A impunidade sem freios e a moral dos farrapos
Perplexidade e indignação. Estes foram os sentimentos que invadiram a alma de observadores que, por paixão ou por hábito, seguem os movimentos do Congresso
Perplexidade e indignação. Estes foram os sentimentos que invadiram a alma de observadores que, por paixão ou por hábito, seguem os movimentos do Congresso. Tratava-se de abolir o veto ao “projeto da dosimetria”, visando reduzir as penas dos condenados pelo 8 de janeiro. Numa nação que ainda sofre com sobressaltos na afirmação de suas escolhas, nunca se sabe até que ponto ameaçam nossas instituições. Afinal, vivemos entre o caos e a ordem, em meio a esforços no sentido de preservar conquistas, entre as quais o sistema democrático. O tal projeto tem a ver com a soltura de gente que conspirou para dar um golpe de estado e que, tudo indica, é bem capaz de reincidir.
Quis a ironia, sempre à espreita, que a seção convocada e presidida por Davi Alcolumbre, tivesse lugar na véspera do dia do trabalhador, o 1o maio, quando as atenções devem se concentrar nos ganhos obtidos pelo povo. Ali, entretanto, o que se viu foi uma maquinação facciosa no sentido de apagar a gravidade de fatos traumáticos, quando por um triz não se interrompeu a normalidade visando perpetuar no poder Jair Bolsonaro. Como nos aproximamos do período eleitoral, acendem-se as ambições, em especial no coração daqueles que temem perder a corrida. O 01, apesar do apoio de setores da imprensa oficial, dificilmente derrotará um homem da qualidade política de Luís Inácio Lula da Silva, consagrado no mundo como estadista extraordinário e quadro de forte sensibilidade social. Em função disso, iniciam-se as tratativas no sentido de desgastá-lo e enfraquecê-lo, no caso presente, por meio de iniciativas parlamentares.
Medidas em favor da impunidade, é claro, comprometem expectativas de justiça em todos os níveis, pesando particularmente nos menos favorecidos. Por isso, em nome de uma distribuição equitativa entre os elementos em jogo, desenvolve-se um padrão moral a ser defendido até (caso necessário) com unhas e dentes. Colocar bandidos em liberdade, antes que arquem com os prejuízos que conferiram contra a comunidade, fere os costumes. Nenhum país que preze a tranquilidade age assim. O tempo mostrou que, tolerados, infratores se repetem. Grandes nomes do passado, vinculados a momentos de tensão, como Ulisses Guimarães, Tancredo Neves ou Leonel Brizola, nos ensinaram que a evolução requer eterna vigilância.
Uma vez aprovada a quebra do veto, o clamor dos vitoriosos ecoou no recinto. Nas ruas, o silêncio podia ser medido por decibéis de inquietação. Para onde aquela gente pretendia nos levar? Por sorte, temos no Planalto alguém dotado de serenidade e habilidade, de outro modo sufocaríamos. Graças a isso, podemos apostar, o “Rachadinha” e seus asseclas, façam o que fizerem, não chegarão lá.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
