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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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A metade silenciada do mundo ainda espera justiça

Tahirih retirou o véu, desafiou homens poderosos e morreu proclamando que nenhuma força impediria a emancipação feminina

Menina afegã ao lado de três mulheres de burca em hospital de Cabul (Foto: REUTERS/Jorge Silva)

Há edifícios simbólicos que definem uma civilização. O tribunal deveria ser um deles. Mas, em grande parte do planeta, a justiça funciona como um farol com luz seletiva: ilumina plenamente o caminho dos homens e deixa as mulheres caminhando em penumbra. A metáfora não é retórica. Ela descreve uma realidade global sustentada por números frios, leis desiguais e estruturas sociais que continuam operando como se metade da humanidade fosse cidadã provisória.

O Dia Internacional da Mulher de 2026 não surge como mera celebração. Ele se impõe como uma autópsia moral do sistema internacional. Décadas de discursos sobre igualdade produziram avanços importantes, mas insuficientes. Ainda hoje, mulheres possuem apenas 64% dos direitos legais garantidos aos homens, segundo dados das Nações Unidas. Esse déficit jurídico atravessa praticamente todas as dimensões da vida: segurança, trabalho, autonomia econômica e participação política.

A desigualdade começa cedo e se perpetua ao longo da existência. Em dezenas de países, leis sobre estupro ainda não se baseiam no consentimento. Em muitos outros, o casamento infantil continua permitido sob diferentes formas. E quase metade das legislações nacionais do planeta ainda não garante igualdade salarial para trabalho de igual valor.

Mas as estatísticas, por mais contundentes que sejam, não contam toda a história. Por trás de cada avanço ou retrocesso existe uma longa genealogia de coragem feminina — mulheres que, em épocas muito mais hostis, desafiaram sistemas religiosos, políticos e culturais que insistiam em negar-lhes voz e presença pública. Em outras palavras: antes que a igualdade se tornasse pauta diplomática ou meta de organismos internacionais, ela já havia sido proclamada por mulheres que pagaram com a própria vida o preço da liberdade.

Há feridas históricas que não cicatrizam; elas permanecem abertas como lembretes morais daquilo que uma civilização tentou silenciar. Uma dessas feridas tem nome: Tahirih. Persa, nascida em 1817 e executada em Teerã em 1852, ela foi poeta de grande prestígio, estudiosa profunda do Alcorão e uma das primeiras discípulas da mensagem revolucionária do Báb. Em uma sociedade que exigia invisibilidade feminina, Tahirih cometeu um gesto que atravessaria os séculos. Diante de uma assembleia de homens religiosos, retirou o véu que cobria seu rosto. O ato, aparentemente simples, foi interpretado como uma ruptura intolerável com a ordem patriarcal. Naquele instante simbólico, ela lançava sementes que ainda hoje germinam: a liberdade de ser, a liberdade de crer e a liberdade de desenvolver plenamente o potencial das mulheres. Por suas ideias e por sua coragem intelectual, Tahirih pagou o preço máximo. Condenada à morte por estrangulamento, dirigiu aos seus algozes uma frase que atravessaria gerações: “Podeis me matar, mas não podeis impedir a emancipação feminina". Mais de um século e meio depois, seu nome batiza milhares de meninas em diferentes partes do planeta. O que Tahirih não pôde conquistar em vida, outras mulheres vêm conquistando lentamente após sua morte — muitas vezes enfrentando as mesmas estruturas de poder que tentaram apagar sua voz.

A jurista iraniana Shirin Ebadi, vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2003, resumiu essa realidade ao afirmar que direitos humanos só se tornam reais quando entram na prática jurídica. Caso contrário, permanecem promessas frágeis diante do poder. Sua própria história confirma essa tese: Ebadi foi afastada da magistratura após a Revolução Islâmica justamente por ser mulher.

Mas a desigualdade não se limita ao campo legal. Ela se manifesta com brutal clareza no mercado de trabalho global. Em média, mulheres recebem cerca de 20% menos que homens por trabalho equivalente, uma disparidade que persiste em praticamente todas as regiões do planeta.

A disparidade salarial é apenas a ponta visível de um sistema econômico profundamente assimétrico. Embora representem aproximadamente 40% da força de trabalho mundial, mulheres ocupam apenas 28,2% dos cargos de gestão.

Isso significa que milhões de profissionais altamente qualificadas permanecem excluídas das posições em que decisões estratégicas são tomadas.

Os números tornam-se ainda mais contundentes quando ampliamos o olhar para a estrutura econômica global. Homens participam da força de trabalho em cerca de 80% dos casos, enquanto a taxa feminina permanece próxima de 50% há mais de três décadas.

Essa diferença não pode ser explicada apenas por escolhas individuais. Ela reflete um sistema que continua atribuindo às mulheres a maior parte do trabalho doméstico e do cuidado familiar — tarefas invisíveis que sustentam economias inteiras, mas raramente são reconhecidas.

Estudos recentes mostram que mulheres dedicam quase três vezes mais tempo ao trabalho doméstico não remunerado do que os homens.

Essa desigualdade cotidiana produz um efeito acumulativo devastador: menos tempo para educação continuada, menos oportunidades profissionais e carreiras interrompidas.

A ativista paquistanesa Malala Yousafzai, laureada com o Prêmio Nobel da Paz em 2014, sintetizou esse dilema em uma frase que atravessou fronteiras:
“Não podemos vencer quando metade de nós é mantida para trás".

A educação, frequentemente celebrada como caminho para a emancipação feminina, também revela fissuras profundas. Em diversas regiões do mundo, milhões de meninas continuam fora da escola. Fatores aparentemente banais — como a ausência de banheiros adequados ou estigmas relacionados à menstruação — contribuem para que dezenas de milhões abandonem a educação formal ainda na adolescência.

Sem educação, a promessa de autonomia econômica se transforma em miragem.

No campo político, a desigualdade assume contornos igualmente dramáticos. Apesar de avanços recentes, mulheres ocupam apenas 22,9% dos cargos ministeriais no mundo.

Em outras palavras: as estruturas de poder continuam sendo administradas majoritariamente por homens, mesmo em sociedades que proclamam igualdade de direitos.

A consequência é previsível. Políticas públicas frequentemente refletem prioridades que não contemplam plenamente as experiências femininas.

A sobrevivente yazidi Nadia Murad, vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2018, transformou essa percepção em denúncia global após escapar da escravidão sexual imposta pelo Estado Islâmico. Em sua campanha internacional, ela lembra que a violência contra mulheres prospera quando sistemas políticos e judiciais falham em responsabilizar agressores.

Essa constatação se torna ainda mais dramática em regiões devastadas por conflitos armados. Atualmente, centenas de milhões de mulheres vivem próximas a zonas de guerra, onde instituições de justiça praticamente não existem. Nesses cenários, estupro e violência sexual continuam sendo utilizados como instrumentos de terror coletivo.

Quando a justiça desaparece, a violência deixa de ser exceção e passa a funcionar como método.

Ao mesmo tempo, a economia global continua capturando apenas uma fração do potencial feminino. Mulheres recebem cerca de 28% da renda mundial, apesar de representarem metade da população.

Essa disparidade não é apenas injusta; ela é economicamente irracional. Diversos estudos demonstram que sociedades que ampliam a participação feminina na economia e na política tendem a alcançar maior estabilidade institucional, crescimento econômico e níveis mais altos de inovação.

Ainda assim, o progresso global permanece lento. O Relatório Global de Desigualdade de Gênero estima que, no ritmo atual, o mundo levará mais de um século para alcançar plena igualdade entre homens e mulheres.

Um século. A própria escala temporal revela a profundidade das estruturas que sustentam essa desigualdade.

Mas há uma transformação em curso. Movimentos femininos em diferentes regiões do planeta estão redesenhando o debate público. Redes de advogadas, jornalistas, pesquisadoras e ativistas pressionam governos, tribunais e empresas a rever normas que durante séculos foram tratadas como naturais.

Esse processo redefine o próprio conceito de justiça.

A igualdade jurídica e social das mulheres não é um gesto de benevolência. É uma exigência civilizatória. Sociedades que toleram a exclusão de metade de sua população vivem permanentemente abaixo de seu próprio potencial.

A metáfora inicial retorna com força: um sistema de justiça que ilumina apenas metade da estrada não é justiça. É apenas um farol defeituoso em um mundo que insiste em caminhar no escuro.

E, enquanto essa luz continuar seletiva, a própria ideia de civilização permanecerá incompleta.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.