A menina, o anão e o imbrochável

O presente (como o passado) da nação brasileira é permeado por injustiças sociais, desrespeitos à Constituição, direitos vilipendiados, e como se não bastassem-desgraça pouca é bobagem-discursos presidenciais insuperáveis pela baixeza, pelo cinismo e desimportância.

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O tempo me exaure, ou melhor, a falta dele, após fazer da minha casa, sala de aula. Haja reunião, cursos de formação e aulas para os poucos alunos que têm acesso à rede. Mas nada se compara ao cansaço na alma de acompanhar as notícias de um país que, outrora, foi alcunhado de “país do futuro” e que hoje, não é sequer o país do presente. O presente (como o passado) da nação brasileira é permeado por injustiças sociais, desrespeitos à Constituição, direitos vilipendiados, e como se não bastassem-desgraça pouca é bobagem-discursos presidenciais insuperáveis pela baixeza, pelo cinismo e desimportância.

Na semana passada, uma criança de apenas dez anos esteve na pauta das discussões cotidianas, tanto em redes sociais, como nos bate-papos de alguns corajosos nas ruas. Corajosos ou insensatos, apesar do comércio em muitas cidades funcionar, o número de doentes pela Covid-19 persiste e o de mortos ultrapassa os 116.000 óbitos. 

As investigações policiais deram conta de que a criança era violentada pelo padrasto desde os seis anos de idade, e agora, aos dez estava grávida, sendo autorizado pela justiça que fizesse o aborto. Como se não bastasse a violência por que passou a menina, desde sempre, foi violentada mais vezes após o crime vir à tona; quando uma fascista com tornozeleira eletrônica divulgou aos quatro cantos o nome da criança, do médico e do hospital, e  uma matilha de desocupados delinquentes fundamentalistas foram ao hospital impedir a interrupção da gravidez, sob os gritos de “assassina”, direcionados à infância violentada; quando uma professora posta nas redes sociais que a menina gostava de “dar”.  

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Enquanto o país se distraía com a tragédia vivida pela pobre menina, as barcas com toras de madeira amazônica atravessavam os rios, o desemprego batia recorde em cima de recorde, os índios, nas aldeias, morriam de fome e de doença, os moradores em condição de rua congelavam no frio (...)

O presidente da nação intencionando mostrar a sua popularidade em meio ao caos, cumprimenta e abraça seguidores que o bajulam em palcos estrategicamente montados. Numa dessas investidas, põe no colo um anão, acreditando ser uma criança, e promove uma das cenas mais patéticas já protagonizadas por um presidente da República. Ao perceber que não se tratava de um infante, aterrorizado pelo constrangimento, joga o anão nos braços de um dos seus assessores. Ah, Bolsonaro! Eu te odeio, mas você me faz rir muito, sentimentos contraditórios que me tensionam e me divertem. Minha psicóloga não está dando conta. Nem eu.    

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Em outro momento, proferindo discurso vazio e populista, no Nordeste do Brasil, informa à população brasileira que é “imbrochável” e que não usa aditivos para sua vida sexual. A nação ouviu isso mesmo? Sim. Mais uma estripulia do Circo de Horrores institucionalizado pelo miliciano. No momento em que o escutei, fiquei a esbravejar telepaticamente com a natureza: Tu é lá perfeita coisa nenhuma? Antes essa praga com faixa presidencial fosse infértil! E não deixasse descendentes corruptos, inescrupulosos, cínicos e demagogos, como o 01, 02, 03 e,  certamente, o 04 – como o miliciano se refere aos filhos – além da pobre menina sempre de cara amarrada. Devo confessar que me compadeço dela. Já imaginaram o quão difícil é nascer numa família de “machos” que tem profundo desdém por tudo o que representa o feminino? Basta lembrar das diversas vezes em que o presidente fundador do “Clã das Rachadinhas” atacou as jornalistas, deputadas e até a presidenta Dilma Roussef, com um ódio e palavreado comuns aos misóginos. Agora, após mais uma semana agitada, submerge o caso da pastora Flordelis. Calma! Não estou dando conta. Fica para a próxima.   

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