A intervenção imperialista na Venezuela e o despertar de um Brasil soberano
A intervenção na Venezuela é um divisor de águas para o Brasil. Ela nos obriga a olhar para nossas fragilidades e a fazer escolhas que definirão nosso futuro
A madrugada de 3 de janeiro de 2026 ficará marcada na história da América Latina como o momento em que a sombra do imperialismo se projetou mais uma vez sobre o continente. A intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, culminando na captura do presidente Nicolás Maduro, não é apenas um evento de repercussões geopolíticas globais, mas um catalisador de profundas transformações na política brasileira, cujos efeitos já se fazem sentir e prometem redefinir a conjuntura eleitoral de 2026.
O ataque, justificado por Washington como uma operação contra o narcoterrorismo, reintroduz com força no debate público brasileiro temas que pareciam adormecidos: o imperialismo, o nacionalismo e a soberania. A reação imediata do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que classificou a ação como uma "flagrante violação do direito internacional" e um "perigoso precedente", sinaliza a centralidade que a defesa da autonomia nacional ocupará no cenário político vindouro.
Este novo contexto geopolítico impõe ao Brasil uma série de demandas inadiáveis, que colidem frontalmente com o projeto político hegemônico da última década. A primeira e mais evidente é a necessidade de rearmamento e reaparelhamento das Forças Armadas. A presença de um conflito de alta intensidade em nossa fronteira expõe a vulnerabilidade de um país que, por anos, negligenciou seus investimentos em defesa. A defesa da soberania, neste novo mundo, não se fará apenas com discursos, mas com capacidade dissuasória.
Em segundo lugar, a crise na Venezuela fortalece a demanda por um Estado nacional forte, identificado com o Executivo federal. Em momentos de grave ameaça externa, a dispersão de poder e a fragmentação política se tornam um luxo perigoso. A necessidade de uma resposta unificada e estratégica à crise tende a centralizar poder nas mãos do presidente da República, responsável constitucional pela defesa e pelas relações exteriores. Este movimento, contudo, não se dará sem atritos, especialmente com um Congresso acostumado a ditar os rumos do orçamento e a impor derrotas ao Planalto.
Por fim, a intervenção na Venezuela acende um alerta sobre a dependência econômica do Brasil em setores estratégicos. A vulnerabilidade em áreas como tecnologia, energia e defesa se torna inaceitável em um cenário de instabilidade regional. A busca por maior autonomia e por um projeto de desenvolvimento nacional, com foco na industrialização e na inovação, ganhará novo ímpeto, desafiando o dogma neoliberal que marcou as últimas décadas.
Estas três demandas, rearmamento, fortalecimento do Estado e redução da dependência, entram em rota de colisão direta com o projeto oligárquico do Centrão. Este agrupamento político, fisiológico por natureza, prospera na fraqueza do Executivo, na distribuição de verbas públicas para redutos eleitorais e na manutenção de um status quo que privilegia interesses paroquiais em detrimento de um projeto estratégico para o país. A agenda nacionalista que emerge da crise na Venezuela é, em sua essência, antagônica ao Centrão.
O embate entre um projeto de Brasil soberano e o fisiologismo do Centrão será o pano de fundo da eleição presidencial de 2026. A crise venezuelana acelera a polarização entre dois modelos antagônicos: de um lado, um projeto nacional-desenvolvimentista, que defende um Estado forte, a soberania nacional e a integração latino-americana; de outro, um projeto neoliberal e alinhado aos interesses de Washington, que vê na intervenção uma oportunidade de negócios e de enfraquecimento dos movimentos populares da região.
Neste cenário, o bolsonarismo, com sua tradicional subserviência a Washington, e a direita liberal, que sempre viu com bons olhos a tutela americana sobre a região, tendem a se alinhar com a intervenção. A comemoração de líderes da oposição à captura de Maduro é um indicativo claro do posicionamento que adotarão no debate que se avizinha. O Centrão, por sua vez, se verá diante de um dilema: aderir à nova onda nacionalista, em uma tentativa de sobrevivência política, ou se manter fiel a seu projeto de poder, correndo o risco de ser atropelado pelos acontecimentos.
A intervenção na Venezuela, portanto, é um divisor de águas para o Brasil. Ela nos obriga a olhar para nossas próprias fragilidades e a fazer escolhas que definirão nosso futuro. A defesa da soberania, o fortalecimento do Estado e a busca por um desenvolvimento autônomo não são mais apenas bandeiras de um campo político, mas imperativos de sobrevivência em um mundo cada vez mais perigoso e instável. A eleição de 2026 não será apenas sobre economia ou políticas sociais, mas sobre o lugar que o Brasil ocupará no mundo. A sombra do império nos assombra, mas também pode ser o estopim para o despertar de um Brasil verdadeiramente soberano.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

