A namoradinha ri do Brasil

As mortes que já se contam às centenas ainda haverão de contar-se aos milhares enquanto as celebridades seguem sorrindo folgadamente à meia-tarde em programas televisivos

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A sra. Regina Blois Duarte (1947), Secretária Especial da Cultura do Governo Federal, era uma jovem de seus 17 anos quando os militares tomaram o poder através de um golpe de Estado no Brasil em 1964 e, portanto, já capaz de ler as falsificações dos jornais, as omissões dos telejornais, das amplas manipulações típicas de regimes ditatoriais. Jovem ainda, mas capaz de ouvir todos os gritos guturais que corriam aqueles tempos, dos mais aos menos agudos, e não menos da dança de corpos, quer nos palcos ou em outros espaços obscuros. Poderia alguém esquecer tudo aquilo se realmente alguma vez pode sentir empatia por todos que pereceram naqueles dias?

Até há não muitos anos exercendo o ofício de atriz, então conhecida publicamente como Regina Duarte, estrelava novelas de grande êxito popular, tendo sido a estrela principal de muitas delas, aliás, com títulos hoje muito ilustrativos, a exemplo de Anjo Marcado, Legião dos Esquecidos e O Terceiro Pecado, sem esquecer a icônica Selva de Pedra e, já bem mais recentemente, também foi a estrela de novelas que recobram interesse, como é o caso de Vale Tudo e de Rainha da Sucata. De fato, como poucos atores, a atriz em causa soube escolher papéis muito adequados à sua talha e perfil, e que além de não perder atualidade, finalmente, lhe caíram muitíssimo bem à sua personalidade.

Em entrevista à CCN Brasil a Secretária Especial da Cultura, sra. Blois Duarte, teve o que dizer, e no seu veículo predileto e de ofício, o fez. Quando proposto o tema da ditadura militar, sugiro, foi então que avançamos no conhecimento da persona. Diria ela que morre muita gente, que não poderia criar uma “necrológica” no Ministério da Cultura, e dentre tantos, o grande gênio da música brasileira, Aldir Blanc, foi classificado de apenas mais um, e o veterano e histórico ator Flávio Migliaccio, apenas mais outro, e que pereceu em circunstâncias trágicas. Foi na tarde deste dia 7 de abril de 2020 em que a infâmia ultrapassou as suas próprias fronteiras-limite, adentrando ribaldamente o território de sepultamento intelectual em vida da ex-atriz.

Em tempos em que perecem brasileiros(as) à razão de centenas diariamente, em uma tragédia tão anunciada quanto sem fim visível, à inteligência da sra. Blois Duarte lhe satisfez assoviar entremeando alegre cantarolar da música-tema da ditadura militar brasileira que misturava ufanismo ludopédico aos propagados êxitos econômicos sob a trilha ribombante de Miguel Gustavo. Hoje, como antanho, morrem centenas de brasileiros(as) às cambulhadas tanto sob a indiferença como sob a organização de órgãos do Governo ao qual pertence a sra. Blois Duarte que, em resposta, assovia e desfila o sorriso feliz às câmeras da CNN-Brasil. Nós morremos sufocados enquanto o Governo riu gostosamente às lentes da televisão em cadeia nacional.

A sra. Blois Duarte empresta apoio, participa e defende cotidianamente um Governo que despreza mulheres e idosos, bem como todo o povo brasileiro assim como o mundo da cultura e os seus artistas. Do sexo feminino, conhecida como “namoradinha do Brasil” nos idos da década de 1970, de nacionalidade brasileira e atriz por profissão, a sra. Blois Duarte. Ela encarna a contradição humana, mas antes fosse uma metamorfose ambulante à la Raul Seixas. Não é. Em tempos idos, foi à Cuba, mas não entendeu a rumba, pois nem tudo que os olhos acessam a alma percebe, pois mesmo as almas pequenas se distraem e se põe a navegar, a sra. Blois Duarte entre elas, ombreada no quebradiço observando com solene desprezo os que vão sendo atirados ao mar. Nos obscuros tempos da ditadura militar que suscitam folgados risos à sra. Blois Duarte a estética para a esmagadora (e esmagada) população era cinzento e verde-oliva. A hoje ex-atriz foi então protagonista de obras marcantes da teledramaturgia de massiva assistência, no momento em que corriam os últimos anos da década de 1960 e as cadeiras do dragão dilaceravam e os paus-de-arara estavam armados em todos os recantos do Brasil e seguia a indústria de sua produção sob alta demanda.

O Major “Sebastião Curió”, promovido a Coronel, que então dissecava corpos, reaparece no Planalto quase nonagenário em cadeira de rodas com muito mais peso do que a provecta idade, pois contando em seu íntimo com toneladas de nomes e corpos que atormentam indefinidamente os atormentadores. Nada escandaliza nem parece demais a gente que não parece pertencer aos mortais, é sede de sangue demais. Enquanto isto a sra. Blois Duarte desempenhava alegremente junto às câmeras da CNN para dizer que o passado deveria ser esquecido, convidando a que vivêssemos levemente estes dias, que a vida aí está para ser vivida, como se não a miséria não atingisse milhões de brasileiros(as), como se a morte por sufocamento dada a inépcia de seu Governo não fosse iminente para qualquer um de nós e, enfim, como se carregar a morte violenta dos outros e da ruptura do mundo dos afetos dos que ficaram pudesse ser normalizado. É isto uma mulher?

A hoje ex-atriz, tal como lhe apresenta a sua última grande empregadora na teledramaturgia nacional, se houve com grande desenvoltura nos estúdios por longas décadas, sem culpas ou rubor, demonstrando medo aos processos eleitorais livres, mas em nenhum caso expressando tantos receios quando ecoavam horrendos gritos de morte desde Petrópolis, especificamente de sua tétrica Casa da Morte (situada à rua Arthur Barbosa, 668, no bairro Caxambu). De entre aquelas paredes habitadas por homens letais ninguém mais sobreviveu do que a massacrada Inês Etienne Romeu, que, logo pode testemunhar o que ocorreu. No jargão dos torturadores do CiEx aquele era o espaço descrito como “casa de conveniência”, o que foi narrado pelo graduado operador dos porões da ditadura, Paulo Malhães (“Dr. Pablo”), que quando começou a falar foi encontrado morto nos padrões de extermínio em que muitas das outras das vítimas da ditadura militar brasileira. Nada disto parece interessar minimamente à sra. Blois Duarte, pois a história lhe parece um fardo, de onde é legítimo questionar o que, afinal, entende por cultura. Mas, se é assim, pode ser isto algo mais do que sinistro?

Onde estava a persona política da sra. Blois Duarte quando voavam aos quatro cantos do país os pedaços de carne de corpos dilacerados, temperados por prévios gritos orquestrados pelos equipamentos de tortura como a pianola Boilesen, cuja crescente escalada elétrica sobre os corpos parecia agradar aos presentes nas sessões intermináveis de tortura? Este era um produto de importação por sádicos como o empresário Albert Hening Boilesen, Presidente do grupo Ultra (da conhecida Ultragás), que assistia com regozijo às sessões, e dentre as diversas fontes assim informa também o historiador Gorender. Personalidade sombria, era um dinamarquês naturalizado brasileiro, em cujo ocaso manteve próximo e derradeiro diálogo com a sarjeta, que talvez lhe tenha permitido confessar-se com algo à sua altura. Foi aquilo um homem?

Vivo, Boilesen era personalidade que circulava com singular desenvoltura sendo recebido com extrema simpatia por altos gabinetes da República e do mundo dos negócios pela canina mentalidade da elite que não resiste aos platinados de sobrenomes transalpinos, tão esquisita quando desprezível manifestação de auto-colonização hipnótico-étnico-antropológica. Útil, Boilesen era um exímio arrecadador de dinheiro nestes círculos que eram, se supõe, integralmente destinados aos órgãos de repressão, aliás, em aberta corrupção, pois já estavam pagos para fazer o seu trabalho, embora talvez as horas-extras para dedicar-se à capturas violentas, tiroteios e torturas “merecessem” recompensas extraordinárias. Boilesen se regozijava com assistir sessões de torturas. Isto faz parte do que a sra. Blois Duarte acredita ser uma constante histórica da qual a humanidade não pode sequer propor-se repugnar e, portanto, devemos resignar-nos a rastejas neste pântano rejeitado até pelas serpentes. Perfídia.

A sinistra OBAN (Operação Bandeirantes), assim como outros órgãos da repressão, esteve intimamente conectada com forças paraestatais e foi financiada por instituições empresariais como a FIESP e por empresas norte-americanas. Estas estiveram notadamente interessadas em dar suporte ao regime militar brasileiro para reprimir movimentos políticos que em alguma medida ampliassem a margem de poder dos trabalhadores, algo também muito comum no Uruguai e na Argentina, onde as fábricas montadoras de carro serviram como espaço para a realização de torturas de algumas das lideranças sindicais. Eventual manipulação da arte servia como espesso véu para encobrir realidade dura como esta, ilusionismo que sempre é, como admitem Adorno e Horkheimer. Qual é a essência de um ser dotado de tão vasta insensibilidade humana que alega desconhecer este plano do real, mesmo percorrendo os mais importantes estúdios da arte brasileira? Qual a sensibilidade da alma de artista cujo padrão ético aplicável à humanidade coabita com a existência e prática de tortura? De fazer fé de sua clara exposição verbal em entrevista, a sra. Blois Duarte, sob compromisso com a congruência, estaria pronta a estender o mesmo juízo aos campos de extermínio nazistas. Senhora de triste figura.

Todos estes círculos de fazer inveja à literatura dantesca foram visitados por muitos cidadãos Boilesen, todos com black tie e mãos ensanguentadas, deslizando por altos e luxuosos salões aos quais não era interditada passagem às grandes personalidades e celebridades de todas as áreas. Ninguém poderia desconhecer o que ocorria nas ruas quando ao seu lado nos salões transitavam a tigrada que levava marcada em suas faces os gritos mais intensos, mas os sofrimentos terríveis que lhes originaram não tocaram à sra. Blois Duarte, a quem a crítica endereçada em entrevista na CNN-Brasil a fez despertar com ira que a própria morte de várias centenas de brasileiros(as) é incapaz, passando a censurar os jornalistas: “Vocês estão carregando um cemitério nas costas, fiquem leves!” Não, sra. Blois Duarte, quem carrega o cemitério nas costas são os homens e mulheres que, como a senhora, compõem Governo que não enrubesce em facilitar o morticínio cruel por sufocamento nem hesita em disseminar falsas informações para ampliar a exposição do maior número de indivíduos ao risco de morte.

São os detentores do poder que carregam um cemitério (repleto) nas costas, e mesmo quando sugiram que a sua vida é leve, não passarão a noite senão sob o signo da leviandade. Alardeia alto e bom som na CNN-Brasil em meio a pandemia conduzida pelo pandemônio que ceifa a vida de milhares: “Estou viva, estamos vivos, vamos ficar vivos. Não vamos arrastar cordéis de caixões”. Malgrado a insistência sobre o seu estado vital, não é suficiente, pois, não, sra. Blois Duarte, comete enganos, e profundos, espécie de duplo twist carpado decadente e invertido de sua razão, pois a vida de todos nós, e a sua, está em grave risco, e já é tarde, demasiado, para que tente se desincumbir desta triste tarefa que é sua e de todos os demais responsáveis executar.

Como se estivesse à parte do universo tanatológico que sustenta, a sra. Blois Duarte sorri ampla e gozosamentena CNN-Brasil, impingindo colossal desprezo à memória de milhares de mortos e às suas famílias, que sequer puderam prantear os seus e elaborar seu luto, senão enfrentar-se às indescritíveis covas rasas coletivas manauaras. Mas nada disto realmente importa e sensibiliza quando o desprezo triunfa, quando então renasce o espírito da coroada nobre francesa Maria Antonieta ou o maestro do Titanic, agora aconselhando os seus cidadãos a que sigam vivendo as suas vidas alegremente. Faltará o espelho que reflita aos seus olhos septuagenários o quão enfermo é o mundo do qual escolheu cercar-se, senão o seu próprio e tão íntimo.

Em sua entrevista a sra. Blois Duarte foi enfática em seu desejo de ver-se livre do “cemitério nas costas”, dando a entender que lhe resultaria insustentável peso, mas não parece dispor de empatia suficiente para compreender a massa de cadáveres que as ações de regimes ditatoriais de qualquer tipo e modelo podem impor. Todos e cada um dos assassinados foram reclamados pelos seus, nunca permaneceram indiferentes. Quem, afinal, pode aspirar distanciar-se da densa culpa encorpada em milhares de mortos? Quem pode alegar desconhecimento do que ocorreu durante a ditadura e dos outros tantos mortos que estão sendo fabricados pela nova ditadura também esverdeada? Desde a primeira já transcorreram longas décadas após a Nova República, que ofereceu as condições básicas para que todos deparassem com a história de seu tempo e curassem a dor da omissão. Mas depois de cruzar o tempo, já nada mais justifica compactuar com os demônios encarnados em homens que propõe à luz do meio-dia, e sob céu de brigadeiro, omitir ou apoiar uma vez mais a implantação do puro e sanguinário reino do terror. O que é, enfim, aquilo que, mesmo ostentando suave sorriso, conjuga supina leviandade e suprema atrocidade para compartilhar projeto de terror? Pode ser isto um homem?

Tosos os dias de terror foram habitados pela sra. Blois Duarte que, certamente, não conheceu as dependências do inferno por dentro, na carne, como muitos dos que dividiram os estúdios consigo. Eram tempos de profissionais treinados para a tortura, gente especializada em arrancar carne e sangue de corpos vivos com o objetivo de produzir a maior dor, lancinante se possível, mas sem matar. Enquanto isto ocorria, a sra. Blois Duarte emprestava o sorriso como véu para as telas da grande TV oficial financiada pelo regime militar, a Rede Globo. Erguendo pensamentos, alguns diriam que tampouco pode dispor da empatia típica dos humanos aqueles que não são capazes de colocar-se na pele do outro, tal como o fazem os grandes, legítimos e talentosos artistas. Migliaccio precisou morrer para suportar o Governo qual a sra. Blois Duarte, Aldir Blanc foi sufocado pelo regime da Secretária, Moraes Moreira pereceu sem reconhecimento oficial, mas a grande viga da cultura nacional que está sendo trucidada é o povo brasileiro, para o qual a sra. Blois Duarte não tem palavra mas, radicalmente mais grave, nem comiseração, e sequer respeito.

Sob as vistas privilegiadas (e grossas) daqueles que compartilham as salas anexas do poder, as decisões sobre a morte de muitas centenas foram tomadas, assim como a sua execução, antecedidas por tortura. Os estrelados dirigentes da ditadura tomaram decisões, determinaram o cumprimento de ordens, e muitos as executaram em “campo”, homens que eram o braço executivo do regime, a exemplo daqueles que falharam ao realizar o gravíssimo atentado no Riocentro que teria matado milhares de pessoas em um festivo 1º de maio de 1981. Ciosos em atribuir responsabilidades, os militares à época foram céleres em culpar “os de sempre”, a esquerda, quando, em verdade, o plano era militar, para, exitoso o atentado, justificar o recrudescimento da violência do regime contra a esquerda. Reprimir e matar, eis a consigna militar de mentes aparentemente trituradas por um vírus perigoso e altamente letal em sua capacidade de conceber aos borbotões, bem como de executar políticas de perecimento em massa.

A sra. Blois Duarte empresta o seu rosto simpático a Governo que reserva magnífica indiferença em que vale tudo, trazendo-nos à memória ditadores e torturadores, evocando até mesmo rainhas e todas as sucatas com as quais são capazes de conviver, normalizando até mesmo o genocídio. Mas o que liga a sra. Blois Duarte à morte? Das múltiplas centenas de mortes a sra. Blois Duarte é corresponsável politicamente, pois dá sucessivas mostras de sua afinidade com o Governo a que serve, não perdendo oportunidades de expressá-lo, como foi o caso desta entrevista à CNN-Brasil neste dia 7 de abril de 2020, ao afirmar que mortes ocorrem todos os dias, e que ali onde há humanidade, há mortes. Indubitavelmente, não estamos a colocar em dúvida que a felicidade do nascimento entranha o trágico do perecimento.

Fato da vida, a certa altura, é a morte, mas o que é tangenciado pela sra. Blois Duarte, que quando questionada na entrevista concedida à CNN-Brasil sobre as circunstâncias do presente sofrimento do povo brasileiro, responde, literalmente: “Cara, vou te contar uma história: Na humanidade não para de morrer. Se você falar Vida, tem morte. Não entendo porque ficam sempre falando isso”. Marcante da sra. Blois Duarte, notável, é a ausência da necessária sutileza, é que a morte não deve ser alimentada nem as suas circunstâncias de ocorrência potencializadas a ponto de antecipar a sua ocorrência à massa dos indivíduos que se submetem a um governo cuja missão maior é justamente criar as condições de segurança em todos os níveis e âmbitos. O Governo ao qual a sra. Blois Duarte presta serviços, sem embargo, percorre caminho inverso, por não poucos classificado fundadamente como necropolítico, e por outros, como emasculador da soberania nacional em favor do império norte-americano.

A sra. Blois Duarte, fina transeunte entre estúdios e rodeios/currais, não entende por qual motivo poderia ser inadequado e inconveniente falar sobre a morte sob o signo do desprezo quando várias centenas de homens e mulheres estão perdendo as suas vidas no Brasil, todos os dias, e crescentemente. No roteiro de sua interpretação não está suficientemente claro que a persona que encarnou deve responder ao povo e aos tempos, menos que ao sinhozinho com quem lhe tocou contracenar por exclusiva eleição. Mas tal independência para servir ao povo não lhe interessa. A responsabilidade histórica que será indefectivelmente apurada apontará a inépcia do Governo ao qual a sra. Blois Duarte serve na qualidade de Secretária e dá sustentação pública, e por isto corresponsável política do genocídio que o Brasil apurará através de pesquisas detalhadas, posto que os registros das mortes não contém as informações precisas sobre a causa mortis de dezenas de milhares. Acaso lhe falta o espelho que reflita aos seus olhos septuagenários o quão doente é o mundo do qual escolheu cercar-se, senão o seu próprio, e íntimo.

Aqueles que como a sra. Blois Duarte afirmam com crueza pandemoníaca que a humanidade não para de morrer menosprezam que alguns poucos não param é de organizá-la para concretizar o ato de matar. A Secretária desconsidera a distância entre morrer e ser vítima de homicídio, entre morrer de causas naturais ou devido a um genocídio devidamente arquitetado. E este é, embora ela diga não entender, o real motivo pelo qual sempre devemos falar nisto, assim como sempre devemos regressar a falar no Holocausto promovido pelo nazismo, algo que, parece, não cabe na régua da sra. Blois Duarte. Em meio a entrevista o jovem repórter recordou que havia muito a lamentar do período da ditadura militar imposta ao Brasil, posto que ocorreram muitas torturas, assassinatos e desaparecimentos. Impávida, a sra. Blois Duarte empostou a voz como que disposta para uma cena de dramaturgia que recordaria os melhores dias de outro político importante ao exercer o mesmo ofício, Ronald Reagan, e logo respondeu: “Sempre teve tortura”. Assim também, sra. Blois Duarte, esta foi a realidade nos campos de extermínio nazistas, em que dezenas de milhões perderam as suas vidas de todas as formas mais cruéis e abjetas que seja imaginável após o período de sobrevida que conseguissem. Segundo a sua lógica de pensamento, acaso tivesse sido perguntada a respeito da matéria, provavelmente responderia com aquela que mostrou ser a consigna-mor do desleixo moral destes dias de banalização do genocídio: E daí?

Nada, realmente nada mais interessa nestes dias do que priorizar a notícia, a análise e providências práticas de ordem sanitária para abordar a vasta catástrofe humana que se abate sobre o Brasil e ainda radicalizará muito antes que amaine e desça a níveis ainda muito intensos. As mortes que já se contam às centenas ainda haverão de contar-se aos milhares enquanto as celebridades seguem sorrindo folgadamente à meia-tarde em programas televisivos. Portanto, quando aqui trato da sra. Blois Duarte é apenas para tomá-la como tradução da falta de luminosidade destes tempos, de quão obtusa é nossa experiência ética, de quão sombrios são os personagens centrais desta ópera bufa até mesmo quando escalados em um elenco para apresentar face pretensamente sedutora. É que a sua versão de sorriso é letal, típica do reino de Tânatos.

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