A mitologia em torno da prorrogação do regime militar com Costa e Silva

Uma vez dado o golpe com um pretenso efeito saneador ideológico, o marechal Castello Branco entregou o poder efetivo a dois civis, Roberto Campos, no Planejamento, e Octávio Gouvêa de Bulhões, na Fazenda

Não estamos sob uma ditadura, estamos no mínimo sob sete!
Não estamos sob uma ditadura, estamos no mínimo sob sete! (Foto: Divulgação)
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O marechal Castello Branco era um militar refinado, com formação francesa e reais convicções democráticas. Por que estranhos caminhos sobreviverá na história como o primeiro ditador da era militar em 1964? Nossos historiadores são muito superficiais ao tratar disso. No máximo, atribuem o prolongamento do regime a um eventual conflito entre Castello e seu sucessor, o general Costa e Silva. Este último teria um apetite incontrolável pelo poder.

Vou tratar desse assunto não por gosto historiográfico, mas em razão da situação atual quando brasileiros realmente preocupados com o destino do país e a estabilidade social olham para o Estado Maior do Exército como uma esperança de saída para a maior crise de nossa história. Sim, porque diferentemente das crises anteriores, estamos numa situação em que não uma, mas todas as instituições do Estado estão virtualmente falidas, menos o Exército.

Em 64, o golpe foi efeito de uma tremenda radicalização política da qual houve uma culpa generalizada, no governo e na oposição. No governo, forças importantes como Brizola e o presidente Jango não se entendiam. A situação social era efervescente. Com uma interpretação dúbia do quadro político, militares radicais puxaram o golpe por efeito, sobretudo, na atmosfera geopolítica, em face de uma suposta ameaça comunista.

Uma vez dado o golpe com um pretenso efeito saneador ideológico, o marechal Castello Branco entregou o poder efetivo a dois civis, Roberto Campos, no Planejamento, e Octávio Gouvêa de Bulhões, na Fazenda. Campos era um gênio pouco reconhecido: lançou as bases financeiras da infra-estrutura do país, reforçando o BNDES, criando o BNH e inventando fundos de financiamento industrial e de serviços, como os da Telebrás e Eletrobrás, entre outros.

Bulhões era um tecnocrata absurdamente medíocre. Lembrava os Joaquim Levis, os Guedes e os Meirelles de hoje. Tinha apenas uma receita para enfrentar a inflação e retomar o crescimento: ajuste fiscal. Mediante sucessivos ajustes fiscais, desde 64 ele impôs um tremendo engessamento na economia, levando a uma recessão que se prolongou até 1967. Do ponto de vista político, foi um desastre para o regime, que já enfrentava hostilidade social.

Então surge a questão da sucessão. Castello e outras altas patentes militares desejavam abertamente que Carlos Lacerda assumisse como presidente civil depois dele. Lacerda, porém, não queria assumir como ditador. Confiava em sua capacidade de verbalização. Só temia um oponente: Juscelino. Entretanto, Juscelino era um fazedor de obras. Para vencer Juscelino era preciso dar uma demonstrar cabal de capacidade de construção no mínimo igual à dele.

Como governador da Guanabara, Lacerda, de fato, vinha se preparando há muito para confrontar JK no plano das obras: estava fazendo uma administração exemplar no Rio, do Guandu ao Aterro do Flamengo, passando por túneis unindo Zona Norte à Zona Sul. Aí veio a tragédia: o ajuste fiscal de Bulhões caiu cheio no sistema de obras de Lacerda, estrangulando seu financiamento. Ele abandonou o governo antes da hora e, indignado, atacou Castello. 

Como consequência, os militares ficaram sem candidato civil em 65 que pudesse derrotar JK. E JK era inaceitável para o sistema. Diante disso, Costa e Silva tomou a frente e, a partir da forte posição de ministro da Guerra, apresentou-se como sucessor de Castello. Este aceitou a solução a contragosto, como se sabe. E o país tomou o curso que se conhece: quando veio a virada econômica pelas mãos de Delfim, já era tarde para evitar a sensação de crise econômica e cedo para evitar a crise política do AI-5.

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