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Francisco Calmon

Combatente da ditadura desde a adolescência, prisioneiro nos cárceres da ditadura do Doi-Codi ao HCE. Advogado, administrador e analista de TI. Organizador da RBMVJ e do Canal Pororoca.  Autor e organizador de vários livros, entre eles “60 anos do golpe: gerações em luta”.

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A Justiça que procura corresponder à expectativa da plateia

A Justiça que procura corresponder à expectativa da plateia busca aplausos e abandona o rigor da técnica jurídica

A Justiça que procura corresponder à expectativa da plateia (Foto: Agência Brasil)

Marielle incomodava o sistema. Era síntese da luta de classes: trabalhadora, mulher, negra, da periferia, LGBT, ativista política, empoderada institucionalmente como uma das vereadoras mais combativas.

O assassinato de Marielle tinha rastros e evidências que convergiam para as casas dos Bolsonaros como mandantes.

Aí, o assassino, delator premiado, desvia os indícios e evidências e aponta para os irmãos Brazão.

Pronto! Encerrado o caso, mesmo sem uma cadeia de causalidade sólida. Estranho, não?

Moro, quando ministro da Justiça de Bolsonaro, foi falar com o porteiro do condomínio da Barra da Tijuca, residência da família, constrangendo-o, provavelmente ameaçando-o, e o cara sumiu? Ninguém sabe, ninguém viu, quando deveria ter ficado sob proteção. Cadê o porteiro, ou a culpa é do mordomo?

Essa reviravolta no caso Marielle realmente levanta suspeitas. Os indícios contra os Bolsonaros eram fortes e concretos; não dá para simplesmente ignorá-los sem explicações convincentes de uma cadeia de causalidade.

A delação de Lessa mudou tudo; delação de criminoso não pode ser verdade absoluta, ainda mais quando premiada e sem provas sólidas. E a linha do porteiro/condomínio foi descartada de forma muito superficial, considerando as conexões óbvias da milícia com aquele núcleo.

Os condenados podem ser os maiores bandidos; contudo, à medida que a linha que levava ao clã Bolsonaro foi descartada sem maiores explicações, ficou um mistério no ar, uma inquietude quanto à perícia da Justiça.

Isso não significa inocentar os Brazão, mas, sim, questionar: por que a linha investigativa que apontava para a casa de Jair Bolsonaro, com conexões factuais e testemunhos, foi tão facilmente desacreditada?

Enquanto o bolsonarismo comemora o fato de o "clã" não ter sido formalmente acusado, a esquerda governista utiliza a resolução do caso como um trunfo político da gestão Lula e da Polícia Federal. A verdade material, nesse jogo, talvez tenha ficado em segundo plano.

No entanto, a análise de conjuntura nos obriga a olhar para o que as estruturas não dizem. O "canhão" da investigação, para usar a expressão do delator, foi desviado. Os rastros que levavam ao núcleo político-midiático-militar que ascendeu com o bolsonarismo foram apagados pela versão "oficial" do inquérito.

A Justiça, ao eleger os Brazão como a personificação do mal, absolve o sistema que os criou e os manteve no poder por décadas.

Viver para ver. Viveremos para ver se as investigações sobre as conexões da milícia com o alto clero da política nacional serão retomadas. Viveremos para ver se a "memória" da qual falou o ministro Cristiano Zanin será seletiva ou se, de fato, servirá para impedir que novas Marielles sejam assassinadas.

Enquanto o "gabinete do ódio" e o "escritório do crime" forem duas faces da mesma moeda, a frase de Marielle continuará mais viva do que nunca: "Não nos matarão o sonho da liberdade".

Para a história, este caso não está encerrado. Viver para ver.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.