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Rodrigo Lamore

Rodrigo Lamore é cantor, músico e compositor. Possui trabalho autoral e atualmente vive de shows voz e violão em barzinhos do Rio de Janeiro. É oriundo da cidade de Guanambi - BA e tem quase trinta anos de carreira musical.

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A música sempre foi um produto capitalista, mas agora está pior

Está ficando pior, e um dos sintomas desse problema é que esses mesmos artistas já estão começando a recorrer ao cove

Que mal faz um violão?

A música é um produto capitalista, mesmo que esteja respaldada com o argumento de “manifestação artística”. Se vivemos num mundo onde é preciso ter dinheiro para comer, toda criação humana se torna inevitavelmente um produto vendável, caso contrário o criador morreria de fome. Assim sendo, temos os artistas do rock, axé, forró, sertanejo, pagode, reggae, que fazem arte, algumas mais elaboradas e complexas do que outras, mas todas produtos. 

Antes de prosseguir com a leitura, deixemos claro que não sou da turma do “na minha época era melhor”, “funk não é música”, “as músicas de hoje não prestam”, etc. Sou músico profissional e estarei fazendo uma rápida análise da estrutura das canções atuais em comparação com as antigas, mas apenas no âmbito musical e nada relacionado a comportamentos e gostos pessoais. Como disse anteriormente, a música é uma mercadoria, e é também influenciada pela sua época. 

Por mais que se diga que antigamente era melhor, ainda assim as composições precisavam seguir uma determinada configuração para serem veiculadas nas mídias vigentes. Por exemplo: a introdução das canções tinha um determinado tamanho para que os locutores de rádio pudessem “falar em cima”, tratando-a como uma espécie de trilha sonora para preencher o espaço vazio entre a voz do locutor e o ouvinte. O tempo total também era essencial, se ultrapassasse 3 minutos e meio não tocava (com exceções de clássicos como Bohemian Rhapsody do Queen ou Faroeste Caboclo da Legião Urbana, etc). Muito som de distorção era vetado, resultando no rock brasileiro dos anos 80 que mesmo rápido e pesado, não tinha quase nada de guitarras distorcidas com pedaleira, era tudo “clean”. O Barão Vermelho sofreu com esse problema ao usar distorção nas músicas. E não estamos sequer incluindo aqui um outro problema que influía no trabalho dos compositores, a Ditadura Militar que não permitia certos tipos de letra, havendo muita censura e impedindo o lançamento de diversas obras consideradas subversivas. Então, apenas nesse pequeno parágrafo percebe-se que reduzir o debate às noções de gostos pessoais como se fossem teses acadêmicas é uma infantilidade. Sabendo disso, passemos às minhas críticas que (infelizmente) não são debates infantis, sobre algo que está empurrando a nossa arte musical para o penhasco. 

A tradicional forma: início, estrofe, refrão, estrofe, refrão e final, não existe mais. Pra conseguir a atenção do público (que consome em plataformas digitais e não em cd ou disco de vinil), o ponto alto e o clímax precisam ser apresentados imediatamente, caso contrário, será pulada e esquecida pra sempre, em muitos casos, a canção começa pelo refrão. Cada artista lança singles e não mais álbuns, resultando no fenômeno da playlist, com cantores e bandas de estilos variados e sem uma sequência lógica. O tempo está menor, acima de três minutos fica enjoativo. A letra não pode ser complexa e com excesso de metáforas e figuras de linguagem, ninguém tem tempo de ficar pensando em significados poéticos, ela deve abordar aspectos da vida cotidiana do ouvinte para que este “sinta que a música está falando com ele”; quanto mais simplória, melhor: casamento, namoro, beber no bar com os amigos, acordar cedo, acordar tarde, trabalhar, curtir, viajar, andar de carro, andar de ônibus, chorar, sorrir, etc. Esses são os temas, ultrapassar essa barreira deixa a música enfadonha e não vende. 

Em média, a cada três meses é necessário lançar uma obra, ela é alçada em alguns dias como “a mais tocada no Brasil”, mesmo não sendo verdade. Os clipes precisam simular ao vivo, se possível com presença de pessoas em volta do cantor para simular uma festa (churrasquinho de fim de semana com os amigos, bebendo no quiosque da praia, reunindo os colegas no bar, etc). Independente do conteúdo da letra, deve-se emanar alegria. Os “feats”, parcerias entre compositores e interpretes são a regra, nada de promover algo sozinho, pois com a tática das participações, angaria o público de ambos, aumentando o faturamento. 

Pra quem entende de indústria e comércio, compreende rapidamente que estamos diante do típico funcionamento do sistema capitalista, com a apresentação do produto (música), marketing (clipes), venda (shows e streaming) e por fim, a obsolescência programada (lançar single a cada três meses). Graças ao Tiktok e Instagram, muita gente nem consegue mais parar pra ouvir nada acima de 30 segundos (será que a tendência é tudo virar jingle?) 

Sempre foi assim, porém está ficando pior, e um dos sintomas desse problema é que esses mesmos artistas que praticam tudo isso que foi mostrado aqui, já estão começando a recorrer ao cover, regravando clássicos do passado, já que fica difícil manter o ritmo de lançar hit o tempo todo, em grande escala e em tempo reduzido, como se fosse um objeto tangível. Onde isso vai parar? 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.