A hierarquia da existência
O humano só é pleno quando reconhece no outro um igual absoluto, e não um degrau abaixo na escala imaginária da existência
A história da humanidade é, ao mesmo tempo, uma narrativa de ascensão biológica e de decadência moral. Desde que o Homo sapiens emergiu, segundo a ciência, entre 400 mil e 100 mil anos atrás, como um dos últimos ramos da grande árvore evolutiva, carregamos conosco não apenas a capacidade singular do raciocínio abstrato, da linguagem complexa e da cooperação social, mas também uma marca sombria: a tendência a hierarquizar a própria espécie. Os estudos mais aceitos hoje apontam que os humanos modernos surgiram de processos múltiplos e interconectados de evolução na África, Ásia e Europa, misturando-se geneticamente e demonstrando, desde os primórdios, que somos resultado de miscigenação, hibridismo e encontro. Ainda assim, por mais que a biologia revele nossa unidade, a cultura construiu muros.
Nas cavernas paleolíticas, onde o fogo iluminava as primeiras pinturas e mitos, já despontavam formas rudimentares de diferenciação entre grupos, tribos e linhagens. Com o advento da agricultura, por volta de 10 mil anos atrás, e o surgimento das primeiras cidades-Estado, nasceu também o impulso de ordenar, classificar e dominar. A Mesopotâmia erigiu templos ao mesmo tempo em que estabelecia castas. O Egito divinizou faraós enquanto rebaixava camponeses. A Grécia, berço da filosofia, defendia a razão e a paideia, mas sustentava a escravidão. Roma, criadora do direito, transformou povos inteiros em mercadoria. A Antiguidade floresceu em grandes feitos culturais e em profundos abismos humanos.
Com o cristianismo e suas promessas de igualdade espiritual, parecia possível atenuar a hierarquia terrestre, mas a Idade Média estruturou feudos, nobreza e servidão, reafirmando que a pirâmide não era apenas política, mas ontológica. O Renascimento, ao descobrir o indivíduo, não descobriu a igualdade; descobriu apenas o homem europeu como medida de todas as coisas. O Iluminismo proclamou a liberdade e a razão universais, mas as colônias ardiam, os povos originários eram exterminados e a economia global se alimentava da escravidão atlântica. A modernidade criou direitos humanos, mas também os instrumentos de sua negação.
Essas contradições revelam que nenhum salto civilizatório foi capaz de extirpar o vício original da espécie: a crença de que alguns humanos valem mais que outros. Essa hierarquização, sempre justificada por mitos de superioridade, valores manipulados ou interesses travestidos de moralidade, é a raiz dos maiores crimes da história. É ela que legitima conquistas, colonizações, genocídios, perseguições religiosas, supremacismos raciais, guerras intermináveis, exclusões econômicas e apagamentos culturais. Do campo minúsculo das relações sociais ao vasto tabuleiro geopolítico, o impulso hierárquico se reproduz, mascarado ora de tradição, ora de progresso, ora de segurança.
Mesmo após as revoluções científicas, as declarações universais e os avanços sociais que marcaram os séculos XIX e XX, não nos humanizamos o suficiente para compreender, na prática, que a vida humana não admite gradações. Continuamos a agir como se houvesse seres superiores e inferiores, como se raça, território, riqueza ou crença definissem graus de importância. A escravidão foi abolida formalmente, mas persiste em formas econômicas e sociais. A igualdade foi proclamada, mas a desigualdade estrutural permanece como norma silenciosa. Povos continuam sendo anulados culturalmente; minorias são tratadas como descartáveis; vidas fora do topo da pirâmide são vistas como facilmente sacrificáveis.
Na contemporaneidade, esse vício torna-se ainda mais visível. O mundo conectado revela, a cada instante, a obscenidade das hierarquias que fingimos não ver. Palestinos e judeus, negros e brancos, ricos e pobres, imigrantes e cidadãos plenos, todos deveriam, conforme afirma a Declaração Universal dos Direitos Humanos, gozar da mesma dignidade e valor. Contudo, na prática, o topo da pirâmide insiste em se autoproclamar guardião de uma humanidade seletiva. A hipocrisia transforma privilégios em direitos naturais e desigualdade em destino. O sofrimento dos que estão abaixo é tratado como ruído, como estatística, como efeito colateral inevitável.
A hierarquia da existência, repetida por milênios, tornou-se uma enfermidade naturalizada. Ela se infiltra nos discursos, nas instituições, nas crenças e nos gestos cotidianos. Nada é mais primitivo, e ao mesmo tempo mais moderno, do que dividir o humano em escalas de valor. Mesmo possuindo a razão, a ciência e a memória histórica, seguimos presos a um tribalismo sofisticado, legitimado por ideologias, religiões, políticas de Estado ou lógicas de mercado.
E, no entanto, sabemos que pertencemos à mesma espécie. Somos resultado de miscigenações profundas, de encontros sucessivos, de trocas que moldaram nossas culturas, nossos corpos e nossas linguagens. A ciência confirma diariamente que não há bases biológicas para as hierarquias sociais, mas a cultura insiste em criá-las, porque é mais fácil governar um mundo dividido do que um mundo justo.
Refletir sobre essa história, da ancestralidade até a era digital, é perceber que a humanidade ainda não cumpriu seu próprio projeto. Não basta reconhecer que todos têm igual valor; é preciso desmontar, um a um, os dispositivos simbólicos, econômicos e políticos que sustentam a pirâmide. A verdadeira evolução não é biológica, mas ética. Talvez o maior desafio da contemporaneidade seja justamente abandonar o que carregamos desde o início: a crença no mais e no menos, no superior e no inferior, para finalmente assumirmos o que a ciência sempre disse e a ética sempre exigiu: o humano só é pleno quando reconhece no outro um igual absoluto, e não um degrau abaixo na escala imaginária da existência.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

