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José Reinaldo Carvalho

Jornalista, editor internacional do Brasil 247 e da página Resistência: http://www.resistencia.cc

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A lição da Comuna de Paris: os trabalhadores podem tomar o poder

A Comuna de Paris foi a demonstração de que os explorados podem organizar a vida sem opressores e exploradores

Comuna de Paris (Foto: Creative Commons)

Por José Reinaldo Carvalho - Há exatos 155 anos, no dia entre 18 de março de 1871, as massas trabalhadoras francesas insurgiram-se contra o poder das classes dominantes e fundaram a Comuna de Paris. Desde então, até 28 de maio de 1871, protagonizaram o primeiro ensaio geral da tomada do poder político, um "assalto aos céus", como designou Marx, que até hoje ecoa como uma ameaça real à ordem burguesa. A Comuna de Paris foi a demonstração de que os explorados podem organizar a vida sem opressores e exploradores, sem verdugos fardados de generais e sem o jugo do Estado a serviço do capital.

O Governo dos trabalhadores 

Em meio à humilhação da derrota na Guerra Franco-Prussiana e ao cerco de Paris, enquanto a burguesia se acovardava em Versalhes, o povo da capital francesa ergueu barricadas e, pela primeira vez na história, colocou o poder nas mãos do proletariado. Durante 72 dias, a Comuna não foi apenas um levante, mas a cristalização de uma nova forma de governar e viver. Os trabalhadores assumiram a gestão econômica, decretaram a separação definitiva entre Igreja e Estado, instituíram o ensino laico e gratuito, e estabeleceram que qualquer funcionário público deveria receber um salário de operário, eliminando o privilégio da alta burocracia, e todos os cargos tornaram-se eletivos e passíveis de revogação imediata, um golpe mortal na velha casta estatal que sempre serviu à burguesia.

As mulheres  tiveram protagonismo inegável, organizando-se na União das Mulheres para a Defesa de Paris e os Cuidados aos Feridos, provando que a revolução social só se completa com a libertação feminina. 

A Comuna de Paris praticou a emancipação em cada decreto, em cada decisão tomada nas sessões públicas do Conselho da Comuna. Foram 72 dias de um laboratório social revolucionário que antecipou em décadas as grandes conquistas da humanidade trabalhadora. Como observou Karl Marx, a grandeza da Comuna residia na descoberta de uma forma política concreta para a emancipação das massas trabalhadoras. Para ele, a Comuna era "a forma política finalmente descoberta para se levar a cabo a emancipação econômica do trabalho" . Era a prova viva de que "os trabalhadores queriam organizar sua própria vida social de acordo com princípios de associação e cooperação" . Foi o ensaio geral do desmantelamento das hierarquias estatais das classes dominantes e da criação e criando, na prática do dia a dia, uma nova forma de democracia. 

A semana sangrenta

Naturalmente, essa ameaça à dominação burguesa não poderia ficar impune. A elite refugiada em Versalhes, sob o comando de Adolphe Thiers, articulou-se com os invasores alemães para sufocar a Comuna. O resultado foi a "Semana Sangrenta" (21 a 28 de maio), um dos maiores massacres de trabalhadores da história europeia. Estima-se que entre 20 e 30 mil communards foram fuzilados sumariamente nas ruas e no famoso Muro dos Federados no cemitério Père Lachaise . Cerca de 45 mil foram presos e milhares deportados . A ferocidade com que a burguesia reagiu revelou o medo profundo que a Comuna incutira: o medo de que os de baixo, enfim, tivessem descoberto o caminho para não mais largar o poder.

As lições estratégicas

Apesar de seu esmagamento militar, o triunfo político da Comuna é perene. Ela legou ao proletariado mundial lições indispensáveis, sistematizadas posteriormente por Lenin. Em seu texto "Ensinamentos da Comuna", Lenin destaca a necessidade de não repetir os erros da excessiva generosidade e da hesitação: "o proletariado não deve esquecer jamais que, em determinadas condições, a luta de classes adota a forma de luta armada e de guerra civil; há momentos em que os interesses do proletariado exigem um extermínio implacável dos inimigos em combates frente a frente" . Para ele, a Comuna ensinou ao proletariado europeu a "propor em forma concreta as tarefas da revolução socialista", superando as ilusões patrióticas e a crença ingênua na conciliação de classes .

O heroísmo até o último cartucho

Se a criatividade política da Comuna foi extraordinária, o heroísmo dos communards na hora derradeira atingiu dimensões épicas que ainda hoje emocionam e inspiram. Quando as tropas de Versalhes, com efetivo muito superior e armamento moderno, adentraram Paris pela porta aberta da traição, encontraram pela frente não um povo acovardado, mas uma cidade transformada em fortaleza da dignidade operária. Homens, mulheres e até crianças empunharam fuzis e subiram às barricadas, construídas apressadamente em cada esquina, em cada praça. As mulheres tiveram atuação lendária, como as que lutaram na praça da Bastilha e em Montmartre, muitas delas carregando seus filhos em um braço e a bandeira vermelha no outro. 

À medida que as tropas avançavam, o martírio crescia: os fuzilamentos sumários tornaram-se rotina, e os comunards, cientes de que não haveria clemência, lutaram com a bravura de quem sabe que sua causa é justa. O episódio mais simbólico dessa resistência heroica ocorreu no cemitério Père Lachaise, onde os últimos 147 combatentes, cercados e sem munição, foram enfileirados contra um muro e executados. Seu sacrifício, porém, não foi em vão. Aquele muro tornou-se sagrado para o proletariado mundial, local de peregrinação e memória, onde todos os anos os trabalhadores de todos os países renovam o juramento de lutar até que a exploração seja varrida da face da terra.

A traição nacional da burguesia

Se há um aspecto que expõe como nenhum outro a podridão moral da burguesia enquanto classe dominante, foi a aliança explícita entre o governo de Versalhes, comandado por Adolphe Thiers, e o invasor alemão que até à véspera humilhava a França. Durante a guerra contra a Prússia, a burguesia francesa mostrou-se incapaz de organizar a defesa nacional, preferindo render-se e entregar territórios a armar o povo. Mas quando os trabalhadores de Paris, justamente os mesmos que haviam suportado o cerco e a fome, ousaram pegar em armas para defender a cidade e proclamar seu próprio governo, a "grande burguesia patriota" não hesitou um segundo. Thiers, esse anão político que Marx descreveu como "monstro de mediocridade", negociou com Bismarck a libertação de dezenas de milhares de prisioneiros de guerra franceses para que estes, sob comando dos generais versalheses, pudessem massacrar os trabalhadores parisienses. Em troca, a burguesia francesa aceitou humilhantes condições de paz e o pagamento de indenizações bilionárias à Alemanha. A classe dominante provou, assim, que seu patriotismo é uma farsa: quando o inimigo de classe está diante dela, prefere aliar-se ao inimigo estrangeiro a ceder qualquer parcela de poder ao proletariado. 

Os canhões apontados para Paris pelas tropas de Versalhes haviam sido fabricados na Alemanha e entregues pela generosidade do inimigo nacional. Este episódio ensina às gerações futuras uma verdade incontornável: a burguesia não tem pátria quando seus privilégios estão em jogo; sua única pátria é a exploração, e diante da ameaça comunista, todas as fronteiras se dissolvem na aliança contra a revolução.

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Hoje, ao celebrarmos 155 anos desse marco, não se trata de olhar para o passado com nostalgia, mas de extrair a coragem e a criatividade daqueles trabalhadores para as lutas atuais. O grito dos communards por moradia digna, educação pública, fim da exploração e igualdade de gênero ressoa com força redobrada em tempos de crise do capital. A Comuna nos lembra que a conquista e o exercício do poder político pelo proletariado é uma possibilidade real.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.