A morte de Bunitinho e as piadas racistas

Eu já havia observado antes que piadas racistas não têm a mínima graça, primeiro porque degradam a pessoa a uma caricatura estúpida, abaixo do animal. Segundo porque, mais grave, humor de racistas fere e destrói a pessoa humana

Escrevo estas linhas rápido, antes de sair para um encontro de cultura com artistas e escritores. E se assim falo, quero dizer: o escritor brasileiro está sendo empurrado para uma situação em que lhe dá vergonha falar sobre literatura. Isto é, o escritor deve ter a realização estética, hoje, como uma denúncia, como uma tribuna, porque o barulho dos tiros, das mortes, dos crimes nas ruas do Brasil, não lhe permite qualquer reflexão em paz. 

Então vamos ao ponto, de vez 

Eu já havia observado antes que piadas racistas não têm a mínima graça, primeiro porque degradam a pessoa a uma caricatura estúpida, abaixo do animal. Segundo porque, mais grave, humor de racistas fere e destrói a pessoa humana.  Em um texto, anotei: se continuarmos a julgar como piada os preconceitos contra sexos, raças, em resumo, contra gentes, depois não seremos dignos sequer de pena. Uma primeira providência, de um ponto de vista intelectual, creio, seria não sorrir nunca mais de todo, do mais ridículo e risível preconceito. Pois preconceitos são muito graves. Eles sempre matam pessoas.

A memória da gente nem precisa lembrar os papeis infames que foram dados a Grande Otelo, um ator completo, do trágico à comédia, em que sempre se destacavam os seus lábios grossos, os seus olhos arregalados, quando fazia papel de escada para o “verdadeiro” comediante, Oscarito. Mas sempre em papeis subalternos 

Grande Otelo atuava como contraste a Oscarito, como um Gordo e o Magro brasileiro, que se traduzia em o Negro e o Branco. Ora, foi preciso que o gênio de Grande Otelo fosse revisto em obras anunciadoras do Cinema Novo, em filmes como “Rio, Zona Norte”, e, principalmente, no grande “Assalto ao Trem Pagador,” para vê-lo na dimensão fora da caricatura do negro feio e metido, que se achava. A maravilha que representava Grande Otelo no cinema, nos palcos, para o preconceito nacional passou batido. Nas comédias, nas chanchadas, ele era apenas mais um negro, no crime bárbaro cometido pelo cotidiano nacioná. 

Essas linhas me vêm com o assassinato de Bunitinho, a tiros na quinta-feira, durante uma ação de guerra do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar do Rio de Janeiro.  O incidente aconteceu durante um baile funk no Morro do Dendê, mais uma vez, morte de negros num baile funk. Não é coincidência, virou mapa e região de extermínio de pessoas. Mas vamos ao ponto negro, mais precisa: o assassinato do senhor Diego de Farias Pinto, mais conhecido como “Bunitinho, me fez ir a seus vídeos de piadas. E pude ver. São vídeos onde ele aparece num papel infantilizado, representando um papel de idiota. Depois da sua morte a tiros é que se vê de modo mais contundente que Bunitinho não era o engraçado, nem o idiota. Pelo contrário, a imbecilidade era nossa, que o procurava como um negro feio, desdentado, imbecil, no papel do bobão, que se vangloria de comer duas mulheres brancas, porque é madeira. Os vídeos são “piadas” em que ele repete a voz do filmador, porque somente com a cara e voz de Bunitinho seria cômico, o “cachorrão”. 

Alguns vídeos podem ser vistos aqui https://www.youtube.com/watch?v=obeL0i5urKM 

No fim, Bunitinho, o seu assassinato, nada teve de bunitinho. Para todos, morreu um palhaço negro. Mas o palhaço é Bolsonaro, o branquinho fascista, estúpido. Bunitinho é o povo brasileiro, assassinado em Paraisópolis e na Baixada. Isso não é bonito, é indigno da terra de Cartola e Pixinguinha, que não eram bunitinhos. Eram civilização brasileira, apenas. 

Talvez, enfim, a mais infame piada: Bunitinho morreu numa quinta-feira. Pra ele, não houve sextou.  

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