A mídia naturalizou o fascismo

Às vésperas da tragédia, resta o consolo de saber que as posições ficarão delimitadas para juízo histórico. Antes que todos passem para o famigerado coro dos inocentes, cabe denunciar a tolerância da mídia corporativa com o fascismo, questioná-la a respeito, forçar a antecipação vexatória das narrativas arrependidas e desmascarar o álibi do cinismo ideológico

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A mídia naturalizou o fascismo (Foto: Fabio Pozzebom - ABR)


Tudo começou com o estranho ataque a Jair Bolsonaro. Numa rapidez incomum, os veículos de comunicação trataram de acatar não apenas a versão oficial, mas também a dos círculos próximos ao candidato. O ceticismo geral foi aplacado a golpes de moralismo civilizatório. A imagem da vítima dominou os espaços nobres do noticiário por semanas, garantindo exposição segura e positiva durante uma campanha marcada pela ausência do protagonista. 

A iconografia construída em torno do acontecimento foi, digamos, singular. Do Cristo barroco nos braços do povo ao herói de guerra sob cuidados extremos, do mártir resistente ao filho pródigo que retorna em triunfo, criou-se um enredo para agasalhar os corações aflitos. Em meio a clichês do sensacionalismo policial, os balbucios perplexos do bravo militar completaram sua figura tolerante e indefesa, mística e abençoada. Às lágrimas. 

Mesmo admitindo que as imagens e os depoimentos tinham relevância e que vieram de fontes externas, os veículos eram os únicos responsáveis pela organização das narrativas e por sua visibilidade. Ninguém que trabalha no meio pode alegar ignorância acerca da força simbólica do material divulgado. Não com Bolsonaro, não àquela altura da disputa. 

Da mesma forma, os analistas que bradavam “atentado contra a democracia!” sabiam medir o tipo de associação legitimadora envolvida. Especialmente porque se referiam a uma pessoa homofóbica, racista e machista, defensora de assassinos e torturadores. O pacifismo seletivo dos indignados serviu à vitimização de um porta-voz da violência que eles dizem condenar. 

Em seguida passaram a tratá-lo com eufemismos bondosos. É apenas um “excêntrico”, de ideias “polêmicas”, representante de certa “direita popular”. Chegamos ao ponto de ver redações patrulharem o vocabulário usado para classificá-lo e analistas desautorizando termos como “fascismo” e “ultradireita”, sob argumentos levianos e falsificadores. 

O esforço culminou na postura acrítica, para não dizer cúmplice, diante dos métodos de Bolsonaro e seus acólitos. Os ataques físicos a adversários transformaram-se numa “violência política” de viés impessoal e generalizante. A disseminação unilateral e criminosa de mentiras virou uma difusa “guerra de fake news”, apelido já neutralizador e evasivo. Como se tudo fosse recíproco e espontâneo, com mínimo grau de sistematicidade ou profissionalismo. 

A abordagem objetivista que Bolsonaro passou a receber após sua viabilização eleitoral faz parte de uma tentativa de amenizar o papel dos veículos nesse processo. A normalização do candidato gerou o antídoto retórico para normalizar a si mesma: agora que suavizaram o fanatismo, vestem um éthos moderado que não vê fanatismo em lugar algum. 

Mas não há imparcialidade na ponderação diante de fascistas. Isso é adesão mal disfarçada. A grande imprensa fomentou por quase duas décadas um partidarismo virulento e irresponsável para chegar a essa temperança relativista diante do que há de mais pernicioso na política nacional. Os editoriais hipócritas de última hora não mudarão nada. 

Às vésperas da tragédia, resta o consolo de saber que as posições ficarão delimitadas para juízo histórico. Antes que todos passem para o famigerado coro dos inocentes, cabe denunciar a tolerância da mídia corporativa com o fascismo, questioná-la a respeito, forçar a antecipação vexatória das narrativas arrependidas e desmascarar o álibi do cinismo ideológico. 

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