A não violência como arma imperialista - parte 2

Lembremos que as "revoluções coloridas" estouraram a partir dos anos 2000, após a publicação de The Grand Chessboard. Não admira que em tais "revoluções" tenham sido injetados tantos milhões de dólares pelos Estados Unidos. Movimentos não violentos de protesto e deposição de governos espalharam-se em praticamente todos os países da antiga União Soviética, financiados pelos EUA

Lembremos que as "revoluções coloridas" estouraram a partir dos anos 2000, após a publicação de The Grand Chessboard. Não admira que em tais "revoluções" tenham sido injetados tantos milhões de dólares pelos Estados Unidos. Movimentos não violentos de protesto e deposição de governos espalharam-se em praticamente todos os países da antiga União Soviética, financiados pelos EUA
Lembremos que as "revoluções coloridas" estouraram a partir dos anos 2000, após a publicação de The Grand Chessboard. Não admira que em tais "revoluções" tenham sido injetados tantos milhões de dólares pelos Estados Unidos. Movimentos não violentos de protesto e deposição de governos espalharam-se em praticamente todos os países da antiga União Soviética, financiados pelos EUA (Foto: Baby Siqueira Abrão)

O papel dos Estados Unidos na deposição “não violenta” dos governos de países da antiga União Soviética remete ao estudo sobre a Eurásia realizado por Zbigniew Brzezinsky (1928-2017), consultor de segurança nacional durante a presidência de Jimmy Carter. No livro The Grand Chessboard: American Primacy and Its Geostrategic Imperatives [O grande tabuleiro de xadrez: supremacia estadunidense e seus imperativos geoestratégicos], Zbig, como Brzezinsky era chamado, destaca a importância da Eurásia no cenário internacional e afirma a necessidade de os Estados Unidos, para permanecer como potência dominante no planeta, impedirem a hegemonia de um ou mais países da região. O livro foi publicado depois da dissolução da União Soviética (1991), mas o projeto de Zbig começou no Afeganistão e foi bem-sucedido em relação à retirada dos soviéticos daquele país, em 1989 – depois de uma guerra de dez anos cujo alto custo, segundo alguns especialistas, foi o começo do fim da URSS. Também foi no Afeganistão, segundo confessou em entrevista à BBC a ex-secretária de Estado Hillary Clinton, que os EUA começaram a montar as estruturas iniciais para a formação, o treinamento e a doação de armamentos para grupos especializados em terrorismo, como o Talibã. Mas essa é outra história.

Lembremos que as chamadas “revoluções coloridas”, como vimos na parte 1 desta série, estouraram a partir dos anos 2000, depois da publicação de The Grand Chessboard. Não admira, portanto, que em tais “revoluções” tenham sido injetados tantos milhões de dólares pelos Estados Unidos. Mesmo assim, foi uma economia e tanto: o gasto teria sido muito maior se, em vez de métodos não violentos, fosse usada a guerra convencional para derrubar os governos-alvo. E, embora alguns resultados tenham acontecido já no século XXI, os movimentos de oposição ao regime comunista começaram nos anos 1980, com a chamada “revolução de veludo”, uma rebelião não violenta iniciada na antiga Checoslováquia entre novembro e dezembro de 1989 e que obrigou à renúncia do então presidente Gustáv Husák.

Movimentos não violentos de protesto e deposição de governos espalharam-se em praticamente todos os países da antiga União Soviética, induzidos e financiados pelos Estados Unidos – que também agiu na Polônia, dando suporte à central sindical Solidariedade (Solidarność) e a seu líder, Lech Walesa, famosos no mundo inteiro pela ajuda na derrocada do regime comunista polonês. Originalmente um eletricista no estaleiro de Gdansk – um boato dizia que trabalhava como espião do governo, o que ele nega –, Walesa liderou grandes paralisações, ganhou o Nobel da Paz em 1983 e tornou-se presidente do país de 1990 a 1995.

De ativistas a espiões internacionais

O trabalho da CIA no leste e no centro da Europa, porém, não se limitou a derrubar dirigentes e a levar ao poder políticos comprometidos com os Estados Unidos. Os líderes mais destacados da oposição aos regimes comunistas acabaram sendo contratados por agências de inteligência associadas à CIA, para formar e treinar grupos semelhantes ao Otpor! em nações nas quais os EUA desejavam aplicar o regime change (mudança de regime), eufemismo para nosso velho conhecido golpe de Estado, item fundamental da política externa estadunidense.

Milhares de e-mails publicados pelo Wikileaks sob o título Global Intelligence Files (Arquivos de Inteligência Global) revelaram que o Otpor! foi desativado e que seus dirigentes fundaram o Canvas (Centre for Applied Nonviolent Action and Strategies; Centro para Ação e Estratégias de Não Violência Aplicada), também financiado pelos EUA. Os antigos universitários do Otpor! terminaram seus cursos, receberam seus diplomas e profissionalizaram a atividade de promover golpes e desestabilizações mundo afora. Em 2007, Srdja Popovic, ex-principal líder do extinto Otpor! e fundador do Canvas, foi convidado pela Stratfor (Strategic Forecasting, Inc.) – a empresa texana que se apresenta como “sombra da CIA” – para uma palestra interna sobre a derrubada de governos no Leste Europeu.

Depois disso, as duas partes passaram a trabalhar juntas. A correspondência eletrônica revelada pelo Wikileaks mostra que Popovic repassava para a Stratfor informações sobre os ativistas com quem mantinha contato em várias partes do mundo. Ou seja, aproveitando a fama, e a confiança que os militantes de diversos países depositavam nele, Popovic tornou-se uma espécie de “agente duplo”.

Ele enviava para os serviços de inteligência dos EUA, por meio da Stratfor, os planos dos ativistas com os quais trabalhava em países tão diferentes como Azerbaijão, Bahrein, Belarus, Egito, Filipinas, Geórgia, Irã, Líbia, Malásia, Polônia, Tibete, Tunísia, Venezuela, Vietnã e Zimbábue. Esse repasse era feito, evidentemente, sem o conhecimento dos ativistas.

A diretora do Centro de Direitos Humanos do Bahrein, Maryam Alkhawaja, afirmou conhecer Popovic há muitos anos sem nunca desconfiar de que ele fosse um agente duplo. Só conheceu essa outra face do ativista-espião quando o Wikileaks publicou os e-mails da Stratfor. “Foi um susto. Srdja demonstrava apoiar a revolução em meu país e a luta por direitos humanos”, disse Maryam.

“Antes disso ele me falou da Stratfor, mas na época eu não sabia que empresa era aquela. Passei a suspeitar depois de ler o e-mail que a Stratfor me enviou”, acrescentou. “Eles faziam perguntas insólitas a alguém que dirigia um grupo de direitos humanos, do tipo que uma agência de inteligência faria: quem custeava nossa organização, quantos membros tínhamos... Isso me levou a questionar os reais motivos do e-mail que recebi.” Ressabiada, Maryam nunca respondeu às perguntas.

Srdja Popovic contou uma versão altruísta da história. Disse que jamais colocou os ativistas em perigo e que nunca falaria do trabalho que realizavam sem pedir seu consentimento. Afirmou que o Canvas conversava com todas as pessoas, sem discriminação, sobre a ação direta não violenta. “Se conseguirmos convencer as autoridades mundiais (...) de que elas devem abraçar e respeitar a luta não violenta em lugar da intervenção militar ou da opressão de um povo, teremos obtido êxito”, declarou ele certa vez. Foi desmentido pelos e-mails publicados pelo Wikileaks.

A verdade é que essa é uma atividade muito lucrativa. Há muito dinheiro envolvido. O governo dos Estados Unidos e a CIA não fazem doações diretas à Stratfor; elas vêm de organizações autodenominadas sem fins lucrativos ligadas ao poder estadunidense, como a NED, The National Endowment for Democracy, e suas associadas (você conhecerá essa rede na parte 3 desta série). Dados de 2009 apontam que a ONG recebeu, somente do governo dos EUA, mais de 135 milhões de dólares para atuar em 90 países. Fundos privados e grandes empresas também contribuem com altas somas para obter informações consideradas sensíveis a seus negócios. E a Stratfor é especializada nisso. Tanto ela como outras agências menores recebem valores difíceis de calcular porque não são obrigadas a prestar contas.

O objetivo da Stratfor, ao contratar Srdja Popovic, era conseguir as tais “informações sensíveis” e repassá-las a seus clientes e ao governo dos Estados Unidos. A empresa nunca teve a intenção de depender do agente sérvio para manter contatos frequentes com os ativistas “criadores de problemas” – as palavras são de um funcionário graduado da própria empresa, o analista para a Eurásia Marko Papic, num e-mail de maio de 2010.

“A capacidade que ele [Popovic] tem para discernir situações na base [da militância] pode ser limitada; sua tarefa principal é fazer os primeiros contatos e deixar que os ativistas façam o resto”, escreveu Papic em outro e-mail publicado pelo Wikileaks. “Ele tem informações que podem ser úteis vez ou outra. Mas a ideia é reunir, por meio do Canvas, uma rede de contatos com os quais poderemos contar, independentemente [do Canvas].”

Os e-mails também mostram que a Stratfor opera em sintonia com o governo dos Estados Unidos e costuma contratar seus ex-funcionários – como Fred Burton, ex-agente especial do serviço de segurança diplomática do Departamento de Estado. As mensagens eletrônicas revelaram que a Stratfor enviava informações para o Mossad, o serviço secreto israelense que atua fora de Israel. Os intermediários dessa agenda clandestina, segundo os e-mails, eram Yossi Melman, do jornal israelense Haaretz, e David Leigh, do jornal britânico The Guardian.

A CIA e os livros de Gene Sharp

Em maio de 2005, o jornalista francês Thierry Meyssan publicou na rede de notícias Voltaire, fundada e presidida por ele, um artigo sobre o uso da não violência como tática de dominação. No texto, “The Albert Einstein Institution: non-violence according to the CIA” (Fundação Albert Einstein: a não violência segundo a CIA), Meyssan denunciava que a instituição, criada por Gene Sharp em 1983, trabalhara com a Otan e depois com a CIA, treinando os líderes dos “golpes brandos” no Leste Europeu. Na data da publicação do artigo, esse treinamento vinha acontecendo havia 15 anos.

Sharp negou a acusação, e seu amigo Stephen Zunes, professor da San Francisco University, escreveu uma carta aberta também assinada, entre outros, por Noam Chomsky e Howard Zinn – renomados acadêmicos da centro-esquerda estadunidense –, negando o envolvimento de Sharp com a CIA. Hoje, graças ao Wikileaks, sabe-se com certeza que os livros desse ex-professor da Universidade de Dartmouth foram utilizados por organizações financiadas pelos Estados Unidos – como Otpor!/Canvas, Kmara e Pora –, decididas a derrubar governos “da Lituânia à Sérvia, à Venezuela e à Ucrânia”, como relatou Thierry Meyssan.

Também em 2005, numa entrevista à jornalista Laura Secor, do jornal The Boston Globe, Gene Sharp confessou ter visitado a Estônia, a Latívia e a Lituânia quando boa parte dos povos dessas nações tentavam separá-las da União Soviética. Nesses três países os movimentos de oposição usaram as técnicas não violentas descritas nos livros de Sharp para mudar o governo e o regime. Ele conta como foi sua colaboração:

Tive reuniões com líderes das três nações, e eles se inspiraram fortemente num livro meu, Defesa civil, que na época tínhamos apenas em provas gráficas, e em inglês.

Sharp também confessou ter estado na praça Tianamen, a praça da Paz Celestial, na China, durante a revolta popular de 1989 contra o governo chinês. Para ele, a rebelião deu errado porque os ativistas não elaboraram um plano nem tinham estratégia.

Foi mais ou menos um movimento acidental que acabou atraindo um grande apoio. As pessoas se dirigiram a Tianamen, de onde aqueles que haviam iniciado a revolta já estavam saindo. Mesmo depois da decisão de esvaziar a praça, os recém-chegados decidiram permanecer nela, pois ainda não haviam tido a chance de se manifestar. Mas não tinham um plano. Não entenderam a importância fundamental de negar apoio ao sistema. Ouvimos histórias sobre funcionários públicos civis, dentro de edifícios do governo, atirando dinheiro aos rebeldes pelas janelas. Mas não entraram em greve. Também havia relatos sobre soldados que se recusaram a atirar nos manifestantes. Se isso tivesse acontecido em larga escala, o movimento teria dado certo.

Gene Sharp subestimou a força das autoridades chinesas e de seu serviço secreto. Dificilmente os chineses ousariam fazer uma greve geral na tentativa de derrubar o governo; sabiam que perderiam. Além disso, havia o obstáculo de uma população grande demais, num território extenso demais. Fosse como fosse, o Estado acabou perdendo a paciência depois de algumas propostas de diálogo. Sabia quais grupos estrangeiros estavam em ação no movimento e por quê. Então aconteceu o que os opositores mais temiam.

Em 3 e 4 de junho de 1989, tropas e tanques do exército tomaram as ruas de Pequim, rumo à praça da Paz Celestial, atirando em quem se interpusesse no caminho. Foram dois dias de luta, com os estudantes ora reagindo com violência, ora sentados, quietos, aguardando seus representantes negociarem com os militares. Nada disso impediu o banho de sangue que matou centenas, ou milhares, de manifestantes: a conta ficou entre 180 e mais de 10 mil, dependendo do lado de quem a fez. Foi a “larga escala” imaginada por Sharp. Mas a rebelião fracassou.

Ele contou que por pouco não se tornou testemunha ocular – e decerto mais uma vítima – da matança:

Eu estava lá naquela noite, com um amigo. Havíamos acabado de jantar e voltávamos ao hotel pela praça da Paz Celestial quando as tropas e os tanques chegaram. Queríamos dobrar a esquina e nos esconder para ver o que acontecia, mas os transeuntes chineses nos obrigaram a sair correndo de lá. É por isso que estamos vivos hoje.

Há rumores de que Sharp e seu assistente, Bruce Jenkins, viajaram à China para ajudar a organizar a rebelião. Ele negou, mas a verdade é que chegou a Pequim duas semanas antes de o movimento começar. E os estudantes chineses nunca negaram ter se inspirado em seus livros. Além disso, as autoridades chinesas acabaram por expulsá-lo do país, juntamente com seu assistente. Isso decerto não teria acontecido se os dois fossem apenas turistas a passeio.

Na parte 3 desta série, o papel das ações não violentas patrocinadas pelos Estados Unidos na chamada “primavera árabe” e na América Latina. A rede de organizações que investe quantias altas na formação de efetivos para a derrubada de governos não alinhados aos EUA.

 

 

 

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