A misoginia é o cartão de visitas do ministro Aloysio Nunes e do MRE do governo Temer

Segundo o arranjo político criado por Michel Temer, que destinou o MRE para a esfera de influência do PSDB, não existe qualquer alternativa senão homens, brancos, em sua maior parte do Centro-Sul, citados na Lava-Jato e – pelo visto – misóginos

Segundo o arranjo político criado por Michel Temer, que destinou o MRE para a esfera de influência do PSDB, não existe qualquer alternativa senão homens, brancos, em sua maior parte do Centro-Sul, citados na Lava-Jato e – pelo visto – misóginos
Segundo o arranjo político criado por Michel Temer, que destinou o MRE para a esfera de influência do PSDB, não existe qualquer alternativa senão homens, brancos, em sua maior parte do Centro-Sul, citados na Lava-Jato e – pelo visto – misóginos (Foto: Danillo Bragança)

O Brasil é um dos países com menor porcentagem de representação política feminina no planeta. Em comparação, perdemos para países do Oriente Médio, da África e de vizinhos na América Latina. Na região, o México tem maior representatividade, e isto inclui também o número de mulheres em cargo de gerência no setor privado.

Entretanto, no Brasil, metade da pesquisa científica é realizada por mulheres. No caso da diplomacia e da política externa, isto é muito claro. Quer dizer, a academia de Ciência Política, Relações Internacionais e áreas afins responde por muito da produção de política externa brasileira. Nomes como Miriam Saraiva Gomes, Mônica Leite Lessa, Adriana Erthal Abdenur, Letícia Pinheiro, e muitas outras, são figuras centrais em suas pesquisas. Jovens pesquisadoras despontam o tempo inteiro, em várias áreas, em muitos níveis de originalidade, e todas com muita qualidade.

No Ministério das Relações Exteriores (MRE), porém, o quadro não é sequer parecido com o da academia, e se assemelha mais à representação política. Quer dizer, os homens são maioria nos concursos de admissão para o Itamaraty.

Nunca tivemos uma mulher ocupando o cargo máximo na pasta dos assuntos estrangeiros. Hoje, além do ministro tucano Aloysio Nunes Ferreira, homens (brancos) ocupam os principais cargos na Secretaria Geral de Relações Exteriores e nas Subsecretarias. Duas mulheres (brancas) ocupam dois cargos na hierarquia superior do Itamaraty, a embaixadora Maria-Theresa Lázaro, subsecretária do Serviço Exterior, e a ministra Tatiana Rosito, secretária-executiva da CAMEX, a Câmara de Comércio Exterior.

Para além do discurso bastante insosso do recém-empossado Aloysio Nunes Ferreira, é preciso se perguntar onde está a representação feminina na política externa e na diplomacia do nosso país. Atribuía-se a Dilma Rousseff um baixo interesse em assuntos estrangeiros e de política internacional. Esta atribuição certamente carregava um elemento do campo das idéias que se reflete na baixa representação feminina no Itamaraty: a diplomacia e a política externa são temas eminentemente masculinos.

Na América Latina, que passou batido do discurso de apresentação do novo ministro, chegam exemplos importantes. A chanceler venezuelana Delcy Rodriguez foi chamada de “pouco importante”. A chanceler referia-se ao Brasil como um todo, em crítica ao questionável processo de deposição de Dilma Rousseff – golpe, pra ser mais sincero. O chanceler brasileiro, por sua vez, achou mais importante atacar a figura, dizendo que “ela [a chanceler Delcy Rodriguez] não tem muita importância, nem mesmo na Venezuela”.

José Serra, no seu breve hiato como ministro, achou melhor dizer que o número acentuado de mulheres no Senado era “um perigo”. A ministra das Relações Exteriores do país, Claudia Ruíz Massieu, estava presente na sessão, e Serra dialogava com ela neste momento. A Argentina também tem uma chanceler, a ministra Susana Malcorra.

Ou seja, países importantes da região têm em seus quadros e cargos de comando o envolvimento de mulheres. No Brasil, achamos razoável comentários de cunho machista e o novo chanceler atacando a mulher que ocupa o mesmo cargo que o seu em um país vizinho ao nosso. O ataque não foi lhe direcionado, mas nós homens tendemos a achar que a crítica de uma mulher nos diminui, e nossa primeira resposta é a ofensa de cunho machista.

Se há mulheres disponíveis para o cargo de ministro das Relações Exteriores no Brasil? Neste momento, não. Não por que não existem mulheres disponíveis, com capacidade e poder de decisão. É que segundo o arranjo político criado por Michel Temer, que destinou o MRE para a esfera de influência do PSDB, não existe qualquer alternativa senão homens, brancos, em sua maior parte do Centro-Sul, citados na Lava-Jato e – pelo visto – misóginos.

Que o 8 de março seja um dia de mudança, de luta, e de ocupação de espaço pelas mulheres.  

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