resultado político duradouro.

Essa avaliação ganha peso quando confrontada com os objetivos iniciais da ofensiva. A narrativa predominante — amplamente documentada em análises do The New York Times e do The Washington Post — indicava a expectativa de enfraquecimento decisivo do regime iraniano.

Em alguns momentos, falou-se abertamente em mudança de regime. Nada disso ocorreu. O regime não caiu, não cedeu e não foi isolado de forma irreversível.

Ao contrário, o Irã demonstrou capacidade de absorção e adaptação. Mesmo sob ataques, manteve estoques relevantes de material nuclear — estimativas recentes indicam cerca de 400 a 450 quilos de urânio enriquecido a níveis próximos a 60%. Não se trata de capacidade imediata de armamento nuclear, mas é um ativo estratégico que amplia poder de barganha e sustenta a posição iraniana nas negociações que se aproximam. Sobreviveu sob pressão máxima — e isso, em geopolítica, não é detalhe.

A crítica mais incisiva talvez venha de dentro do próprio campo israelense. O analista Danny Citrinowicz tem sido categórico ao questionar a lógica da operação. Ele destaca que o núcleo do poder iraniano permaneceu intacto, enquanto os custos regionais se multiplicaram. Sua pergunta — Que resultado concreto essa guerra entregou? — sintetiza um desconforto crescente entre especialistas de segurança e diplomatas ocidentais que começam a revisar, com atraso, as premissas que sustentaram a escalada.

Ormuz como arma

Se há um ponto concreto obtido por Washington, ele se concentra no Estreito de Ormuz. A via marítima, responsável por cerca de 20% do fluxo global de petróleo, voltou a operar parcialmente, mas sob ameaça constante. O Irã não apenas manteve influência sobre a passagem como reforçou sua capacidade de controle indireto — e, sobretudo, sua capacidade de interromper o fluxo quando desejar.

Nas horas seguintes ao cessar-fogo, essa influência tornou-se explícita.

A Guarda Revolucionária anunciou novas restrições à navegação e declarou que qualquer embarcação sem autorização poderia ser alvo militar. Dados de monitoramento indicavam centenas de navios parados em ambos os lados do estreito, interrompendo um fluxo que, antes da guerra, chegava a cerca de 130 embarcações por dia. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que os Estados Unidos precisariam escolher entre sustentar a trégua ou admitir sua sabotagem por meio de ações indiretas conduzidas por Israel. Vemos aqui — novamente, — a guerra de narrativa e a falência da verdade factual.

É nesse contexto que emerge uma proposta que redefine o eixo econômico do conflito. Teerã trabalha com a possibilidade de instituir um pedágio de até 2 milhões de dólares por navio petroleiro que atravesse o estreito de Ormuz, em acordo com Omã. Projeções indicam que essa cobrança poderia gerar receitas próximas de 1 bilhão de dólares por dia.

Não é apenas uma medida econômica. É a transformação de uma rota energética global em instrumento permanente de poder político.

O custo da guerra

O impacto mais duradouro, contudo, recai sobre os próprios Estados Unidos. Estimativas de centros de análise e relatórios do Congresso indicam que os custos diretos e indiretos da campanha — mobilização militar, reposição de armamentos de alta precisão, manutenção de forças na região e impacto sobre o mercado energético — já ultrapassam dezenas de bilhões de dólares.

Esse valor não inclui efeitos secundários: inflação energética, encarecimento do transporte marítimo, pressão sobre alimentos e desorganização de cadeias logísticas globais. O barril de petróleo, que orbitava a faixa de 70 dólares antes do conflito, superou os 117 dólares em poucos dias, refletindo a vulnerabilidade estrutural do sistema energético internacional.

Nesse contexto, a relação entre Washington e Tel Aviv entra em uma zona de tensão controlada. O governo de Benjamin Netanyahu foi um dos principais defensores da escalada, sustentando a viabilidade de um golpe decisivo contra Teerã.

A realidade mostrou-se “ligeiramente muito distinta”— e mais resistente do que o cálculo inicial sugeria.

Autoridades americanas reforçaram que os objetivos militares teriam sido atingidos, mas o discurso revela fissuras. O secretário de Defesa Pete Hegseth falou em sucesso operacional. O general Dan Caine adotou um tom mais prudente ao afirmar que a prontidão militar permanece elevada. Já a porta-voz Karoline Leavitt — porta-voz da Casa Branca — deixou explícito que o Líbano não integra o cessar-fogo. A guerra, portanto, foi parcialmente suspensa e seletivamente mantida.

Em Teerã, o presidente Masoud Pezeshkian relatou ataques a infraestruturas energéticas logo após o anúncio da trégua, enquanto Mohammad Bagher Ghalibaf acusou Washington de violar compromissos antes mesmo do início das negociações. Do lado americano, J. D. Vance advertiu que eventuais violações iranianas trariam consequências severas. A linguagem é de cessar-fogo. A lógica continua sendo de confronto.

Nesse tabuleiro, o Líbano surge como o elo mais vulnerável. Sem capacidade de defesa proporcional, com instituições fragilizadas e economia em colapso prolongado, o país absorve impactos que não controla. A guerra, para o Líbano, não é escolha. É imposição.

Tenho lido com atenção redobrada o noticiário impresso dos Estados Unidos nas últimas horas — especialmente análises e editoriais — exatamente porque não disponho com a mesma facilidade de acesso ao que se publica em Tel Aviv ou em Teerã. Essa assimetria exige disciplina intelectual. Exige cuidado para não reproduzir versões parciais, para não aceitar como totalidade aquilo que é apenas narrativa. Em guerra, a informação também é campo de batalha.

O que se observa, ao final, é um cessar-fogo que não encerra a guerra — apenas a reorganiza.

A lógica do conflito permanece ativa, alimentada por desconfiança estrutural, interesses divergentes e ausência de uma arquitetura diplomática capaz de sustentar compromissos duradouros.

A escolha que resta

Não vejo, neste momento, qualquer evidência de que a continuidade da guerra produza um resultado mais estável do que a negociação. Vejo o contrário.

Vejo, isso sim, um sistema internacional pressionado, economias tensionadas, cadeias de suprimento instáveis e sociedades expostas a um risco crescente que não é abstrato — é mensurável, diário e cumulativo. Vejo também lideranças que ainda operam sob a ilusão de controle, quando na verdade administram um processo que já escapou dos limites convencionais da previsibilidade estratégica.

Sustentar a paz não é um gesto moral. É uma decisão estratégica.

Custa menos, exige mais inteligência e produz mais estabilidade.

Sustentar a guerra é o oposto: consome recursos, amplia incertezas e reduz a margem de erro a níveis perigosos. E quanto mais se prolonga esse cenário, mais se estreita o espaço para soluções racionais, substituídas por respostas automáticas, reativas e potencialmente desastrosas.

Eu insisto: é preciso dar uma chance real à paz. Não como retórica, mas como cálculo. Persistir na guerra não é firmeza — é insistência em um erro que se amplia a cada novo movimento. O sistema internacional já opera sob pressão extrema, como uma estrutura tensionada além de sua capacidade segura.

Em algum momento, essa pressão encontra um ponto de ruptura. E quando isso acontece, não há contenção possível, não há narrativa que organize o caos, não há liderança que recupere o controle perdido.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.