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Maria Luiza Franco Busse

Jornalista há 47 anos e Semiologa. Professora Universitária aposentada. Graduada em História, Mestre e Doutora em Semiologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com dissertação sobre texto jornalístico e tese sobre a China. Pós-doutora em Comunicação e Cultura, também pela UFRJ,com trabalho sobre comunicação e política na China

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A hora e a vez de Darcy Ribeiro

A inteligência chinesa está muito feliz em poder desfrutar do saber a da boa companhia de Darcy Ribeiro

A hora e a vez de Darcy Ribeiro (Foto: Arquivo pessoal)

De Pequim para o 247

O povo brasileiro está na China, e chega aqui pela obra de Darcy Ribeiro ‘ O povo brasileiro_  a formação e o sentindo do Brasil’ lançado agora em mandarim. Na parceria entre a Fundação Darcy Ribeiro e a editora Blossom Press chinesa, está o trabalho de tradução de Yan Qiaoring, a professora chinesa de língua portuguesa na Universidade de Comunicação da China e que atende pelo nome ocidental de Silvia.

“Nada mais atual do que Darcy Ribeiro”, diz Silvia. Ela tem razão. Em meio a racismo e negação da  diversidade harmônica por identitarismos levados por movimentos sociais e orientações  acadêmicas, Darcy celebra “a civilização mestiça” na qual apostou e deixou como legado a esperança de onde pode advir um “genero humano mais justo, mais belo e mais feliz no cenário mundial”.

O lançamento foi uma “máquina de pensar” bem ao gosto do antropólogo, educador e intelectual inquieto , representado por  José Ronaldo Alves da Cunha, presidente da Fundação, e Gisele Jacon de Araújo Moreira, vice-presidente e assessora do autor a quem Darcy dedica reconhecimento de coautoria. Gisele não nega nem afirma, mas revela que o elogiado brinco usado na cerimônia era uma abotoadura que Darcy deu a ela quando o ajudava a vestir o pesado fardao para a posse na Academia Brasileira de Letras, ocasião em que o novo imortal se dava conta que a vida já lhe era um sopro. Com o seu povo brasileiro, Darcy deu um golpe de mestre no câncer que o matou mas não conseguiu vencê-lo antes de concluir o projeto que escreveu e reescreveu por 30 anos.

O discurso de Silvia em mandarim traduziu Darcy com todas as originalidades  do pensador de “fazimentos”. Por isso, vale a pena conhecer a integrar, que aí vai:

“Excelentíssimo Senhor Embaixador do Brasil na China, Marcos Galvão, respeitados líderes da Administração de Publicação em Línguas Estrangeiras e da Editora Zhaohua, prezados diplomatas, caros colegas, familiares e amigos:

Boa tarde a todos!

Hoje, ao estar aqui, confesso que sinto um misto de nervosismo e emoção. Esta obra é o livro da vida de Darcy Ribeiro, e eu tive a honra de ser aquela que o trouxe para o mundo de língua chinesa.

Isto não é um "trabalho indicado", mas uma "iniciativa própria"

Este livro foi uma iniciativa minha para o apresentar aos leitores chineses.

Em 2022, quando decidi voltar meu foco de trabalho para a tradução de obras clássicas, elaborei uma lista de livros. No topo dessa lista estava O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro.

A meu ver, compreender o Brasil sem ler Darcy Ribeiro é como compreender a China sem ler Fei Xiaotong; se um chinês nunca ouviu falar de Darcy Ribeiro, é como se um brasileiro nunca tivesse ouvido falar de Lu Xun.

Meu amigo, o académico brasileiro José Medeiros da Silva, fez uma afirmação que guardo na memória até os dias de hoje: "Se você tiver apenas uma oportunidade na vida para traduzir um clássico brasileiro, tem que ser O Povo Brasileiro."

Essas palavras foram decisivas para mim. Entrei em contato com a Fundação Darcy Ribeiro e com a Editora Blossom Press. As três partes — tradutora, detentor dos direitos autoriais, editora —, unidas pela convicção comum de construir uma ponte para o intercâmbio entre as civilizações chinesa e brasileira, trabalhamos em conjunto para cumprir esta missão.

Traduzindo "o livro da vida" de Ribeiro, respondo com o total entusiasmo da minha vida.

Ribeiro concluiu este livro nos últimos anos da sua vida. Para terminar esta obra, ele fugiu do hospital e foi terminar este livro na casa à beira-mar em Maricá.

Ao traduzir este livro, tive um sentimento semelhante — dediquei um ano inteiro do meu tempo livre, indo todos os dias ao café no Galaxy SOHO ou à sala de estudo do Centro de Serviços aos Habitantes do Distrito de Dongcheng, para traduzir este livro com tranquilidade.

A dificuldade da tradução deste livro estava fora das minhas expectativas. Tomemos como exemplo a tradução do título. O título original, O Povo Brasileiro, se fosse traduzido literalmente como "巴西人民", um termo mais político, perderia a preocupação central de Darcy Ribeiro — ele escreveu sobre o processo de formação desse povo e de toda a nação. Pesquisei cuidadosamente o manuscrito original de 1995 e descobri que o subtítulo foi finalmente definido como A Formação e o Sentido do Brasil — esta é a questão central que Ribeiro perseguia em seus últimos anos. Acabei decidindo traduzir o título como 巴西人:巴西的形成及意义.

Para garantir a precisão da tradução, realizei um extenso trabalho de pesquisa acadêmica. Tive a honra de trocar ideias com a antropóloga Gisele, que ajudou Darcy Ribeiro a organizar o manuscrito original. Com ela, revisei a tradução de conceitos centrais como "povo novo", "ninguendade", entre outros. Esta corrente acadêmica que atravessa três décadas me enche de gratidão.

A editora Zhang Beiyu e eu nos esforçamos infinitamente pela precisão e fluência da tradução. Antes da impressão, revisei o texto a noite toda com quatro de meus alunos. Se não fosse o prazo de publicação, receio que, assim como Ribeiro, eu também não gostaria de encerrar esta jornada. Este livro foi como uma escola. Cada vez que adicionava uma nota de tradutor, era um "registro de aprendizado" — a combinação entre tradução e interpretação é uma característica deste livro, e também é a minha essência como pesquisadora e professora.

Por que a tradução acadêmica se torna a base do intercâmbio entre civilizações?

Porque a confiança começa com a compreensão; e a compreensão começa com o texto.

A cooperação profunda entre países não pode se restringir apenas aos intercâmbios econômicos e comerciais; é necessária também uma sintonia de pensamentos. Quando os amigos brasileiros veem a seriedade com que traduzimos suas obras-primas nacionais, eles sentem uma sinceridade que vai além das cortesias protocolares. Nos últimos dias, assim que divulgamos o lançamento do novo livro, recebi uma verdadeira enxurrada de cumprimentos dos meus amigos brasileiros. Minha querida alma mater – a Universidade Federal do Rio Grande do Sul – publicou no site oficial uma notícia sobre a minha tradução desta obra para o chinês. Em apenas um dia, foram mais de duas mil curtidas. Esses gestos, senhoras e senhores, são a prova mais bonita do que estou dizendo.

Ao longo da tradução deste livro, estabeleci laços acadêmicos profundos com a Fundação Darcy Ribeiro e com vários pesquisadores brasileiros. Eles se dispuseram a se abrir comigo, justamente porque perceberam que eu não estava "cumprindo uma tarefa", mas sim indo ao encontro de um diálogo sincero.

Somente com sintonia de pensamentos há confiança profunda; somente com confiança profunda há cooperação duradoura.

Alguém pode perguntar: hoje em dia, com a tradução de IA, por que ainda precisamos da tradução humana de clássicos acadêmicos? Minha resposta seria: as máquinas podem traduzir palavras, mas não conseguem traduzir pensamentos; podem converter códigos, mas não conseguem construir confiança. Porque a confiança só pode ser construída por seres humanos.

IV. Gratidão a todos que me ajudaram

Em primeiro lugar, sou grata a todos os brasileiros.

Sejam diplomatas ou pesquisadores brasileiros que conheci aqui na China, sejam pessoas comuns que encontrei nas minhas viagens ao Brasil — de professores a motoristas de táxi — sempre que ouviam que eu estava traduzindo este livro, seus olhos brilhavam. Naquele momento, eu sentia que este livro me permitia tocar a alma deles.

Expresso minha profunda gratidão à Fundação Darcy Ribeiro, e de modo muito especial ao seu presidente, José da Cunha, pela confiança e pelo apoio depositados em mim ao me concederam os direitos de tradução desta obra.

Sou grata aos meus colegas da área acadêmica e da tradução na China. Sem o incentivo de vocês, eu não teria embarcado nesta jornada.

Os meus agradecimentos à Editora Zhaohua, especialmente à Sra. Zhao Qian e à editora Zhang Beiyu, por mais de um ano de luta lado a lado.

Sou grata aos meus alunos e à minha família. O grande interesse dos meus alunos por este livro me faz vislumbrar a esperança da continuidade acadêmica. Agradeço também à minha família, cuja compreensão e tolerância me permitiram dedicar-me a esta tradução com tranquilidade.

V. Encerramento

Darcy Ribeiro disse certa vez que o povo brasileiro é formado do processo de  "miscigenação". E eu gostaria de dizer que o encontro entre civilizações também deve ser "mestiço" — ele precisa do alimento e da construção mútuos.

Traduzir este livro foi a maneira que encontrei de responder com o entusiasmo da minha vida ao livro da vida de Ribeiro. Hoje, ele finalmente chega às suas mãos.

Que esta obra traduzida se torne um pequeno e sólido alicerce para o intercâmbio entre as civilizações chinesa e brasileira.

Muito obrigada a todos!”

Pois é, o interesse da China em  Darcy  , sabendo aproveitar o melhor de nós e dos nossos, lembra o diálogo com um empresário chinês do setor ferroviário. Perguntado sobre o que tinha a dizer sobre as críticas de que a China estava comprando tudo no Brasil, ele responde: “não somos nós que estamos comprando, é o Brasil que está vendendo”.

A inteligência chinesa está muito feliz em poder desfrutar do saber a da boa companhia de Darcy Ribeiro.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.