A música venceu o ódio
Bad Bunny não é um simples estrangeiro. É portoriquenho, alguém que detém direitos de cidadania
Há um novo racismo nos Estados Unidos. A velha e ultrapassada discriminação dos negros no apartheid antes de Luther King, adquiriu cores novas e tons latino-americanos. Uma nação construída por emigrantes, vê-se, agora, de repente, às voltas com o ICE, tropas políticas especiais, treinadas para caçar falantes do espanhol ou do português, para, segundo Donald Trump, expulsá-los à força das fronteiras nacionais. Como estabelecimentos de apoio, transformam galpões em campos de concentração nos quais depositam aquela gente, inclusive crianças, antes de algemá-los dos pés à cabeça e, como se fossem bandidos perigosos, aguardassem o momento de embarcarem de retorno a suas cidades de origem. Não há leis que os protejam. A opinião pública, pega de surpresa, cruzou os braços e somente aos poucos se conscientizou de que as brutalidades que se passavam à sua frente tinham a ver com uma Gestapo pintada com estrelas e tiras vermelhas e azuis, a ser repudiada e condenada. A partir de determinado instante as manifestações em Mineápolis e alhures acenderam sinais de alerta. Enfrentava-se um fascismo mal disfarçado a pretexto de proteger cidadãos. O ódio grassou nas reentrâncias da sociedade.
E, de súbito, durante o grande evento do super bowl, no esporte mais querido da população, o portoriquenho Bad Bunny, valendo-se de sua língua nativa, cantou e movimentou multidões numa espécie de resposta inesperada contra a estupidez de uma doutrina divisionista, metida a grande e, na verdade, pequena como só podem ser as teses racistas. Para culminar, citou as comunidades da América, de norte a sul, do Canadá ao Brasil, sem se esquecer daquela gente que nos compõe a todos, com nossas dificuldades e grandezas. Não faltaram citações do ICE invasor de residências e sequestrador de crianças. Na Casa Branca, não gostaram. Afinal, eles andam bombardeando pescadores no Caribe e, numa ação arbitrária na Venezuela (sem aval do Congresso), atentaram contra um dirigente estrangeiro só para demonstrar força e provar que se colocam acima da Lei.
Não há como ignorar o efeito do show do popular cantor e os ataques implícitos que desferiu contra os marginais que tomaram conta da Presidência da República com suas teses reacionárias, violentas e isolacionistas. A continuar nesse caminho, a administração se cercará de pechas que colarão em suas costas como marcas digitais. Já não lhe bastou retratar Obama e Michelle como macacos, num post. No entanto, como se tratava de expulsar emigrantes, propagava-se a ideia de que apenas se reorganizava a administração pública, bandeira que hoje fracassou de vez.
Bad Bunny não é um simples estrangeiro. É portoriquenho, alguém que detém direitos de cidadania. E não é um pobre de espírito. Sabe o que fez com cada uma das palavras que pronunciou em espanhol, em nome da unidade e do amor. Na dança, nos requebros com que se notabilizou, deixou a sua mensagem. Volto a repetir: Lula, não se encontre com Trump. Tergiverse. Apertar a mão e trocar delicadezas com um racista não condiz com os interesses nacionais.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
