A ignorância grita. O silêncio mata
Hoje estamos sendo atravessados por uma “ignorância irrequieta, exuberante e agressiva”, termos utilizados pelo professor Antonio Cândido
"A ignorância é vizinha da maldade" é um verso marcante da música "Do Espírito", da banda Legião Urbana, presente no álbum O Descobrimento do Brasil (1993). A frase sugere que a falta de conhecimento ou compreensão (ignorância) frequentemente leva a atitudes cruéis ou prejudiciais (maldade).
Contudo, o que nos preocupa em nossa época é algo mais profundo: a ignorância tornou-se uma escolha deliberada. Ela é praticada por aqueles que detêm o controle do capital, das armas, dos exércitos e das decisões que impactam milhões de vidas. Organizam-se politicamente, estruturam partidos e passam a orientar projetos de poder.
Vivemos, portanto, em uma era marcada pelo avanço de uma ignorância inquieta, como sugere o historiador inglês Peter Burke, em sua obra “Ignorância: uma história global” (2023). Não se trata apenas da ausência de conhecimento ou de bom senso, mas de uma presença ativa, ruidosa e quase ensurdecedora de uma opção pela irracionalidade. Uma ignorância que se manifesta de forma contundente e que, ao se manifestar, naturaliza a barbárie como se fosse parte da ordem natural das coisas.
A ignorância consciente tem sido o gatilho que dispara ataques com fake news, drones, seguidos por explosões de bombas, resultando na morte de crianças dentro de escolas, assassinatos de doentes em hospitais, de mulheres com seus filhos no colo ou ainda no ventre. Esses atos de violência vão sendo gradualmente absorvidos como parte do cotidiano, como se o absurdo tivesse perdido sua capacidade de nos interromper, de nos indignar, de provocar náusea.
Os EUA, que já foram o farol do progresso no Ocidente, hoje são o berço da ignorância institucionalizada no sentido mais cruel que o termo denota.
Mesmo não sendo concebível que o mundo se cale de forma tão ensurdecedora diante disso. Não é aceitável que a ignorância, elevada à condição de escolha consciente, passe a disputar espaço com a própria ideia de verdade.
Ao analisarmos este cenário, torna-se imprescindível recorrer ao conceito de “intempestivo” (Unzeitgemäß), proposto por Nietzsche. O intempestivo representa aquilo que se contrapõe ao seu tempo, não por mera arbitrariedade, mas por necessidade. É aquilo que incomoda, perturba e desestabiliza para revelar, constituindo-se em crítica viva.
A ignorância contemporânea, por sua vez, também desestabiliza, mas o faz em sentido oposto. Ela não abre caminhos, não produz síntese, não eleva o debate. Ao contrário, rebaixa, obscurece e impede qualquer salto qualitativo. Trata-se de uma perturbação que não ilumina, mas sim confunde. Se o Iluminismo abriu a Era da Luz, a ignorância nos devolve as trevas.
Recordo-me de um diálogo recente com o professor Wilian Ramalho sobre comunicação, no qual recordei o filme “O Dia Depois de Amanhã” (The Day After Tomorrow, 2004, Estados Unidos, direção de Roland Emmerich). Durante um longo período, a obra poderia ser considerada exagero ou ficção alarmista. Atualmente, entretanto, as catástrofes climáticas deixaram de ser projeções distantes e passaram a se impor como realidade concreta. Ainda assim, persistem movimentos que negam, distorcem ou simplesmente recusam essa realidade. Uma cena marcante no filme é a queima de livros na biblioteca de Nova Iorque para manter as pessoas abrigadas ali aquecidas. De repente, indignado, o bibliotecário salta sobre um indivíduo e arranca-lhe das mãos a Bíblia de Gutenberg.
Para quem não sabe, ela é o Incunábulo, impresso da tradução em latim da Bíblia, feita por Johannes Gutenberg, em Mogúncia, Alemanha. A produção da Bíblia começou em 1450, tendo Gutenberg usado uma prensa de tipos móveis. Calcula-se que tenha terminado em 1455. Não há o número exato de quantas foram impressas. Mas há registro de aproximadamente menos de 50 em algumas bibliotecas. Ela tornou-se o símbolo do renascimento científico e da chamada idade da razão. O Iluminismo. As luzes desvelando as trevas da Idade Média.
Hoje, entretanto, estamos sendo atravessados por uma “ignorância irrequieta, exuberante e agressiva”, termos utilizados pelo professor Antonio Cândido (1918–2017). Uma ignorância que não apenas desconhece, mas se afirma, se organiza e se expande como força social e política.
Talvez o desafio do nosso tempo seja, então, outro. E o de recuperar a potência do intempestivo em seu sentido mais profundo. Não como ruído vazio, mas como crítica. Não como perturbação que obscurece, mas como aquela que revela.
Pois, quando tudo se torna aceitável, não é apenas a verdade que está em risco, mas a própria possibilidade de reconhecê-la como o meio que nos conduziu para fora das trevas.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
