“A maleta era um saco, e o cadeado era um nó”. Nordeste nu e cru

Deixa-me orgulhoso de ser do sertão, onde o Raso da Catarina não é só um pedaço de terra árida, mas um lugar onde moram pessoas da minha convivência, com quem aprendo até hoje, a força de ser um sertanejo

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Começo o texto fazendo uma correção. O ano do encontro de reconstrução da UBES foi 1983, no mês de abril. Confiar demais na memória e não realizar uma pesquisa me fez errar. Ao ser chamado a atenção por um leitor, está feita a correção.

Mas, as memórias daqueles dias ainda são fortes em minha mente. Por ser nordestino e vir de uma época em que a região era menosprezada pela maioria das pessoas do sudeste e sul, aquele homem com uma maleta dentro de um saco amarrado pela “boca” com uma embira, era a cara do meu povo, e isto não me constrange, me deixa orgulhoso de ser do sertão, onde o Raso da Catarina não é só um pedaço de terra árida, mas um lugar onde moram pessoas da minha convivência, com quem aprendo até hoje, a força de ser um sertanejo.

Pouco tempo depois de deixarmos a lanchonete, nos dirigimos direto para o embarque, onde o ônibus da Cometa nos levaria a cidade de Campinas. Vejam vocês que até mesmo a lataria daquele automóvel para mim era algo novo. Me parecia ser de alumínio. É que a empresa não usava pintura em toda a lataria, e por isto dava essa impressão. Ao menos para mim.

Eu estava abestalhado mesmo, ao ver estradas perfeitas, vegetação que nunca antes tinha visto, estavam à beira da estrada desde São Paulo até o nosso destino. Me tomava um misto de alegria e revolta. Eu me perguntava o porquê deles terem estradas asfaltadas por todos os lados, enquanto as nossas mal recebiam melhoramentos em anos, e eram de terra batida, com pedras por todos os lados.

Ao chegarmos em campinas fomos levados para o prédio de uma escola. Não lembro o nome ou a rua onde ele ficava, muito menos se ainda existe. Fiz uma pesquisa de imagens na internet, mas não encontrei nada parecido. Mas tem algumas coisas que ainda estão na memória. Ele tinha a pintura azul. Para entrar tinha uns degraus, era bastante grande. O banheiro tornou-se comunitário após o primeiro dia. Quem chegasse primeiro ia entrando, independente do sexo. Éramos tantos, de todo o Brasil, que se tornou inevitável a formação de filas de espera por vagas. E foi assim que descobri o que é frio. Campinas queimava de frio para os nordestinos, enquanto a turma do sul andava de camisetas.

Encontramos uma sala com colchões e fomos logo invadindo e colocando uma folha com a informação de que ali estava a embaixada da Bahia. E olha que só estávamos em quatro. Depois foram chegando outras delegações. Era interessante e nos fazia rir. Quando olhavam para nós, do Nordeste, ninguém ficava. E nós curtíamos no primeiro momento. Depois foi ficando chato. Era mesmo discriminação. Então, quando outros tentavam entrar, já íamos logo gritando, “tá ocupado. Não tem mais vagas”. Até que uma delegação de Caxias do Sul ao ouvir, pediu para ficar ali conosco, pois não tinha mais vagas na escola.

Eram três garotas e uns cinco rapazes. Acho que aceitamos porque as meninas eram muito lindas. E durante os dias fiz amizade com uma delas. Com o passar dos dias ficamos inseparáveis, a noite também. Não, não teve nada, a não ser a amizade daqueles dias. Nós viramos confidentes das rejeições que víamos contra cada grupo. Ela, por ser “careta”, assim como eu e meus amigos, éramos como ETs naquele meio.

O encontro ocorreu em um Ginásio de Esportes da cidade. Encontrei na internet fotos daqueles dias. E em um deles, anunciaram a presença do líder da OLP - Organização para a Libertação da Palestina, o Yasser Arafat. A minha expectativa era muito grande. Eu iria ver um uma pessoa da esquerda de expressão mundial. E naquela tarde, de um dia que se quer lembro qual foi na semana, vi aquela pessoa entrar no palco. Sentar em uma poltrona com o seu Keffiyeh (turbante) em preto e branco que se tornou a sua marca. O interessante para a vida, é que todas as vezes que o via na TV, lembrava desse dia.

A luta política por espaços me mostrou, já naqueles dias, que são resolvidas antes mesmo de chegarmos lá. Foi uma lição para o matuto aqui. O que me chocava, hoje alimenta minha experiência de vida.

Em alguns momentos, o cansaço era tão grande durante os dias, que teve horas que me senti bêbado. Mas era só por estar acordado por longos períodos mesmo.

Ao final, descobrimos que as passagens que nos seriam dadas pela turma do PCB – Partido Comunista Brasileiro, não apareceram. Bateu o desespero em alguns. Resolvi chamar aqueles que queriam, e fui para uma esquina com sinaleira e comecei a pedir ajuda. Na verdade, pedir esmola mesmo. Conseguimos arrecadar para lanches, não para outras coisas. Pressionamos uma das pessoas de São Paulo e responsáveis pelas delegações a resolver este problema, dos vários que estavam na mesma situação. Fomos até a prefeitura da cidade. O prefeito a época era o José Roberto Magalhães Teixeira. Fomos dois dias lá. E nada do cara nos receber. Resolvemos acampar na entrada da Prefeitura. Foi aí que o cara resolveu falar conosco. Falou, prometeu, mas nada resolveu.

Já era dia de semana e nós continuávamos na escola sem ter para onde ir. Eram várias delegações por lá ainda, tentando uma saída. Em uma manhã, ao chegar do café que tomávamos em uma padaria próximo, ao subir as escadas fiquei sabendo que tinha uma equipe da Globo Campinas. Já naqueles dias ela nos dava trabalho. Saímos de perto para ninguém ser filmado. Minutos depois bateu o desespero em várias pessoas. Algum maluco ou maluca. Daqueles irresponsáveis que tem na esquerda, na direita, achou de fazer suas necessidades fisiólogas dentro de uma sala. Alguém disse, “lascou. Os caras tão lá filmando e vai sair no jornal do meio dia”.

Naquele momento, em um instante que não se pensa no ato, fui até a sala onde estava um repórter, um cinegrafista e mais uma pessoa com eles. Os caras iam começar a gravar e eu pedi que não. O jornalista, disse que estava fazendo o trabalho dele e arrogantemente sorriu e mandou gravar. Eu então me coloquei na frente da câmera. Ele começou a gravar. Não vi outra alternativa para a situação. Baixai a calça e mostrei a bunda para eles. E lá fiquei dizendo que se eles continuassem a gravar, iriam ter que mostrar esta imagem. Os estudantes que estavam na porta, criaram coragem e começaram a gritar com eles. “Vocês não deram uma notícia do encontro, agora querem vir aqui para nos destruir? ”, “Fora, Fora...” Foi o que se ouviu.

Botamos a equipe para sair da escola. E ainda hoje, tenho raiva da pessoa que fez merda e nós tivemos que limpar.

Você já leu, “Rumo ao encontro de reconstrução da UBES em Campinas”? Se não leu, aproveita para fazer isto, porque na próxima semana tem o terceiro artigo contando a passagem da delegação dos Matutos no Encontro de Reconstrução da UBES em Campinas, São Paulo.

Sera o, “Deu merda no final do encontro de reconstrução da UBES”.

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