A Máquina de Escândalos de 2018 volta a operar em 2026
CPIs, vazamentos seletivos e redes sociais reativam a engrenagem que em 2018 transformou suspeitas em sentença política — agora em pleno ano eleitoral
A engrenagem voltou a girar
O Brasil já viu esse filme.
Em 2018, o então favorito nas pesquisas foi retirado da disputa eleitoral após uma sucessão de decisões judiciais cercadas por vazamentos, cobertura em tempo real e construção de uma narrativa moral avassaladora. Lula permaneceu 580 dias preso. Foi impedido de fazer campanha. De dar entrevista. Sequer anunciar seu candidato. A eleição ocorreu sob o peso de uma atmosfera de condenação pública antecipada.
O resultado é conhecido.
Em 2026, o cenário é outro — mas o método soa familiar.
São quase os mesmos personagens. Não é a mesma operação. Mas a lógica reaparece. E já ganhou um nome de guerra: Lava Jato 2. CPIs convertidas em arenas de disputa eleitoral, vazamentos seletivos cronometrados, redes sociais transformando fragmentos em certezas emocionais e uma mídia tradicional que chancela o barulho como fato político.
A história não se repete mecanicamente.
Mas rima — e, desta vez, a rima ecoa perigosamente como um retorno do método.
CPIs como palco: investigação ou espetáculo?
Comissões Parlamentares de Inquérito sempre foram instrumentos políticos. Não há ingenuidade aqui. Mas, em ambiente de polarização extrema e em pleno ano eleitoral, a CPI deixa de ser apenas instrumento fiscalizador e passa a funcionar como máquina de produção de narrativa.
Cada sessão vira episódio.
Cada depoimento, um clímax.
Cada silêncio, uma insinuação.
A CPI não precisa provar — precisa sugerir.
Termos como “indícios”, “possíveis ligações” e “suspeita de envolvimento” são juridicamente prudentes, mas politicamente devastadores. Criam a sensação de que há algo estruturalmente errado, mesmo quando nada foi formalmente demonstrado.
E a suspeita, uma vez instalada, opera com autonomia.
O poder do primeiro vazamento
Nenhuma engrenagem de escândalo funciona sem combustível.
E o combustível é o vazamento.
Vazamentos chegam incompletos, descontextualizados, fragmentados — e quase sempre estrategicamente cronometrados.
O primeiro vazamento molda a narrativa-mãe.
Ele define o enquadramento moral.
Desmentidos posteriores raramente têm o mesmo alcance. Explicações técnicas não competem com manchetes. A correção não viraliza como a acusação.
A opinião pública é formada na largada.
E a largada quase nunca espera o contraditório.
Vazamentos não precisam provar nada.
Precisam apenas insinuar.
O algoritmo substituiu o juiz
Se a CPI produz o roteiro e o vazamento fornece o material bruto, as redes sociais fazem o resto.
A lógica é emocional.
Influenciadores políticos — de todos os espectros — recortam 15 segundos de um depoimento e transformam em indignação, ironia ou condenação sumária. O meme substitui o relatório. O print substitui o contexto. A repetição substitui a análise.
O que viraliza não é o fato — é a emoção.
E quando a emoção se repete milhares de vezes, cria-se a sensação de consenso: “todo mundo está vendo”, “todo mundo está comentando”, “algo grave está acontecendo”.
A percepção passa a operar como verdade.
A mídia como legitimadora do escândalo
Mesmo num ambiente dominado por redes sociais, a mídia tradicional continua sendo o selo de realidade.
Quando jornais, portais e telejornais entram na cobertura, o ruído digital ganha status de fato político.
A mídia enquadra, amplifica e serializa.
Transforma o episódio em saga.
Mantém o escândalo na agenda.
A lógica da velocidade e da competição por audiência favorece a dramatização. A busca pelo “novo desdobramento” transforma investigação em narrativa contínua.
E, assim, a suspeita se consolida como atmosfera.
Lava Jato 1 e o método 2026: a comparação inevitável
Em 2018:
- Lula liderava as pesquisas.
- A Lava Jato produziu sucessivos episódios de alto impacto.
- Vazamentos alimentaram a cobertura diária.
- A narrativa moral se sobrepôs ao debate programático.
- O favorito foi retirado da disputa.
Em 2026:
- Lula novamente lidera as pesquisas, ainda que por margem estreita.
- CPIs operam sob clima eleitoral.
- Vazamentos surgem de forma estratégica.
- A guerra de percepção antecede qualquer conclusão institucional.
- Pedidos de inelegibilidade já circulam no debate público.
Não se trata de afirmar identidade de operações.
Trata-se de reconhecer identidade de método.
O método não exige condenação formal para produzir efeito político.
Exige apenas atmosfera.
Psicologia da suspeita: por que o método funciona
Narrativas de corrupção são poderosas porque ativam mecanismos profundos:
Viés de confirmação: quem já desconfia, acredita mais rápido.
Heurística da disponibilidade: quanto mais se fala, mais parece verdadeiro.
Memória moral: a sensação de “algo errado” persiste mesmo após desmentidos.
Polarização afetiva: escândalos servem para atacar o adversário, não para esclarecer.
Esses mecanismos tornam a suspeita quase indestrutível.
Quando a narrativa se cristaliza, o dano político já está feito.
O alvo não é apenas um político — é a eleição
Em ano eleitoral, o impacto é exponencial.
Escândalos mobilizam bases, influenciam indecisos, desgastam candidaturas e substituem propostas por batalhas morais.
A disputa deixa de ser programática.
Torna-se moral.
A pergunta deixa de ser “qual projeto de país?”.
Passa a ser “quem é corrupto?”.
Quando isso acontece, o debate democrático se empobrece — e a eleição passa a ser decidida no campo da percepção.
Investigação legítima ou guerra narrativa?
É fundamental afirmar: investigar é dever institucional. Fiscalizar é obrigação democrática. Apurar irregularidades é essencial.
Mas há diferença entre investigação e espetáculo.
Há diferença entre apuração e construção de atmosfera.
Há diferença entre responsabilidade institucional e guerra de percepção.
Quando CPIs, vazamentos, redes e mídia passam a operar em sincronização emocional, a linha entre investigação legítima e instrumento eleitoral se torna perigosamente tênue.
O Brasil aprendeu com 2018?
A eleição de 2018 foi marcada por um ambiente em que a suspeita antecedeu a sentença e a narrativa moral antecedeu o voto.
O país ainda debate as consequências daquele ciclo.
Agora, em 2026, o método ressurge com novas ferramentas — algoritmos mais rápidos, redes mais polarizadas, influenciadores mais profissionais e disputa ainda mais acirrada.
A democracia não pode ser refém da engrenagem da suspeita permanente.
Investigações precisam ocorrer — mas não podem ser convertidas em instrumentos de desequilíbrio eleitoral.
O Brasil já viveu uma eleição moldada pela atmosfera da condenação antecipada.
Em 2026, a pergunta não é se haverá investigação.
A pergunta é se a eleição será decidida nas urnas —
ou novamente no tribunal da percepção.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
