“A múmia” e “Mulher-Maravilha”: terrorismo ideológico

O feminismo apropriado pela classe média é muito útil. É uma forma de ser rebelde sem ser revolucionário. Como demonstrou Slvaoj Zizek, a luta feminista busca a convivência pacífica com o seu oposto, já a luta de classes procura a aniquilação do seu oposto, embora, a primeira possa ser inserida na segunda

O feminismo apropriado pela classe média é muito útil. É uma forma de ser rebelde sem ser revolucionário. Como demonstrou Slvaoj Zizek, a luta feminista busca a convivência pacífica com o seu oposto, já a luta de classes procura a aniquilação do seu oposto, embora, a primeira possa ser inserida na segunda
O feminismo apropriado pela classe média é muito útil. É uma forma de ser rebelde sem ser revolucionário. Como demonstrou Slvaoj Zizek, a luta feminista busca a convivência pacífica com o seu oposto, já a luta de classes procura a aniquilação do seu oposto, embora, a primeira possa ser inserida na segunda (Foto: Raphael Fagundes)
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Combatentes do Estado Islâmico destroem antiguidades no Iraque. Quem não se lembra desta notícia? No filme “A Múmia”, o personagem encarnado por Tom Cruise, tenta salvar essas antiguidades, mas será que quer preservar o passado da humanidade? Claro que não. Quer apenas vender preciosidades no mercado negro. Seria mais ou menos assim: esses caras (terroristas) são tão burros que não percebem que estão jogando dinheiro fora?

No mundo real, os imigrantes que fogem dos conflitos do Oriente Médio, sofrem nas mãos dos ocidentais, pois não merecem ser salvos, nem para serem vendidos. São todos bárbaros e, de sua cultura, só respeitamos o que julgamos louvável, como uma vez escreveu Slavoj Zizek. Só queremos o monumental!

“A Múmia” é um filme batido. Tive a sensação de estar vendo algo repetido. Agora, para que fazer um filme sobre múmias no Iraque? A pré-estréia foi cancelada em Londres: na aventura, a múmia, que é vista como a encarnação do verdadeiro mal, foi achada no Iraque e levada para a Inglaterra. Provavelmente o blockbuster foi “evitado” porque a mensagem (a função ideológica) é clara: os terroristas islâmicos são demônios que realizam ataques na terra da rainha. Isso poderia gerar mais ódio. 

No entanto, depois, o filme passou por lá e, o ódio encontrou novos hospedeiros, como sempre. No fim, diga-se de passagem, não somos tão diferentes dos Mandevilles ou Colombos de outrora que representavam o Oriente através de monstros e demônios.

O estúdio responsável pela película só disse o seguinte: “Todos nós na Universal estamos devastados com o ataque terrorista em Manchester [22 de Maio] e continuamos a apoiar a comunidade e o país enquanto eles se recuperam”. “Por respeito aos afetados por essa tragédia nós decidimos não fazer a pré-estréia de Londres de 'A Múmia' planejada para a próxima semana”. Patético!

O mesmo aconteceu com o polêmico “Mulher-Maravilha”, que teve sua pré-estréia cancelada pelo mesmo motivo. A Warner Bros escreveu uma nota: “Nossos pensamentos estão com as pessoas afetadas pela recente tragédia no Reino Unido”. Mas há outros motivos. A atriz, Gal Gadot, que, se não matou muitas crianças quando era soldado israelense, participou de alguma forma do genocídio palestino, contudo, na tela do cinema, chora no papel de Mulher Maravilha ao descobrir que o mundo está submerso em uma guerra que extermina crianças. Contraditório? Acho que não. Afinal é apenas um filme.

Mas, não podemos deixar de nos atentar que estamos olhando para a reprodução de uma ideologia feminista capenga e sem perspectiva transformadora. É como disse E. Ann Kaplan: “para ser feminista o cinema deveria ser contra-cinema”, já que é da sua natureza vender o corpo da mulher. A heroína luta por honra, mas salva o mundo somente quando um homem diz que a ama. Só reconhece o amor, quando um homem se sacrifica por toda a humanidade. Seria uma mensagem cristã para o mundo? 

Não vi nenhum dos feminismos que existiram ao longo da história, do feminismo cultural ao feminismo lesbiano. Embora se tenha vendido a ideia de que seria um filme feminista antes da estréia. Não vi nem a primeira, nem a segunda, nem a terceira ou a quarta onda feminista. Só reconheci uma mulher protagonizando ao redor de vários elementos tradicionais que sustentam as tecnologias de gênero que à submete. Vi uma sororidade esdrúxula entre Diana e a secretária de Steve. A mulher-maravilha, no fim das contas, não deixa de ser o modelo de mulher que o homem deseja. Trata-se do bom e velho fetichismo e voyeurismo de Hollywood, que substitui “assim a oposição homem-mulher por homem-não-homem”.

O feminismo apropriado pela classe média é muito útil. É uma forma de ser rebelde sem ser revolucionário. Como demonstrou Slvaoj Zizek, a luta feminista busca a convivência pacífica com o seu oposto, já a luta de classes procura a aniquilação do seu oposto, embora, a primeira possa ser inserida na segunda. Mas não seria útil para a dominação burguesa. Por isso, o melhor a fazer é separar essas lutas.

Um filme é sempre um conjunto de representações que se remetem a sociedade real em que se inscreve, por isso, achei covarde (comercial) a atitude da diretora de escolher um tipo de feminismo que agrada aos homens.

Doutorando em História Política da UERJ e professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.

 http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/02/combatentes-do-estado-islamico-destroem-antiguidades-no-iraque.html

  HYPERLINK "https://oglobo.globo.com/cultura/filmes/pre-estreia-de-mumia-com-tom-cruise-cancelada-em-londres-apos-ataque-21392919" \l "ixzz4nHXLh9TX" https://oglobo.globo.com/cultura/filmes/pre-estreia-de-mumia-com-tom-cruise-cancelada-em-londres-apos-ataque-21392919#ixzz4nHXLh9TX 
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 https://noticias.bol.uol.com.br/ultimas-noticias/entretenimento/2017/05/24/cancelada-pre-estreia-de-mulher-maravilha-em-londres-apos-ataque-em-show.amp.htm

 https://oglobo.globo.com/ela/gal-gadot-muito-alem-da-mulher-maravilha-21397807

 Sobre as ondas dos feminismos ver: CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. Vol 1. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.

 KAPLAN, E. Ann. A mulher e o cinema: os dois lados da câmera. Rio de Janeiro, 1995. p. 55.

 P. 472

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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