A hora decisiva

"Estamos ameaçados de, podendo assegurar a eleição de Lula, não oferecer-lhe o apoio congressual necessário para governar", diz Roberto Amaral

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Lula (Foto: ABr | Reprodução)


Ao que tudo indica, a ansiada eleição de Lula é já um fato inafastável. A dúvida é se ela se dará no segundo turno, ou já no primeiro. Enquanto o ex-presidente cresce na aceitação eleitoral, segundo a unanimidade das pesquisas, seu adversário dá sinais de estagnação, e mesmo de pequeno recuo. Os que observam o processo político-eleitoral concluem que o capitão terá alcançado seu teto; e, nele estacionado, irremediavelmente perderá na eventualidade de um  segundo turno, por larga diferença. E tende a perder no primeiro, o que é a melhor alternativa para o país,  ainda que se dê por margem estreita. É nesta alternativa que devemos apostar todas as fichas. No que valem as análises e as previsões dos especialistas, a distância entre haver ou não segundo turno está na chamada margem de erro dos tantos institutos de pesquisa, ou seja, algo próximo de 2%, indicando que Lula pode vencer com 51/52% do total dos votos; diferença que se consolida na medida em que cresce o apoio que vem conquistando junto ao eleitorado de centro e centro-direita (rótulo que abriga os ditos liberais e a moribunda socialdemocracia paulista, além de setores empresariais assustados), antes infenso à sua candidatura.

Qualquer que seja a vantagem de Lula, porém, na primeira ou segunda rodadas, sua vitória será questionada pelo capitão, suas hordas e seitas de seguidores, civis, militares e milicianas. A conspiração que aparentemente havia entrado em recesso já volta à lida, é cogitada e anunciada sem reservas, e mais cresce na medida em que a derrota do ainda presidente toma as cores da irreversibilidade. Esta semana, pois, nos reserva muita tensão, a busca final pelo voto e a preparação para enfrentar a bulha que a choldra governante anuncia. Será decisiva para a democracia. Nela, portanto, devem se concentrar todas as atenções das forças democráticas.

Até aqui a tática do comando da candidatura popular parece exitosa, pois, atraindo o voto conservador, tende a assegurar a vitória no primeiro turno, necessária por todas as razões. A política de frente ampla é sempre o melhor caminho para derrotar a promessa autoritária. Nos anos 1920/1930 ela foi abandonada pela esquerda e pela socialdemocracia na Itália e na Alemanha, com as consequências conhecidas. Neste 2022 foi novamente escanteada na Itália, asfaltando o caminho que alçou a extrema-direita ao poder. Nos anos 1980 e seguintes foi a política de frente que apressou o fim da ditadura militar instalada, entre nós, em 1° de abril de 1964. Em 1985 tornou possível implodir o colégio eleitoral inventado para assegurar a eleição do delfim da ditadura, e em 1988 elegemos uma Constituinte que costurou o pacto social hoje sob o ataque bolsonarista. Ao tempo em que derrota o continuísmo do projeto neofascista, a frente de hoje condena ao fracasso a promessa de tumulto pós-eleitoral, embora muita água ainda seja aguardada para passar por debaixo da ponte até a posse de Lula, em 1° de janeiro de 2023.

Está de tal sorte degradada a política brasileira, o cenário que se começou a montar a partir do golpe de 2016, que a necessária vitória de Lula ainda não será o ponto de chegada. As eleições serão contestadas (esse expediente, aliás, é o cavalo de batalha do ainda presidente), não haverá transição civilizada de poder, o governo Lula – a braços com  condições econômicas e geopolíticas  adversas; o desarranjo da economia nacional e a desestruturação do aparelho estatal; a guerra OTAN x Rússia; inflação nos EUA e na UE; queda do crescimento  da China – enfrentará, ainda, a oposição renhida do extremismo de direita, a má vontade das forças armadas partidarizadas, a eterna desconfiança do grande capital e, principalmente, a oposição de um Congresso no qual está condenado a ser minoritário. Não se trata de um Congresso qualquer, pois esse sob o qual Lula governará, dominado que pelo que se chama de “centrão”, controla nada menos que 50% do orçamento da União e vimos, em 2015 (quando não foi cedido a Dilma o direito de governar) e 2016 (com o impeachment) , o que pode fazer contra um governo que eleja como adversário a ser demolido. Principalmente quando a Câmara dos Deputados é chefiada por um meliante.

País que alimenta uma das mais pornográficas concentrações de renda do planeta, um dos maiores índices de pobreza, desemprego e fome, vivemos mascarada luta de classes que no entanto se revela, para quem quiser ver, na disputa Lula x Bolsonaro. Se o capitão vem liderando as sondagens de intenção de voto e crescendo de quatro a seis pontos nas faixas de renda superiores a dois salários mínimos, Lula abre 33 pontos entre os brasileiros que percebem até dois salários mínimos. Trata-se, evidentemente, da manifestação eleitoral do conflito essencial, incontornável, entre os poucos brancos e ricos do vértice da pirâmide social  e as grandes massas, o “povão”, a esmagadora maioria dos sem renda e dos assalariados de baixa renda,  estes, cerca de 70% dos trabalhadores brasileiros.

A eleição de Lula coloca-se, pois, como uma necessidade histórica, e seu governo como uma potencialidade que, porém, poderá ser frustrada, como foram o projeto de reformas de João Goulart e o governo Dilma. Por isso, é fundamental, como ponto de partida, ganhar e ganhar bem, vencer as eleições no dia 2 de outubro, e por uma boa margem de votos. Assim, terão sido oferecidas as bases para uma posse, por assim dizer, tranquila. E se conseguirmos nos organizar no pós-pleito, se conseguirmos transformar a alegria eleitoral em organização popular, poderemos salvar o governo, no limitadíssimo sentido de garantir a incolumidade do mandato, conscientes de suas limitações políticas e ideológicas decorrentes da camisa de força imposta pela correlação de forças. Na política, como se sabe, não existe almoço grátis (sequer cafezinho, acrescentam alguns).

Ocorre que estamos ameaçados de, podendo assegurar a eleição de Lula, não oferecer-lhe o apoio congressual necessário para governar, na medida em que o voto no presidente não se reflita no voto em parlamentares comprometidos com a sustentação de seu programa. A este propósito as antevisões não são animadoras. Segundo pesquisa revelada pelo Valor 28/9/2022) , num colégio de 513 deputados federais, os partidos que hoje apoiam a candidatura de Lula devem conquistar 130 cadeiras, e a coligação bolsonarista, 167. Essas eleições, por sinal, marcarão a provável reeleição de mais de 300 dos atuais deputados, uma das mais baixas renovações desde 1986. E a atual legislatura, que assim parece sobreviver no que tem de pior, é certamente a mais reacionária de quantas tivemos após a redemocratização. O maior partido da Câmara será o notório PL, a agremiação ocupada por Bolsonaro e presidida por ninguém menos que Valdemar Costa Neto. É sempre bom lembrar que qualquer presidente, para governar, precisa de maioria nas duas Casas do Congresso. Para evitar o impeachment precisa de 171 votos (um terço da Câmara), o que não tivemos em 2016. Deu no que deu.

Nesta reta final, sem esquecer o projeto fundamental que é a eleição de Lula, precisamos investir na conquista de votos para os candidatos dos partidos que o apoiam e que se comprometem com a sustentação de seu governo. Para o bem e para o mal, dizem as pesquisas, permanece relativamente alto o índice de eleitores que ainda não fixaram seu voto para deputado federal. É a hora de garimpar o  voto dos indecisos e conquistar os que, de boa fé,  ainda acreditam na viabilidade de uma terceira via numa eleição polarizada entre democracia e ditadura, civilização e barbárie.

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