A importância do afro empreendedorismo no Brasil

Os preconceitos ainda são os mesmos. Mas os tempos são outros e as novas ideias, se construídas em uníssono, trarão resultados mais satisfatórios, não apenas para a população preta, mas também para a economia do país. Viva o afro empreendedorismo! Viva a resistência!

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Embora a maioria dos empresários negros tenham os seus negócios classificados como micro e pequenos empreendimentos e tenham decidido empreender motivados pela necessidade ou pela falta de oportunidades no chamado mercado formal de trabalho, uma pesquisa feita pelo Instituto Feira Preta em parceria com a JP Morgan, mostra que os negros movimentam uma renda própria de R$ 1,7 trilhão por ano. Apesar desse número, a mesma pesquisa mostrou que um empreendedor negro tem como média salarial, a metade da média de remuneração de um empreendedor branco.

Como é a principal vítima do racismo nas relações institucionais, a população negra não se identifica com a comunicação, pois sempre foi excluída desta sistematicamente. Principalmente, no ambiente publicitário, onde os brancos sempre foram os protagonistas das campanhas, porque os empresários brancos sempre tiveram o “cuidado” de não associar as suas marcas aos negros. A ideia de que preto não vende e não transmite credibilidade, era seguida como regra básica no manual da boa publicidade.  

Recentemente, viralizou um vídeo como uma fala do publicitário Enio Mainardi, pai do jornalista Diogo Mainardi, e que faleceu no ano passado, onde ele diz: “Eu, pessoalmente, não botaria um preto nos meus comerciais porque eu acho que o preto desvaloriza o produto anunciado. Eu acho que as poucas vezes que o preto apareceu num comercial, ele apareceu pra compor politicamente… E mais: o negro não quer ser negro, né?” A declaração foi dada em 1988, mas de lá pra cá, pouca coisa mudou. Os clichês sociais e os preconceitos, seja no meio publicitário ou no setor corporativo, ainda dão o tom do discurso e da pele a ser privilegiada.

Diante disso, o afro empreendedorismo passou a ter um papel muito importante na dinâmica das relações comerciais no Brasil. Movimentos como o “Black Money”, que estimula não apenas o consumo de produtos e serviços oferecidos por empreendedores negros, como também a valorização da negritude e o sentimento de pertencimento social da população preta, mexeu com as estruturas comerciais da branquitude e obrigou o mercado empresarial e publicitário a reverem os seus conceitos e a se mostrarem mais abertos à diversidade.

Investir na comunidade afro empreendedora, reforçando a importância de utilizar o poder de compra dos afrodescendentes, é a diretriz principal do empreendedorismo negro. A estratégia visa manter o dinheiro circulando entre pessoas negras, gerando emprego, renda e promovendo a integração da população negra à sociedade e ao sistema financeiro. É o método administrativo da resistência, o marketing da resiliência, combatendo as desigualdades sociais e econômicas estabelecidas estruturalmente.

O programa Shark Tank Brasil, versão brasileira do reality show norte-americano exibido no Sony Channel, traz investidores interessados em apoiar financeiramente grandes ideias de novos empreendimentos. Para conseguirem o apoio, os empreendedores precisam convencer a estes investidores de que vale a pena investir no seu negócio. O elenco de sharks (tubarões) investidores do projeto, é composto por empresários brancos. O que, de acordo com a preferência racial do “mainstream” corporativo, pode reduzir as chances de investimento em algum projeto de algum empreendedor negro.

O 7º episódio da 5ª temporada do reality, que foi ao ar no último dia 22 de janeiro, trouxe como shark convidada a empresária, palestrante e ex consulesa da França em São Paulo Alexandra Loras e tinha como objetivo mostrar a importância de se investir no empreendedorismo das comunidades do país. Região majoritariamente habitada pela população negra. Esta edição do programa mostrou a história de uma empreendedora negra, que montou uma loja on line para comercialização de bonecas negras. Ela tem o sonho de abrir um e-commerce e deixar o seu emprego formal para dedicar-se apenas ao seu próprio negócio.

Jozi Belisário, a criadora da loja chamado “Aneesa”, apresentou o seu empreendimento como um negócio que visa, além do lucro, promover representatividade. Ela inicia a sua apresentação lembrando que 54% da população brasileira se declara negra. No entanto, apenas 7% das bonecas comercializadas no mercado tem a mesma cor. Ela ofereceu 10% de sua empresa, em troca de um investimento de R$ 50 mil. Alexandra Loras e Camila Farani toparam investir no projeto de Jozi, mas por 20% da empresa. O que foi aceito pela empreendedora.

Tive o prazer de entrevistar Alexandra Loras no meu programa “Um Tom de resistência”, na TV 247 e já acompanhava de perto o seu ativismo no sentido de dar representatividade à população negra no Brasil. O seu engajamento na luta contra o racismo e em outras questões sociais, fez com que ela se tornasse uma das importantes vozes da militância racial no país e uma das principais incentivadoras do afro empreendedorismo no Brasil. Durante nossa conversa no programa, ela já havia lamentado o fato de o Brasil, apesar de ter a maioria da população negra, ter poucos negros como referência.

Apoiar o afro empreendedorismo, também pode ser uma forma de reparação histórica, através da geração de oportunidades que criem uma cadeia produtiva onde os negros sejam os donos dos meios e produção, e, assim, promover mais inclusão social e econômica. O sucesso de empreendedorismo negro, também está atrelado ao processo de desconstrução da atual estrutura e do pensamento racializado apresentado pelo falecido publicitário Enio Mainardi, de que o negro não se valoriza e não confia na sua representatividade.

Os preconceitos ainda são os mesmos. Mas os tempos são outros e as novas ideias, se construídas em uníssono, trarão resultados mais satisfatórios, não apenas para a população preta, mas também para a economia do país. Viva o afro empreendedorismo! Viva a resistência!

 

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