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Julimar Roberto

Comerciário e presidente da Contracs-CUT

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A luta para nos desinformar continua

O Brasil já pagou caro demais pela desinformação. A informação é poder. Por isso mesmo, distorcê-la é uma forma de abuso que precisa ser enfrentada

Fake news (Foto: Wilson Dias / Agência Brasil)

Sinto saudades do tempo em que o fuxico passava de boca em boca e, a partir daí, seguia seu caminho. Espalhava-se, é verdade, mas levava algum tempo. Hoje é diferente. O fuxico, a maledicência, a difamação e a mentira propriamente dita voam longe em uma velocidade assustadora. Os veículos são os mais sofisticados possíveis, da televisão aos grupos de família no WhatsApp e às redes sociais. E, muitas vezes, essas fake news chegam travestidas de opinião ou até de testemunho pessoal, embaladas por frases como “eu vi”, “tenho certeza” ou “claro que foi assim”.

Nesta mesma semana, o Brasil assistiu à estreia do Big Brother Brasil 2026 já marcada por uma informação falsa dita em rede nacional sobre um dos programas sociais mais importantes do país. Ao mesmo tempo, boatos infundados sobre uma suposta “taxação do Pix” se espalharam como rastilho de pólvora na internet. Nada disso é coincidência. Trata-se de mais um capítulo da guerra permanente contra a verdade.

O episódio envolvendo o reality de maior audiência da TV brasileira foi lamentável. Durante uma conversa exibida em horário nobre, a atriz Solange Couto afirmou que o Bolsa Família estimularia jovens a abandonar os estudos e começar a ter filhos, reforçando um preconceito antigo e já desmentido inúmeras vezes. A realidade é exatamente o oposto. O programa exige frequência escolar mínima de crianças e adolescentes como condição para o recebimento do benefício. Trata-se de um princípio central da política pública, que associa combate à pobreza com permanência na escola. A resposta rápida do governo federal, esclarecendo os fatos em seus canais oficiais, foi necessária e correta. Quando a ignorância, a má fé e a mentira ganham palco nacional, o silêncio vira conivência.

Enquanto isso, nas redes sociais, outra fake news ganhava corpo. A ideia de que o governo estaria cobrando imposto sobre transferências via Pix gerou medo, desinformação e abriu espaço para golpes. A Receita Federal precisou vir a público para reafirmar o óbvio. Não existe imposto sobre Pix, nem monitoramento com fins tributários. A Constituição proíbe tributos sobre movimentação financeira e nenhuma mudança nesse sentido foi feita. O que houve foi apenas a ampliação de regras de prevenção à lavagem de dinheiro para fintechs, algo que já existia no sistema bancário tradicional e não atinge o grande público. Ainda assim, a mentira cumpriu seu papel. Criou pânico, minou a confiança em um sistema público eficiente, serviu de isca para criminosos e foi um dos assuntos mais explorados por aqueles que torcem contra o Brasil.

Esses dois exemplos ajudam a entender o tamanho do problema. Fake news não são inofensivas. Elas têm consequências reais e, muitas vezes, trágicas. Quem não se lembra do caso da vacinação infantil? O Brasil, que por décadas foi referência mundial em imunização, viu suas taxas despencarem. Em 2021, apenas cerca de 60% das crianças receberam vacinas básicas, o pior índice em três décadas. Essa queda não aconteceu por acaso. Foi alimentada por teorias conspiratórias, mentiras deliberadas e discursos negacionistas que circularam livremente, inclusive a partir de figuras públicas. O resultado foi o retorno de doenças que já estavam controladas e o risco concreto de mortes evitáveis. Desinformação mata, literalmente, e o prejuízo leva anos para ser reparado.

Na política, o estrago também é profundo. As eleições brasileiras recentes foram marcadas por campanhas organizadas de mentiras, especialmente nas redes sociais. Vídeos manipulados, áudios falsos, ataques às urnas eletrônicas e teorias da conspiração se espalharam em ritmo industrial. Não é exagero dizer que a democracia foi colocada sob ataque. Pesquisas indicam que a ampla maioria dos brasileiros e das brasileiras reconhece o enorme poder das fake news de interferir nos resultados eleitorais. Basta recordar o trauma coletivo de 2018 e o clima de tensão permanente que passou a marcar o processo democrático nos anos seguintes — e isso em um período em que o uso de Inteligência Artificial ainda era considerada ficção científica para a maioria. Eleições decididas por bombardeio de mentiras não expressam a vontade popular, perdem a sua função democrática.

Diante desse cenário, cresce o debate sobre responsabilidade e regulação. O Marco Civil da Internet foi um avanço histórico, mas mostrou limites diante da lógica predatória das grandes plataformas. O artigo que isenta empresas de responsabilidade direta pelo conteúdo publicado acabou criando um ambiente onde a mentira circula livremente até que o Judiciário consiga reagir. Liberdade de expressão não pode ser confundida com licença para mentir, enganar e lucrar com o caos.

Mas nenhuma lei será suficiente se a sociedade não fizer sua parte. Combater fake news exige educação midiática, jornalismo forte, plataformas responsáveis, cidadãs e cidadãos atentos. Exige parar antes de compartilhar, desconfiar de mensagens alarmistas, buscar fontes confiáveis. Exige entender que a verdade é um bem coletivo e que defendê-la é um ato político no melhor sentido da palavra.

O Brasil já pagou caro demais pela desinformação. Pagou com vidas durante a pandemia, com retrocessos sociais, com ataques às instituições democráticas, como os que culminaram no 8 de janeiro de 2023. Isso já foi longe demais. Não podemos normalizar a mentira nem tratá-la como opinião alternativa ou liberdade de expressão. Defender a verdade é defender a democracia, a saúde pública e as políticas que garantem dignidade à nossa gente.

A informação é poder. Por isso mesmo, distorcê-la é uma forma de abuso que precisa ser enfrentada. Somente com ação coletiva, consciência crítica e compromisso com os fatos conseguiremos frear a maré de desinformação. Não se trata de censura. Trata-se de responsabilidade. E essa responsabilidade também é nossa.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.