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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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A invenção dos inimigos

A recusa em ouvir adversários transforma democracias em arenas de intimidação coletiva. Platão percebeu isso há mais de dois mil anos

A invenção dos inimigos
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A democracia começa a se deformar quando líderes políticos abandonam o debate e passam a governar movidos pela lógica da hostilidade permanente. O adversário deixa de ser alguém a ser convencido. Passa a ser tratado como ameaça moral, obstáculo político ou inimigo a ser neutralizado.

O problema não está apenas na radicalização verbal. Está na transformação da política numa estrutura emocional baseada em ressentimento, intolerância e recusa deliberada ao diálogo. Poucos filósofos compreenderam isso com tanta clareza quanto Platão.

No início de A República, uma cena aparentemente simples contém uma das advertências políticas mais atuais já escritas. Após um festival religioso no Pireu, Sócrates e Glauco preparam-se para retornar à cidade quando são interceptados por Polemarco e um grupo de acompanhantes.

A conversa começa em tom cordial. Mas muda rapidamente de natureza.

— Sócrates, vocês já vão embora?

— Sim, estamos de partida.

— Mas vocês perceberam quantos somos?

A frase altera completamente o sentido do diálogo. O argumento deixa de ser racional. Passa a ser numérico. A autoridade nasce da pressão coletiva, da força do grupo, da intimidação silenciosa produzida pela maioria.

Sócrates ainda tenta preservar o espaço da razão:

— E se conseguirmos convencê-los a nos deixar partir?

A resposta de Polemarco atravessa os séculos:

— E se nos recusarmos a ouvir?

Nesse instante, Platão desmonta uma das ilusões mais perigosas da política: a crença de que a maioria, por si só, garante legitimidade moral. Não garante.

Uma multidão que se recusa a ouvir transforma a democracia numa estrutura de coerção emocional e intimidação coletiva.

O mais perturbador é perceber o quanto essa passagem permanece viva no século XXI.

Boa parte do populismo contemporâneo opera exatamente dessa maneira. Não busca persuadir. Busca mobilizar emoções primárias. Não constrói debate público. Constrói pertencimento tribal.

O líder populista precisa manter sua base em estado constante de irritação, medo ou ressentimento. Sua força depende menos da qualidade dos argumentos e mais da fidelidade emocional do grupo.

Nesse ambiente, o adversário político deixa de ser visto como parte legítima da democracia. Passa a ser tratado como traidor, corrupto por definição, inimigo do povo ou ameaça existencial.

O diálogo vira sinal de fraqueza. A intolerância passa a ser apresentada como coragem moral.

Allan Bloom observava que Platão identificava precisamente o momento em que o logos — a razão argumentativa — começa a ser substituído pela força psicológica da multidão. Leo Strauss via nessa cena o nascimento simbólico da tirania disfarçada de cordialidade social.

Julia Annas chamava atenção para outro ponto decisivo: democracias tornam-se frágeis quando cidadãos deixam de aceitar a legitimidade de opiniões divergentes.

O século XXI ampliou brutalmente esse fenômeno.

As redes sociais transformaram a política numa arena de impulsos rápidos, humilhações públicas e recompensas emocionais instantâneas. A indignação converteu-se em ativo político. O insulto produz mais engajamento do que a reflexão.

A simplificação agressiva passou a valer mais do que a complexidade dos fatos.

Não por acaso, líderes populistas prosperam em ambientes saturados por insegurança econômica, ansiedade cultural e desconfiança institucional. Eles oferecem algo sedutor: a falsa sensação de clareza absoluta.

Dividem o mundo entre patriotas e traidores, cidadãos de bem e inimigos internos, puros e corruptos. Eliminar nuances torna-se parte central da estratégia política.

A História mostra como esse mecanismo pode se tornar devastador.

Na Europa dos anos 1930, movimentos autoritários cresceram alimentando ressentimentos nacionais e fabricando inimigos permanentes. No Japão imperial, a expansão militar era apresentada como missão moral de reorganização asiática.

Durante séculos, guerras religiosas foram justificadas como campanhas em defesa da verdade e da civilização. Em todos esses casos, a lógica era semelhante: transformar hostilidade em virtude política.

O populismo contemporâneo frequentemente faz o mesmo, embora adaptado às democracias de massa e ao ambiente digital.

A agressividade deixa de ser defeito e passa a ser vendida como autenticidade. A grosseria vira prova de coragem. O desprezo pelo contraditório transforma-se em demonstração de liderança.

Mas democracias não sobrevivem apenas de eleições periódicas. Sobrevivem da aceitação de limites, do respeito institucional e da disposição de reconhecer humanidade até mesmo em quem pensa diferente.

Quando desaparece essa disposição, a política deixa de produzir convivência civilizatória. Passa a produzir facções mobilizadas por ódio permanente.

Platão percebeu isso antes de todos nós.

Quando Polemarco anuncia que não pretende ouvir Sócrates, o filósofo grego não está apenas descrevendo um episódio casual numa praça ateniense. Está descrevendo o instante exato em que a democracia começa a perder sua alma.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.