A Mulher do Lar

Apesar dela ser mais nova do que eu, cuida de mim como uma irmã mais velha, onde desenvolvemos uma cumplicidade e amizade, o carinho entre nós é imenso; dividimos nossas histórias e percebo cada vez mais que temos mais em comum do que imaginávamos.

Siga o Brasil 247 no Google News

Nos despedimos ao final da noite e, fui para casa. Cheguei tomei um banho, deitei e dormi um sono profundo, nada de sonhos, simplesmente o descanso que precisava depois de muito tempo.

No dia seguinte, levantei-me cedo, levei meus filhos à escola e voltei para casa. Só tinha pacientes na parte da tarde, o que deixara minha manhã livre. Adoro quando isso acontece, são meus momentos de um café quente preparado com carinho e dedicação pela Empregada Doméstica – irei aqui abreviar sua profissão e chamá-la de ED.

Até o momento falei das minhas amigas, mulheres que têm uma formação superior e, possuem uma situação financeira confortável, pertencem a uma classe social abastada, e as dificuldades da vida não estão ligadas às questões financeiras. Agora falarei sobre a mulher que exerce todo o cuidado da minha casa, e que sem ela seria difícil eu me dedicar à minha carreira profissional.

PUBLICIDADE

ED trabalha comigo há mais de 12 anos e entrou em minha vida quando meus filhos ainda eram pequenos e eu estava casada. Passou ao meu lado o fim do meu casamento, e me ajudou na retomada da minha carreira. É uma mulher que todos os dias luta para sobreviver, mas apesar de todas as dificuldades impostas, ela ainda consegue ver uma leveza na vida e sorrir, o que muitas vezes eu me neguei a enxergar.

Aprendo todos os dias com ela; sua sabedoria, compreensão e solidariedade me cativam. Desenvolvemos uma relação que não sei como nomear, porque apesar de formalmente ser uma relação de trabalho, com todas as suas características, inclusive a perversidade da tal hierarquia e subordinação, temos uma com a outra muita cumplicidade. Nos enxergamos como mulheres, dividimos experiências, e observamos como temos mais questões em comum do que imaginávamos.

Assim como eu, ela é uma mulher só; trabalha para seu sustento e dos filhos, mas diferentemente de mim tem muita dificuldade para receber a pensão devida pelo pai dos seus filhos e, mesmo tendo feito tudo conforme manda o figurino, não recebe o que é devido a eles. O pai dos meninos está desempregado, e não tem como pagar a pensão, mas faz os seus bicos e recebe algo. Porém o dinheiro que ele ganha gasta com seus próprios prazeres, por que apesar das dores que a vida lhe apresenta, busca algum alento, o que normalmente acontece na mesa de um bar com seus amigos.

PUBLICIDADE

Ela, como todas as mulheres com filhos, prioriza o que é importante para eles, se sacrifica e abre mão de si para dar o mínimo as crianças. Vive com todas as responsabilidades nas costas, não espera nada do homem que a fecundou, sua realidade impôs que assumisse tudo e nada exigisse, repete o que aconteceu com sua mãe e sua avó; cria sozinha seus filhos.

A força que ela tem sempre me inspirou, nunca consegui me imaginar passando pelas situações e preocupações diárias dela. Deixa a filha mais velha em casa cuidando do mais novo, sempre observados pela vizinha; pega dois ônibus diariamente para chegar a minha casa, quase sempre vem em pé - me disse que já perdeu as contas de quantas vezes os homens aproveitam a lotação da condução para pegar em seu sexo. E mesmo reagindo com veemência contra o abuso, eles a olham como se ela devesse agradecer pela agressividade do gesto, e ignoram a sua dor por ter sido violada e a ira pela desconsideração da sua individualidade, respeito e humanidade.

Um dia ela me contou que fora estuprada aos 08 anos de idade, e como ela sua filha também. Fiquei horrorizada, perguntei se o homem havia sido preso e condenado. Ela me disse que havia sido punido, fora assassinado porque tinha feito o mesmo com a filha de um traficante da região. A lei do homem, do mais forte é o que vale onde mora, não há o Estado, nem proteção, muito menos oportunidades, não fosse a solidariedade que um tem com o outro, a cumplicidade entre vizinhos e o cuidado que as mulheres tem entre si e para com as crianças, ela não saberia o que fazer, pois seus filhos estariam nas ruas e sujeitos a toda sorte de violência, enquanto trabalha para dar-lhes comida e um teto para protegê-los.

PUBLICIDADE

Sempre me pergunto como ED consegue ainda ver alegria e ter esperança na vida, mas sua potência e gana de viver me faz pensar sobre os privilégios que temos, e como para mantê-los, a sociedade em que vivo, resolveu renomear privilégio burguês por meritocracia vazia, e assim vamos nos enganando e mantendo os padrões herdados da escravidão.

ED sempre foi a mulher do lar, ela manteve minha casa organizada para que eu me dedicasse aos meus filhos, algo que ela não podia fazer, pois tem que trabalhar. Depois passou a cuidar dos meus filhos no período em que não estavam na escola, para que eu retomasse minha carreira. Na minha separação segurou minhas mãos e consolou meu choro, pelas dificuldades das negociações para a resolução do divórcio.

Apesar dela ser mais nova do que eu, cuida de mim como uma irmã mais velha, onde desenvolvemos uma cumplicidade e amizade, o carinho entre nós é imenso; dividimos nossas histórias e percebo cada vez mais que temos mais em comum do que imaginávamos. 

PUBLICIDADE

Ela estudou até o ensino médio; no começo do último ano conheceu o pai de seus filhos e, em dois meses engravidou da primeira filha; conseguiu com a ajuda da mãe terminar o ano letivo e concluir essa etapa, mas a tão almejada faculdade de enfermagem ficou no sonho. Agora tinha uma filha e um marido para cuidar.

 

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

O conhecimento liberta. Saiba mais. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Apoie o 247

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

PUBLICIDADE

Cortes 247

PUBLICIDADE
WhatsApp Facebook Twitter Email