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Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

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A ilusão cambial: por que a valorização do real não é uma vitória econômica

Um entusiasmo fora de lugar

A ilusão cambial: por que a valorização do real não é uma vitória econômica (Foto: Agência Brasil )

A valorização recente do real frente ao dólar tem sido celebrada como um sinal de força da economia brasileira. A leitura parece simples — e sedutora: o câmbio cai, o país ganha estabilidade, o governo acerta.

Mas essa interpretação, embora politicamente conveniente, é economicamente frágil.

A taxa de câmbio, isoladamente, não é um indicador confiável de solidez estrutural. Em economias periféricas como a brasileira, ela frequentemente reflete movimentos financeiros de curto prazo — e não transformações profundas na capacidade produtiva ou no padrão de desenvolvimento.

Mais do que isso: a atual valorização do real repousa sobre um mecanismo que, longe de ser virtuoso, carrega custos elevados e riscos conhecidos.

O motor oculto: juros altos e capital especulativo

O principal fator por trás da valorização do real não é um salto de produtividade, nem uma mudança estrutural na economia brasileira. É o diferencial de juros.

O Banco Central do Brasil mantém uma das maiores taxas reais de juros do mundo. Isso transforma o país em destino privilegiado para operações de curto prazo — o chamado carry trade.

O mecanismo é conhecido: investidores captam recursos em moedas com juros baixos — como o dólar — e aplicam em ativos denominados em reais, capturando o diferencial. Esse fluxo aumenta a demanda por reais e pressiona o câmbio para baixo.

Mas há um problema fundamental: esse tipo de entrada de capital não está comprometido com o país. Não financia investimento produtivo, não amplia capacidade industrial, não gera transformação tecnológica. É capital volátil, sensível a qualquer mudança nas condições globais.

Celebrar esse movimento como uma conquista econômica é confundir atração de rentismo com desenvolvimento.

O preço interno da “moeda forte”

A valorização do real, quando sustentada por juros elevados, cobra um preço alto dentro da economia.

Ela reduz a competitividade da indústria nacional, encarece exportações e favorece importações. O resultado é conhecido: desindustrialização progressiva, fragilização do setor produtivo e maior dependência de commodities.

Além disso, os juros elevados que sustentam esse arranjo comprimem o crescimento doméstico.

  • encarecem o crédito 
  • desestimulam investimento 
  • travam o consumo 

Ou seja: o mesmo mecanismo que valoriza o real é o que limita a expansão da economia real.

Há, portanto, uma contradição evidente: a moeda se fortalece enquanto a base produtiva permanece estagnada.

Há ainda um efeito menos debatido, mas economicamente relevante: a valorização do real desorganiza a dinâmica do turismo, com impactos diretos sobre o PIB. Ao baratear viagens internacionais, estimula-se o deslocamento de brasileiros para o exterior, transferindo renda, consumo e emprego para outras economias. Simultaneamente, o Brasil torna-se relativamente mais caro para estrangeiros, reduzindo a atratividade do turismo receptivo. O resultado é duplo: enfraquecimento do setor de serviços — intensivo em mão de obra — e deterioração de uma fonte importante de entrada de divisas. Em vez de operar como vetor de dinamização econômica interna, o turismo passa a funcionar como canal de vazamento de demanda, contribuindo para limitar o crescimento doméstico.

Entre o curto prazo e a armadilha estrutural

O problema se agrava quando se considera a natureza cíclica desses fluxos.

O mesmo capital que entra rapidamente pode sair com igual velocidade. Basta uma mudança na política monetária do Federal Reserve (Banco Central estadunidense), uma deterioração do cenário internacional ou aumento da percepção de risco.

Quando isso ocorre, o movimento rapidamente se inverte: o real se desvaloriza abruptamente, os preços sobem e a instabilidade retorna.

Esse padrão não é novo. Ele define, há décadas, a inserção financeira de economias emergentes e do Brasil.

A valorização atual, portanto, não é sinal de ruptura com esse modelo — é mais um episódio dentro dele.

O equívoco político

Há um risco adicional, que é político.

Ao tratar a valorização do real como evidência de sucesso, o governo acaba legitimando um arranjo macroeconômico que opera contra seus próprios objetivos de crescimento, reindustrialização e inclusão.

Não se trata de negar avanços pontuais, nem de ignorar ganhos no controle inflacionário. Trata-se de reconhecer que o instrumento utilizado — juros persistentemente elevados — produz efeitos colaterais profundos.

A questão central não é se o real está mais forte hoje. É a que custo — e para quem.

Uma moeda forte não é, por si só, um projeto de país

Ao contrário do que sugere o entusiasmo atual com uma moeda valorizada, a própria trajetória de industrialização brasileira mostra que o câmbio desempenhou, em diversos momentos, papel ativo como instrumento de desenvolvimento. 

Durante fases decisivas — do processo de substituição de importações no pós-guerra aos ajustes adotados após crises externas — a desvalorização cambial foi utilizada para proteger e impulsionar a indústria nascente, encarecendo importações, ampliando a competitividade das exportações e criando espaço para o adensamento produtivo interno.

Não se tratava de um efeito colateral, mas de uma estratégia deliberada de política econômica, em que o câmbio operava como variável de coordenação do crescimento. 

Ao abandonar esse instrumento em favor de uma valorização sustentada por juros elevados e fluxos financeiros de curto prazo, o país não apenas perde margem de manobra, como também se afasta de uma experiência histórica que foi central para a construção de sua base industrial.

A história econômica mostra que países que se desenvolveram não o fizeram ancorados em moedas valorizadas por fluxos financeiros de curto prazo.

Fizeram-no com investimento, política industrial, expansão da capacidade produtiva e coordenação macroeconômica.

Uma taxa de câmbio apreciada, sustentada por juros elevados, pode até produzir alívio momentâneo — especialmente via inflação menor. Mas não substitui estratégia de desenvolvimento.

Confundir esse alívio com vitória é um erro analítico.E, mais do que isso, um risco político.

Porque transforma um sintoma em conquista — e uma fragilidade em narrativa de sucesso.

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* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.